‘Congolização’ e o legado de Patrice Lumumba em Bruxelas

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Gerson Brandão, Por dentro da África

O termo “Congolização” mistura o nome do país “República Democrática do Congo” e a palavra “colonização”. Congolização é um festival cujo objetivo é destacar a diversidade da diáspora congolesa, assim como a contribuição dos artistas congoleses e demais africanos, para a paisagem cultural belga.

Dessa forma, o festival traz consigo a homenagem não apenas a um país, a República Democrática do Congo, mas a todo o continente africano. Outra proposta do evento, além de convidar o público para melhor conhecer o legado artístico africano na Europa, é relembrar a história de Patrice Emeri Lumumba, um dos líderes do movimento pan-africanista que perdeu a vida lutando por um país livre e um continente próspero.

O festival, tradicionalmente, é organizado na 2ª quinzena do mês de janeiro, uma homenagem à batalha de Patrice Lumumba, assassinado em 17 de janeiro de 1961.

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Lumumba foi assassinado por mercenários belgas que buscavam a separação da região do Katanga, no sudeste do Congo. Seu corpo, dissolvido em ácido, nunca foi encontrado. Mais de 60 anos após o seu assassinato, a família ainda aguarda um julgamento em Bruxelas contra funcionários do Estado belga que foram acusados de cumplicidade em uma trama que visava a eliminação física do ex-primeiro-ministro congolês.

(Em setembro de 2020, um tribunal belga autorizou a devolução de um dente -único resto mortal encontrado de Lumumba. A entrega foi marcada para 17 de janeiro de 2022)

Patricie Lumumba, Foto de AP

Congolização serve como um importante contraponto em um momento em que o racismo ainda se faz presente. Em todo o mundo, diferentes movimentos afirmam que ‘Vidas Negras Importam’ e, particularmente na Bélgica, muitos observam com preocupação os memoriais e monumentos públicos ainda dedicados ao rei Leopoldo II, que entre 1885 e 1908 teve o país africano como propriedade pessoal, explorando os habitantes e recursos naturais.

Monumento em homenagem a Lumumba na região do Katanga, um avião simbolizando a última viagem de um guerreiro. Arquivo pessoal Gerson Brandão

Cabe ressaltar que, ainda hoje, em diversas partes do mundo, o sistema educacional, muitas vezes, repete a propaganda colonial que inclui a ideia de que o desenvolvimento econômico chegou à África como resultado da colonização, omitindo a devida referência a personalidades históricas como Patrice Lumumba.

Mesmo que a pandemia ameace a organização do festival em 2022, a necessidade de apoiar a diáspora congolesa e subsaariana, oferecendo-lhes oportunidades reais de desenvolvimento profissional deveria constituir um dos símbolos mais tangíveis das relações entre a RDC, a ‘África Negra’, a Bélgica, e todo o continente europeu.

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A Congolização pode contribuir para tratar de um capítulo sombrio da História promovendo reconciliação e cura, em um processo em que belgas, em particular, mas europeus, em geral, possam enfrentar e reconhecer o impacto negativo da colonização.

O festival busca enfatizar a necessidade de trabalharmos juntos para construir mais unidade e respeito entre os povos no futuro. Assim sendo, que não só a diáspora congolesa, mas de outros países africanos continuem a trabalhar pelo reconhecimento do legado cultural, e pela memória de seus heróis para que não esqueçamos da riqueza artística e cultural do continente africano.