“Fela foi um pensador que teve um engajamento profundo com a África e os afrodescendentes do mundo”, diz Carlos Moore

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Fela Kuti, o pai do Afrobeat - African Music Archive
Fela Kuti, o pai do Afrobeat – African Music Archive

Três décadas após lançar a biografia de Fela Kuti, Moore vai contar, em filme, mais histórias sobre o criador do afrobeat

Por Natalia da Luz, Por dentro da África

Salvador, Bahia – Ele foi uma das figuras mais multifacetadas e importantes do continente africano. Sua influência rompeu as fronteiras da África, fazendo com que ele fosse respeitado em todo o mundo. Além de ter sido o precursor do afrobeat (fusão de jazz, funk, highlife e cantos tradicionais africanos), o nigeriano Fela Kuti foi um ativista, pensador, libertário. Toda essa complexidade foi destampada, revelada por quem acompanhou o músico de perto e tendo como responsabilidade escrever a sua biografia. Hoje, o escritor Carlos Moore ensaia uma nova visita à história do amigo Fela a partir de um documentário gravado na Nigéria dirigido pelo cineasta Joel Zito.

Carlos Moore e Fela Kuti

– Fela pediu que eu escrevesse a biografia em um momento que ele pensava ser os últimos dias de sua vida. Mas ela já tem três décadas e agora há uma popularidade, um interesse enorme sobre ele. Nessa situação real, faz sentido revisitar Fela – diz, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, o escritor cubano que acompanhou a produção do documentário My friend Fela.

Moore faz uma crítica apontando que, hoje, o músico/ativista/político está diluído em meio a tantas visões. Com a obra sendo lida e vista em países como China e Japão, que, provavelmente, Fela nem pensava alcançar, o que Moore quer é contribuir com a visão de quem conviveu com o ativista nigeriano e chamar atenção para a comercialização de uma imagem falsa de Fela Kuti.

-Por um pretexto comercial, está sendo projetada uma visão muito light de Fela, uma espécie de Hobbin Hood, uma espécie de vilão simpático. Fela era um pensador da África, um político que tinha um engajamento profundo com África e com os afrodescendentes do mundo. Ele era alguém que compreendia que o mundo estava entrando em uma nova era, onde as fronteiras estavam desaparecendo e um enorme monstro estava surgindo: o capitalismo globalizado – disse Moore, que escreveu a biografia do ídolo, em 1982, intitulada “Fela, esta vida puta” (Fela Kuti: this bitch of a life).

Carlos Moore – Arquivo Pessoal

Nascido em uma família originária de Trinidad, Barbados e Jamaica, Moore viveu em Cuba até os 15 anos, quando se mudou para Nova Iorque, em 1958. De volta a Cuba, participou do movimento revolucionário liderado por Fidel Castro. Depois de ser preso algumas vezes, foi para a França, em 1963, onde conheceu ativistas negros como o senegalês Alioune Diop e o filósofo Aimé Césaire. Ao longo de sua carreira como militante, esteve ao lado de Malcolm X, Cheikh Anta Diop, Stokely Carmichael, Lelia Gonzalez, Walterio Carbonell, Abdias Nascimento, Harold Cruse, Alex Haley. Foram muitos os nomes, muitas as lutas. Hoje, em meio às gravações e entrevistas, Moore, que há 17 anos decidiu comprar uma casa em Salvador, quer resgatar o Fela gênio, inovador na música, no plano social e expor as suas contradições.

-Estão mitificando o Fela porque, comercialmente, é viável. Um Fela complexo, com contradições que ele não chegou a vencer, não interessa. O Fela light que pode ser manipulado por empresas que estão fazendo filmes, comics, musicais, sim, esse interessa – lamenta Moore que agora está nos Estados Unidos acompanhando a fase final do documentário.

Da Nigéria para o mundo

Fela Kuti nasceu em Abeokuta, na Nigéria, em uma família de classe média alta. Sua mãe Funmilayo Ransome-Kuti foi uma feminista atuante no movimento anticolonial, e seu pai, Reverendo Israel Oludotun Ransome-Kuti, o primeiro presidente da União Nigeriana de Professores. Em 1958, com a intenção de estudar medicina, Fela se mudou para Londres, mas acabou decidindo estudar música no Trinity College of Music.

Fela Kuti - Divulgação
Fela Kuti – Divulgação

Em 1963, Fela voltou para a Nigéria e trabalhou como produtor de rádio para a Empresa Nigeriana de Transmissão. Em 1969, no meio da Guerra Civil da Nigéria, Fela levou a banda para os Estados Unidos, passando a chamá-la Fela-Ransome Kuti and Nigeria 70. Lá, ele descobriu o movimento Black Power e passou a compreender melhor a luta de sua mãe pelos direitos dos africanos que estavam sob o regime colonial, assim como a importância do pan-africanismo exposta por Kwame Nkrumah, herói da independência de Gana.

