Luanda, Angola – Foto de Fernando Guelengue

Por Fernando Guelengue, Por dentro da África

Luanda – “Queremos liberdade, a polícia é do povo, libertem os nossos irmãos” foram algumas das frases que os manifestantes gritaram durante o protesto desta quarta-feira em Luanda, Angola. Pelo menos, 30 pessoas foram detidas e dezenas espancadas e afugentadas pela polícia.

O encontro tinha como objetivo pedir a libertação dos 15 ativistas detidos há mais de um mês, acusados de golpe de Estado contra o presidente da República José Eduardo dos Santos, há mais de 36 anos no poder. Acusados de “alterarem a ordem pública do país”, segundo comunicado do Serviço de Investigação Criminal, os ativistas angolanos ainda permanecem presos desde o dia 20 de junho. O grupo foi detido e teve seus equipamentos apreendidos enquanto se reunia em Luanda.

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Entre os detidos durante esta que pode ser considerada uma manifestação histórica do processo de democratização de Angola, estão jovens do movimento revolucionário, ativistas (como Adolfo Campos, Laurinda Goveia, Emiliano Catombela, Gildo dos Santos, Kito, Baixa, Katró, Capitinha) e jornalistas (como Daniel Potacio e Lacerda, da Rádio Despertar), que foram soltos 20 minutos mais tarde.

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Luanda, Angola – Foto de Fernando Guelengue

Aos olhos de um cidadão inocente, o cenário até parecia tranquilo nas primeiras horas, mas, nas últimas horas, a situação piorou. Os jornalistas que faziam a cobertura do evento reclamavam da falta de liberdade para exercer as suas profissões. Ainda durante a cobertura do protesto, os estudantes das escolas adjacentes estavam decepcionados com o excesso de efetivo da Polícia Nacional com cães que afungentavam os manifestantes.

– A verdade é que está cada vez mais difícil ser jornalista em Angola. Estão a nos interpelar a realização do nosso trabalho por pessoas estranhas e muito arrogantes – disse um jornalista que não quis se identificar.

Gonçalves Vieira, jornalista da Radio Despertar, conta que ele se dirigiu à Universidade e recebeu uma comunicação do seu editor, Joaquim Ribeiro, dando conta de que, no local anunciado para a manifestação dos ativistas, seria realizada uma contra-manifestação da MPLA. No local, ele começou a tomar nota do ambiente para fazer a descrição no primeiro jornal das 9 horas, quando um efetivo da Polícia Nacional devidamente armado lhe abordou.

– Pediram para eu entregar o papel. Quando viram que as notas eram sobre o evento, solicitaram a minha identificação. Não consegui comer nada o dia todo e estou sem força para continuar trabalhando. Me parece a emissora vai mandar outros colegas para cobrir a manifestação.