Ilhas Seychelles: Natureza e ciência unidas no paraíso africano

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Anse Victorin em Frégate, votada a praia mais bonita do mundo pela Times - Foto: Tatiana Raposo Natalia da Luz – Por dentro da África

Rio – Banhado pelas águas quentes do Oceano Índico, um país africano reúne cenários que ilustram os sonhos de turistas do mundo inteiro, mas não apenas deles. A flora e a fauna de Seychelles formam um verdadeiro laboratório para os especialistas do meio ambiente que passam temporadas de intenso trabalho e descobertas nesta relíquia, que possui o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano do continente.

Pássaro Magpie-Robin de Seychelles (Copsychus sechellarum)

– Tive a oportunidade de monitorar espécies criticamente ameaçadas como o pássaro Seychelles Magpie Robin, uma das aves mais raras do mundo com menos de 200 indivíduos. Eu fazia a coleta de dados morfológicos, observação comportamental, entre outras atividades… – conta, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, a brasileira Tatiana Raposo, especialista em Biologia da Biodiversidade e Conservação pela University of Western Cape, na Cidade do Cabo, África do Sul.

Embora mercadores árabes possam ter sido os primeiros a visitar Seychelles, o primeiro registro europeu é de 1502, pelo português Vasco da Gama. Fazendo parte da rota comercial entre a África e a Ásia, as ilhas eram ocasionalmente utilizadas por piratas até os franceses iniciarem o controle do arquipélago, em 1756. A Grã-Bretanha assumiu o comando total após a rendição das Ilhas Maurícios em 1812, o que foi formalizado em 1814 no Tratado de Paris.

A brasileira que viveu sete anos entre Moçambique e África do Sul foi selecionada para uma vaga de gerente de conservação de meio ambiente e, durante um ano, pode desbravar, pesquisar e cuidar desse paraíso, líder mundial em turismo sustentável.

Localização de Seychelles no Oceano Índico - Foto: Tatiana RaposoEm Frégate, uma das 155 ilhas, segundo a Constituição do pais, Tatiana detalha que ela também era responsável pelo desenvolvimento e implementação de projetos científicos e pelo censo e distribuição das populações de espécies nativas.

– Iniciei um programa de monitoramento das tartarugas-pente (Eretmochelys imbricata) que desovam na ilha Frégate – explica a brasileira. Eu trabalhava com a coordenação, treinamento e supervisão de voluntários neste programa de conservação e monitoramento científico das espécies da ilha.

As tartarugas-de-pente pertencem a uma espécie criticamente ameaçada de extinção devido à caça indiscriminada. Medindo cerca de 90 cm de comprimento, elas vivem em recifes de coral podendo ser encontradas em águas profundas.

Santuário

Vista da trilha na Ilha Frégate - Foto: Tatiana Raposo– Fazia parte do meu cotidiano andar pela ilha, monitorar aves, fazer patrulha nas praias contando o número de desovas das tartarugas marinhas… Nesse trabalho, também tive a oportunidade de realizar o meu sonho de fazer um curso de mergulho – conta a jovem de 27 anos, completando que pode exercitar a paixão pela fotografia, aprendendo com grandes fotógrafos que passam pela ilha.

A translocação de animais entre ilhas ajudou a salvar muitas espécies como o pássaro Seychelles Warbler. As aves foram capturadas no período da manhã, transferidas de helicóptero e  liberados em Frégate na tarde do mesmo dia. As histórias de sucesso, de acordo com a brasileira, têm sido um exemplo para o mundo, assim como o trabalho com o pássaro Seychelles Magpie-Robin, retirado da categoria de risco da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais).

Tatiana com o mascote da ilha! - Foto: Tatiana Raposo– Aprendi e cresci muito com a experiência, não apenas profissionalmente, mas pessoalmente. Tive a oportunidade de desenvolver a capacidade de trabalhar de forma independente, tomando iniciativas e, muitas vezes, virando-me com pouquíssimos recursos. Passei muito tempo sozinha contemplado a natureza e a vida, o que me fez dar valor a coisas diferentes – destaca a bióloga, que hoje trabalha na Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural do Governo do Distrito Federal).

O arquipélago que fica na altura da Tanzânia, abriga algumas das maiores colônias de aves marinhas do mundo, segundo Tatiana. Centenas de tartarugas gigantes, dois patrimônios mundiais da UNESCO e uma vida marinha espetacular constituem esse paraíso para os biólogos! Um lugar que ela teve o privilégio de experimentar.

Turismo

A legislação ambiental de Seychelles é muito restrita, e todo o turismo está sujeito à revisão ambiental. As Ilhas viram a perda de biodiversidade durante o início da colonização, incluindo o desaparecimento das tartarugas-gigantes das lhas graníticas. Hoje, o trabalho de recuperar essa espécie é reconhecido em todo o mundo, e as tartarugas-gigantes-de-aldabra povoam muitas das ilhas, sendo a população da ilha de Aldabra a maior do mundo.

Ave marinha rabo-de-palha (Phaethon lepturus) - Foto: Tatiana RaposoApesar de o arquipélago ser líder mundial em turismo sustentável, ainda continua sob pressão em diversos aspectos, incluindo as mudanças climáticas, o desenvolvimento insensível, a exploração de recursos naturais e a invasão de espécies exóticas. Muitas ações ainda são implementadas priorizando o turismo e não a conservação do meio ambiente, acredita Tatiana.

O turismo é o setor mais importante da economia de Seychelles, que possui cerca de 90 mil habitantes de origens árabe, indiana, asiática, européia e africana. A contribuição direta do setor para o PIB é estimado em 50% e fornece cerca de 70% do total de receitas em divisas.

Por conta de ser uma área de preservação, o turismo é controlado, e o preço para se hospedar em um dos bangalôs da região é bem salgado. Um dos principais destinos de Lua de Mel (o príncipe William e a princesa Kate passaram alguns dias após o casamento na Grã Bretanha), as ilhas podem oferecer diárias que superam os 4 mil euros.

Encontro Global 

Uma família de Trinta-réis-branco (Gygis alba) pairando no ar. - Foto: Tatiana RaposoAlém das trilhas guiadas, atividades de plantio de árvores nativas e programa de adoção de filhotes de tartaruga gigante, o que muito encantava Tatiana era a diversidade cultural do país. Ela teve bastante contato com a população nativa, um povo que ela classifica como vibrante e simpático, que lembrava os baianos pelo jeito de falar: cantado e arrastado.

– Na Ilha Frégate, eu pude conviver com pessoas de vários países como Indonésia, Filipinas, Sri Lanka, Índia, Quênia, África do Sul e França. Todos deixaram o seu país para trabalhar como mão de obra na indústria que mais move Seychelles: o turismo. Em meio a toda essa mistura de línguas, havia os que falavam crioulo de Seychelles, um dos idiomas oficiais baseado no francês.

Poder chamar de casa, mesmo que por pouco tempo, um ambiente tão único constituído sobre rochas graníticas (as mais antigas do mundo, que datam de 4 bilhões de anos), é um privilégio para poucos. Principalmente, se esses ainda puderem contribuir com a recuperação da vida na região.

– O que mais me impressionou nas Ilhas Seychelles foi sua extraordinária beleza natural, com paisagens de tirar o fôlego! Um lugar onde os tons de verde são mais verdes, e os tons de azul são mais azuis. Viver tão perto da natureza foi muito especial, e sou muito grata por isso.

Para conhecer um pouco mais sobre a experiência de Tatiana, acesse o blog!

Por dentro da África 


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