Fela criticou duramente Anikulapo e insultou o então presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari. Em uma de suas canções populares, Beast of No Nation, ele se referia a Buhari como um animal no corpo de um homem louco.

Essa influência do ativismo político e social, Fela levou para as suas músicas, que ele tocava com saxofone, teclado, trompete, guitarra e bateria. Além da habilidade com os instrumentos, Fela era conhecido pela sua performance em concertos chamados de bárbaros e selvagens. Ele referia a sua atuação de palco como um jogo espiritual.

-Ele trouxe um novo olhar e uma nova interpretação para a música africana. Isso mexeu com a música mundial, e é por isso que eu gosto de seguir essa originalidade – contou orgulhoso Seun Kuti, sobre o trabalho do pai, que também incluía críticas duras à colonização.

Em relação à produção artística africana tão influenciada por Fela, os estereótipos estão sendo deixados de lado, esquecidos com a contrapartida de essas possibilidades vindas do continente enriquecerem não apenas a música, mas a cultura como um todo.

Seun-Kuti - Divulgação
Seun-Kuti – Divulgação

– Há muitos grooves africanos se tornando hits no mundo inteiro. Quer ver algo polêmico? Michael Jackson simplesmente pegou o reef (trecho melódico que se repete e chega a ser considerado a identidade da música) de Shakara (música de Fela Kuti) e fez Thriller, mas meu pai nunca quis processá-lo – revelou sobre a criação de Fela, em 1972, e a de Jackson, 10 anos mais tarde.

Seun, com quem Por dentro da África conversou, não gosta dessa apropriação, claro. Preferia ver Shakara com o seu devido crédito em todo o mundo. Mesmo assim,ele está feliz com o reconhecimento da música africana, que a cada dia ganha mais espaço. Sobre esse tópico, ele acredita que não há diferenças entre os sons da Nigéria, país onde nasceu, e os produzidos nos vizinhos.

Seun Kuti: “Meu pai trouxe um novo olhar e uma nova interpretação para a música africana”

Fela questionador, transgressor

FelaEm entrevista a Moore para a biografia, no capítulo ‘Por que me deportaram de Gana’, Fela faz uma crítica ao fato de os povos negros ainda não terem percebido a necessidade de união e de pertencimento. Ele dizia que, em vez de os africanos se unirem e fazerem por eles mesmos, perdiam tempo copiando valores culturais e sociais que permanentemente os rotulam diante do mundo como escravos.

Os africanos têm que começar a sentir que pertencem ao continente africano como um todo, seja onde for. A gente não deveria se limitar nossa área de pertencimento ao pequeno enclave delimitado para a gente durante a Conferência de Berlim (1884-1885). A África tem que abrir suas portas para todo o negro do mundo” – (pag, 169, Fela esta Vida Puta).

Essa cópia e reprodução do Ocidente fazia parte das críticas de Fela ao processo de industrialização que, para os africanos, deveria ter outro caminho porque ele acreditava que a tecnologia corroía as ‘coisas’ espirituais.

“Industrialização? A gente não precisa dela, a menos que seja do modo africano. Tecnologia, industrialização, a máquina, tudo isso trouxe uma perda progressiva de respeito pela vida, pela natureza, pelo ambiente em que a gente vive, cara. Os africanos reverenciam a vida e natureza“. (pag, 169, Fela esta Vida Puta).

Conhecido pela sua desobediência às regras sociais, Fela quebrava tabus religiosos, sexuais, de todo tipo. No país que hoje tem quase 180 milhões de habitantes, divididos entre muçulmanos e cristãos, os que praticam as religiões oriundas da África são minoria. Fela olhava para esse cenário e reivindicava o poder das religiões tradicionais.

– Ele rejeitou o cristianismo, o islamismo e exaltou uma série de condutas que eram condutas morais da África antes dos europeus e árabes. Esse Fela me interessou – contou o escritor de A África que Incomoda: sobre a problematização do legado africano no quotidiano brasileiro, Racismo e Sociedade: Novas bases epistemológicas para entender o racismo e African Presence in the Americas.

A Nigéria é o berço do Ifá

Ifa-Priests-Naijaurban
Ritual na Nigéria – Ifa-Priests-Naijaurban

Na tradicional religião iorubá, o Ser Supremo é Olódùmarè, considerado criador de todas as coisas do mundo (os orixás e o homem). Do lado de cá do Atlântico, muitos orixás ganharam novas interpretações e simbologia no Brasil. Em entrevista ao Por dentro da África, o babalorixá Marcio de Jagun conta que o culto ao Ifá sempre existiu paralelo ao culto aos orixás no Brasil.

