Leitor-Repórter: Brasileiro relata experiência em reservas do Quênia

4

Andre - KilimanjaroPor Andre Araújo, estudante de Serviço Social

Nairobi – Quando eu era criança, meus amiguinhos sonhavam em conhecer a Disney. Na época, passava na TV um comercial que dizia: “Tia X leva você à Disney”, mesclando imagens de brinquedos e personagens. Aquilo definitivamente nunca me impressionou. Enquanto eles sonhavam com a Disney, eu sonhava com a África, mesmo não sabendo exatamente a localização do Quênia no Mapa Mundi…

Esse grande momento chegou quase duas décadas depois, exatamente do jeito que eu queria. Há dois anos, eu estava trabalhando em uma conhecida administradora de imóveis até ficar desempregado. No período, eu me vi com dinheiro e tempo nas mãos. Era a hora de pôr em prática a viagem!

Olhei diversos pacotes turísticos para o Quênia e nenhum deles abrangia os lugares que eu gostaria de visitar. Eu queria visitar lugares pouco conhecidos do público, como os centros de reabilitação de animais em Nairobi, capital do Quênia. Desisti dos pacotes e resolvi eu mesmo montar o meu próprio roteiro de viagem! Contei com o apoio de uma agência de turismo da Tanzânia que providenciou a hospedagem, guia e transporte privativo para os lugares que eu gostaria de visitar durante 12 dias. Ir ao Quênia por conta própria no estilo mochilão (como fiz na Europa) não era recomendado, era, inclusive, perigoso.

Chegada

Nairóbi é uma cidade moderna, urbana e com áreas decadentes, assim como aqui. Por lá, eu vi muitos ambulantes nos sinais de trânsito e pedintes. Os engarrafamentos também me fizeram lembrar o Brasil… Visitei alguns centros de reabilitação de animais, alguns deles muito interessantes como o Giraffe Centre e o Daphene Sheldrick. Para mim, era muito importante ter esse contato direto com os animais, poder tocá-los e não somente observá-los.

No dia seguinte, parti para Aberdare, uma região fria de floresta fechada. Fiquei quase cinco horas sacolejando na landcruise. Passei por vilarejos paupérrimos, com crianças que acenavam ou estendiam a mão pedindo dinheiro ou comida. O lodge em plena floresta era muito confortável, o que me fazia pensar nas disparidades econômicas da região… Há algumas horas, eu assistira à pobreza. Logo depois, ao luxo.

Nakuru

No dia seguinte, dando continuidade ao roteiro, visitei Nakuru, que tem uma belíssima reserva e um lago de mesmo nome. No trajeto, a paisagem mudava constantemente. Eu via áreas desérticas, comunidades paupérrimas com casas de lata, homens bebendo em bares…

O lago Nakuru serviu de locação para a cena final do filme “Sheena: A rainha da selva”, exibido exaustivas vezes na TV. Ver flamingos, búfalos, rinocerontes e babuínos juntos, me fez perceber que os animais ali conviviam em harmonia. Durante o trajeto ao penhasco dos babuínos, sofremos um acidente (um jeep colidiu contra o nosso carro), mas ninguém se feriu.

Lago Naivasha

Bom dia QuêniaApós horas de viagem, cheguei ao lago Naivasha, repleto também de hipopótamos que “dominam” o lugar. Fiz um passeio de barco que me levou a uma pequena ilha onde haviam vários antílopes e gnus. Caminhar entre eles foi uma experiência muito interessante.

O lodge era fantástico. Havia chalés de pedra em frente a um belo jardim e eu apelidei o lugar de “O jardim do Eden” , pois era magnífico acordar olhando para aquela incrível paisagem. Eu também visitei a casa da escritora e conservacionista Joy adamson, que ficou famosa ao escrever o best-seller “A história de Elza”,  onde relatava a sua afeição pela leoa que cuidou desde filhote. O livro tornou-se filme nos anos 70 e deu mais visibilidade a Joy que cuidava do parque Meru, impedindo a presença de caçadores ilegais.

Em 1980, Joy foi assassinada por um ex-funcionário. Há boatos de que ela tratava melhor os animais do que as pessoas… Verdade ou mentira, ela deixou um legado. A residência tornou-se um museu e guest-house.

Outra vítima da ganância, foi a conservacionista Joan Root, assassinada cruelmente em sua casa às margens do lago. Visitar a casa de Joy Adamson e ver a sua história tão de perto me fez refletir sobre essas mulheres corajosas que largaram uma vida confortável em nome de uma causa nobre na África.

Reserva de Masai Mara

Dança 1 editadoNo caminho para a reserva de Masai Mara, visitei os Masai, grupo étnico seminômade que vive entre o Quênia e a Tanzânia. Eles falavam inglês fluente, gostavam do futebol do Brasil e me venderam (a um preço exorbitante) uma pulseira!  Mas eu exigi a pulseira que estava no braço de um deles! Não sei porque, mas eu queria aquela pulseira… Talvez porque estava sendo usada por um Masai!

Existe uma abundância de animais por lá, onde é possivel avistar os “big five” (rinoceronte, elefante, leopardo, leão e búfalo). Dois dias depois seria o momento de ir a Amboseli, localizado na divisa com a Tanzânia, de onde se pode ver nitidamente o monte Kilimanjaro.

Por lá, há imensas planícies e manadas de elefantes andam tranquilamente. Eu senti uma paz muito grande… Eu olhava para aquela imensidão, vendo aquela paisagem infinita e, ao fundo, como uma pintura, o Kilimanjaro!

É um lugar que eu realmente gostaria de voltar… Um dos momentos mais fascinantes foi fazer uma caminhada em meio à savana na companhia de um nativo. Lakala era um masai pai de 10 filhos que levava turistas para caminhar na savana  sob um sol escaldante de quase 40 graus. Ele usava um pitoresco chinelo feito de pneu. Com certeza, não era pra qualquer um, só para os aventureiros!

Caminhamos durante três horas e foi fascinante me sentir parte daquele lugar. Não sei explicar com palavras essa sensação, só posso dizer que pode soar como algo simples, mas que, para mim, teve um significado muito especial. Eu estava ali com os meus pés no chão, não havia turistas ao redor, somente eu e o Lakala. Éramos apenas nós em meio à imensidão.

Esse era o meu último dia no Quênia e senti fechando com chave de ouro aquela temporada. Logo, eu voltaria para o Brasil com  a África no meu coração, levando comigo recordações maravilhosas e um imenso desejo de um dia voltar.

Por dentro da África