África em crônica: “A luta da diáspora e o recontar da consciência negra”, por Mavenda Nuni ya Áfrika

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Foto: Virginia Maria Yunes

Mavenda Nuni ya Áfrika, Por dentro da África

Goiânia – Quando a história contemporânea africana e afro-americana, em prol da luta coletiva da descolonização dos países africanos ficou evidente, foi percebido um movimento solidário, um movimento pan-africanista que nasceu justamente em 1919. Desde o primeiro congresso, houve uma sequência de encontros para arrumar as estratégias de descolonização e aproximação entre os descendentes de africanos e africanos.

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O pan-africanismo tinha como um dos seus objetivos destacar a solidariedade dos povos negros de todo o mundo. Com essa solidariedade é que eu afirmo que a história negra do Brasil tem um marco histórico. Existe uma literatura que conta a história da consciência negra no Brasil, mas muita gente continua equivocada… O que você sabe sobre consciência negra? Será que essa consciência se refere à consciência racial, ou seja, do negro (a) ou branco (a)?

Como falava Dr. Hélio Santos, 2012. “ Não se trata de consciência negra ou branca”. Mas por que falar da consciência negra – de novo? Porque a sociedade brasileira é ignorante em relação à história africana, à história dos afrodescendentes, ou seja, das negras e dos negros, e de todas aquelas que têm raízes no continente africano. Embora eu acredite que todos tenhamos origem na África (berço da humanidade) – Dr. Cheikh Anta Diop, 1976.

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Vamos viajar? Peço que ative o cérebro e comece a questionar a história universal. Por que história universal? Porque essa história foi mal contada, sobretudo pela visão do eurocentrismo, que oculta aquilo que não pertence à Europa. E a nossa viagem exige a condição de questionar o que iremos recontar a partir da história da consciência negra. É preciso questionar o eurocentrismo que promovia a supremacia racial! Por que recontar? Porque muitos ainda acreditam na inexistência da discriminação negra, na inexistência dos cientistas negros (as).

Sabiam que a lâmpada foi inventada por um homem negro? Sabiam também que a antena foi inventada por um homem negro? Não vamos listar porque existem vários cientistas e inventores que nunca te falaram. Mas isso não basta. É história que não é revelada pelos professores.

capa facebook1Consciência na história afro-brasileira é um movimento que defende a visibilidade da história dos afrodescendentes. A dispersão que existe não incomoda ninguém? A consciência negra vem para nos unir e reconhecer a história da luta dos antepassados, aqueles heróis que não foram registrados pela história contada. A consciência negra dá valor à ancestralidade, reconforta o seu valor histórico, cientifico e sócio-cultural.

Para entender melhor, procurem descolonizar a história e libertem-se da história única, como diz Chimamanda Adichie, em “O perigo da única história”. Essa história única é a europeia e nada mais. É preciso que procurem as histórias escondidas dos negros e negras para encerrar o mês de novembro, que é a simbologia da morte de Zumbi dos Palmares. O mês de novembro é dedicado ao herói Zumbi, mas não se pode falar da consciência negra sem lembrar de Lélia Gonçalves, Beatriz de Nascimento, Abdias de Nascimento.

Na África, temos a figura de Steve Biko, teórico criador da consciência negra nos anos 1970. E ele definia que “a consciência negra é a essência, a percepção pelo homem da necessidade de juntar suas forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação. A negritude de sua pele e de agir como grupo, a fim de se libertar das correntes que nos prendem a uma servidão perpétua”. BIKO, 1970, apud Silva, p. 34.

Um grito de liberdade para a África do Sul: O legado de Steve Biko 37 anos após a sua morte

Há outros grandes líderes negros no mundo como Malcolm X, Frantz Fanon (teórico revolucionário político), Rosa Park, Martin Luther King, Kwame Toure, Bob Seale e Huey Newton. Muitos morreram em nome da dignidade e da humanidade, e não apenas da consciência negra que temos falado. A consciência negra é uma reafirmação identitária.

Que sejam respeitados os heróis da história afro-brasileira e que a Consciência Negra não seja lembrada apenas no mês de novembro. Que a Consciência Negra seja símbolo de dignidade, respeito às diferenças e de idênticas oportunidades a todos e todas brasileiras. A luta continua. Termino com as palavras do Steve Biko. “Ser negro não é uma questão de pigmentação, mas o reflexo de uma atitude mental”. E a consciência nada mais que é a luta contínua da reafirmação dos valores históricos escondidos desde o período da colonização até os nossos dias. A realidade não se inventa, mas se convive e, convivendo nos deparamos com várias atitudes. Nada melhor do que a luta por alguma causa. E nossa causa é potencializar a (re)construção da identidade negra.

Por dentro da África


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