– As religiões tradicionais são destinadas, dizem respeito ao culto aos orixás à Orumilá (Ifá). O culto aos orixás, por exemplo, é tão tradicional que remonta cerca de 9 a 10 mil anos, na região que envolve um pedaço da Nigéria, Benin, Gana e Togo – detalhou o babalorixá, lembrando que, no Brasil o culto recebeu o nome de candomblé e em Cuba, por exemplo, santeria.

Márcio de Jagun – Arquivo pessoal

Marcio também lembra que na Nigéria, como na maior parte da África, prepondera a religião muçulmana. Os cultos tradicionais não chegam a 6% da população. Acabam ficando restritos às regiões do interior.

-O sincretismo religioso é um fenômeno humano, presente nas mais diversas sociedades e eras. Lá também ocorre. Vale dizer que o oráculo de Ifá foi levado da Meca, assim como diversos poemas e mitos iorubás têm inspiração no Islã. Contudo, como o Islã é muito rígido em sua ritualística, noto que a assimilação se dá mais em termos de valores culturais, estética, comportamento, etc – explicou Marcio.

Sexualidade

Doutor em etnologia pela Universidade de Paris, Carlos Moore conta que, até hoje, a maioria das pessoas continuam vendo a sexualidade com um homem e uma mulher, diferentemente de Fela. O nigeriano dizia que essa era uma sexualidade do ocidente e que as famílias africanas eram policonjugais. Ele falava que o casamento era um arranjo para levar a vida social e não uma matemática de 1+1. Para Fela, que teve 27 esposas, casamento era algo dinâmico.

– Fela dizia que se três mulheres querem fazer sexo com um homem e se quatro homens querem fazer sexo com uma mulher, isso é problema deles. Fela rompeu toda essa visão do casamento, dos tabus sexuais sobre a sexualidade. Ele era livre e conduzia valores libertários. Nesse sentido, ele saía em defesa das prostitutas dizendo que as mulheres tinham direito de usar o corpo se elas quisessem e que não deveria haver barreiras morais contra elas porque isso era totalmente perverso.

http-::news2.onlinenigeria.com:
Fela e suas rainhas – http-::news2.onlinenigeria.com:

Em seu livro dedicado a Fela, Moore expõe as entrevistas com as esposas no capítulo “Minhas rainhas”, com quem ele casou (de uma só vez) em 20 de fevereiro de 1978. Suas “rainhas” como ele gostava de chamar, acompanhavam Fela há anos porque eram parte da banda Africa 70.

Fela buscou a bênção para o seu casamento em um ritual muito peculiar. Isso porque o casamento dentro da religião tradicional requer, por exemplo, uma série de acordos entre as famílias, de liturgias para cada uma das noivas e o tempo de recolhimento dos noivos que, geralmente, compreende 90 dias. Fela não seguiu esse protocolo em seu casamento.

Fela Kuti – Divulgação

-Esses três meses fazem uma referência ao recolhimento do iaô – palavra de origem iorubá que designa os filhos de santo no candomblé já iniciados – que fica três meses à disposição do orixá. No casamento, esse é o tempo usado para os noivos se conhecerem. Mas esse matrimônio começa antes… Antes da celebração do casamento, existe uma série de contos nupciais, bênçãos que as matriarcas da família fazem – exemplificou Marcio, lembrando o ritual no qual os pés das noivas são lavados antes de elas entrarem na nova casa como forma de “limpar o passado”.

Na cultura iorubá, a poligamia masculina é muito comum, mas esse tipo de união requer uma condição financeira muito favorecida. Essa construção de família poligâmica, geralmente, acontece aos poucos, mas Fela tomou um caminho diferente e se casou de uma só vez com diferentes mulheres.

Legado

Em 3 de Agosto de 1997, Olikoye Ransome-Kuti, ativista de combate ao HIV e ex-ministro da Saúde, anunciou a morte de Fela, seu irmão mais novo. Mais de um milhão de pessoas compareceram ao funeral de Fela, que deixou a sua marca influenciando gerações até hoje.

Music is weaponBem antes do adeus, Moore foi contagiado por essa maneira de Fela conceber a sociedade e os seres humanos, apesar das suas contradições como, por exemplo, diante da homossexualidade, que Fela não foi capaz de se sobrepor aos preconceitos. Em defesa, Moore lembra que a visão dele, na época, era a que predominava no mundo e que, aos poucos, foi se transformando.

Política, pan-africanismo, música e religião eram parte do trabalho de Fela, que dizia que ‘A música é a arma’, expressão que ele usou no título do seu álbum. Em diferentes partes do mundo, no mês de outubro, o trabalho de Fela é lembrado e reverenciado com comemorações conhecidas como Felabration.

Fela deixou um legado muito complexo para ser gerido. Ele representava e pregava muitas coisas diferentes. Ele foi um conjunto libertário que mostrou que o livre arbítrio deve ser utilizado para melhorar a humanidade.


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