‘O que fazer com os corpos negros na cidade olímpica?’, por Douglas Belchior

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Moradores de rua no Rio de Janeiro – Foto de Rioonwatch – http://rioonwatch.org.br/?p=12618

Por Douglas Belchior

(artigo publicado no blog Negro Belchior e cedido ao Por dentro da África) 

O empresário branco denuncia. O telejornal de maior audiência do país noticia. O tenente-coronel, militar branco, comenta: “Nos últimos três meses, 69 menores foram apreendidos; 120 foram encaminhados a setores competentes“. O delegado da Policia Civil, branco, reafirma: “Em 2015, foram 80 operações em que 120 menores foram apreendidos”.

O representante do governo, branco também, diz: “A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social faz ações junto com a polícia no Centro do Rio“. E, para fechar com chave de ouro, como endosso técnico para dar credibilidade à matéria, um especialista faz leitura labial no preto que, segundo o jornal, treina o bando: “Com violência, sem dó nem piedade”.

Esse foi e enredo de uma reportagem levada ao ar na segunda, dia 5 de janeiro de 2016, pelo Jornal Nacional da TV Globo. O mesmo conteúdo fora veiculado repetidas vezes nos noticiários locais da emissora durante o dia e devem ser repercutidos por toda a semana.

A narrativa criminalizante somada à força das imagens faz da peça jornalística uma verdadeira apologia ao ódio contra aqueles que na verdade, são as principais vítimas da contradição social e econômica que vivemos: moradores de rua ou favelados, jovens e negros em sua maioria, e não só homens, mulheres também.

“A sociedade brasileira não tem moral para condenar adolescentes que batem carteiras, roubam celulares, relógios ou correntes nas esquinas do Rio de Janeiro ou qualquer outra cidade do país. O Brasil não tem moral”

21O Rio de Janeiro sediará, daqui a poucos meses, o maior evento esportivo do planeta, as Olimpíadas de 2016. As ruas precisam ficar livres e limpas. Corpos negros, indisciplinados, mal educados, sujos e perigosos precisam ser varridos para longe. E a opinião pública precisa estar de acordo.

Cito o evento das Olímpidas por ser, sem dúvida, prioridade atual dos governos Municipal e Estadual do Rio, bem como do Governo Federal. Mas a verdade é que a lógica higienista, racista e genocida de atuação do Estado está presente na história e no cotidiano do Rio de Janeiro. Sua política de segurança pública é, com absoluta certeza, a principal prova desta afirmação.

Menores infratores que roubam à luz do dia, atacam quaisquer desavisados, inclusive idosos e mulheres, dondocas e trabalhadoras, não há critério objetivo. “Bandidos violentos”, “vândalos”, “monstros”. Todos, quase sempre, negros.

Mas quem são eles? Por que moram nas ruas ou vêm sempre dos morros? Por que não têm emprego? Por que não estudam? Por que eles têm ódio? São vagabundos? Roubam porque querem? Poderiam estar lendo? Viajando? Pedalando? Malhando… mas estão ali, roubando?

Morador de rua no Rio de Janeiro – Foto: Rioonwatch

Se eu não conhecesse e não compreendesse a história do Brasil, talvez até os condenasse. Mas eu conheço. Por isso não os condeno. E digo mais: a sociedade brasileira não tem moral para condenar adolescentes que batem carteiras, roubam celulares, relógios ou correntes nas esquinas do Rio de Janeiro ou qualquer outra cidade do país. Não temos – nós enquanto sociedade – moral sequer para condenar os que esfaqueiam ou engrossam as fileiras do crime organizado. Aliás, como bem já descreveu jornalista Mariana Albanese em texto publicado por este Blog, “Perto de quem realmente manda, esses moleques são tão perigosos quanto o Patati e Patatá”. O Brasil não tem moral.

Não se trata, entendam, de defesa a mau feitos ou mal feitores e sim de buscar compreender, de um ponto de vista histórico e sociológico, os porquês de determinadas práticas. Crimes contra a vida, violência e brutalidade não costumam servir como solução de problemas sociais, econômicos ou políticos. Mas um país que tem na violência e na violação de direitos a prática habitual no trato à significativa parcela da população, tem alguma condição de cobrar postura diferente? Como pedir calma, paciência e paz aos que sofrem historicamente com a violência, a tortura e a morte? Os poetas dos Racionais Mc’s, em poucas palavras, diriam: “Vocês dão taça de veneno e quer suflair?”

Leia o texto completo aqui 

Douglas Belchior é professor formado em História na PUC/SP, professor da rede pública estadual de São Paulo, educador e fundador da rede de cursinhos populares e comunitários da Uneafro-Brasil e militante do movimento negro. É também membro do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA para a gestão 2015/2016.
Assista à reportagem a partir de 1min40s

https://www.youtube.com/watch?v=GLdMruLVogE

 


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