“Que haja justiça para Moïse. Nós, refugiados, somos parte da sociedade brasileira”, diz Charly Kongo

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Moïse Kabagambe foi assassinado em 24 de janeiro no Rio de Janeiro / Foto: Reprodução/Twitter/@crisvector

Charly Kongo, Por dentro da África

Nestes mais de 10 anos que vivo no Brasil, experimentei coisas boas e ruins. Primeiro, gostaria de ressaltar que fui e fomos muito bem acolhidos pelo povo brasileiro (um povo muito hospitaleiro), mas foi com a convivência no Brasil que comecei a descobrir o racismo estrutural que existe no país. E é este racismo que levou Moïse** à morte.

Moïse também foi morto porque é negro e, com certeza, não é o único negro a morrer desse jeito. Existem vários brasileiros ou estrangeiros negros que são linchados por motivação racial. Ele também morreu por razões xenófobas, porque era refugiado e africano. O fato de ser refugiado e africano vem somado ao racismo. Se ele fosse um imigrante europeu talvez o seu destino tivesse sido outro.

Em meio à comoção nacional, aproveito para agradecer ao povo brasileiro pela sua sensibilidade à morte do nosso irmão, Moïse. Nesse momento, a justiça já está sendo feita, além da reparação com a família do falecido.

Os problemas enfrentados pelos congoleses e pelos refugiados são muito parecidos com os dos brasileiros da classe baixa. Em várias ocasiões, temos dificuldades de conseguir um trabalho digno, e as nossas qualificações não são levadas em conta.

Charly Kongo, ativista e professor de idiomas, foi uma das pessoas que recebeu Moïse quando ele chegou no Brasil, ainda criança – Arquivo Pessoal

A segunda dificuldade é relacionada à falta de moradia providenciada pelo governo, o que faz com que nós moremos nas periferias ou em lugares muito perigosos. Também somos vítimas da discriminação por causa da nossa cor da pele ou da nossas origens.

Percebemos que a sociedade brasileira atingiu o seu paroxismo em relação ao racismo. Por isso convidamos todos a escutar a indignação do povo. Que seja político, policial, advogado, juiz, padeiro ou professor. Escutem o povo!

Faço apelo aos brasileiros de todas classes sociais e cores de pele que ficaram chocados ou até envergonhados com o caso de Moïse, que tomem ações para que esse tipo de tragédia não se repita com mais ninguém.

É bom pensar em como lutar realmente contra esse câncer que mata pouco a pouco a sociedade brasileira. Assim, peço para que cada um, diante da sua situação de vida, contribua para a melhoria das condições sociais das pessoas pobres, para a redução da desigualdade da sociedade brasileira, a fim de facilitar a inclusão econômica do povo negro brasileiro.

Nós, refugiados, não pedimos proteção especial, mas o melhor para o povo brasileiro, pois somos parte integrante da sociedade.

  • **No dia 5 de fevereiro, atos de protestos tomaram as ruas de todo o Brasil para pedir justiça por Moïse Kabagambe, assassinado em 24 de janeiro. O congolês de 24 anos foi espancado até a morte no quiosque Tropicália, Rio de Janeiro, após pedir o pagamento por seus serviços prestados.
  • Até a presente data, três agressores foram presos. Os assassinos responderão por duplo homicídio. Como forma de reparação mencionada por Charly Kongo, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que construirá um memorial em homenagem a Moïse Kabagambe e que a família do congolês terá a concessão da área comercial onde está o quiosque Tropicália.
Moïse Kabagambe foi assassinado em 24 de janeiro no Rio de Janeiro / Foto: Reprodução

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  • *Charly Kongo vive no Rio de Janeiro há 10 anos, é ativista, trabalha como professor de idiomas e é representante dos refugiados congoleses no Rio de Janeiro