Especial Marrocos: Roteiro de história e cultura entre ruas, desertos e mares

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desertEspecial Por dentro da África

Mariana Nissen, Por dentro da África

No noroeste da África, banhado ao norte pelo Mediterrâneo, um país se orgulha de revelar e compartilhar história e cultura. Com cerca de 35 milhões de habitantes, Marrocos reúne experiências incríveis em desertos, mares, cidades históricas. Neste especial, Por dentro da África vai publicar reportagens de um roteiro de encantos de nossas visitas à Fez, Marrakech e ao deserto do Saara.

Ruas de Fez, dentro da medina
Medina de Fez ao anoitecer

Fez –  Fez é uma das cidades imperiais de Marrocos, presente no imaginário dos brasileiros como lar da Jade, protagonista da novela ‘O Clone’. A cidade é dividida em três partes: a antiga, chamada de Fez-el Bali, Fez-el Jdid ou Fez, nova, e uma seção ainda mais recente, com características francesas, la Ville Nouvelle.

Considerada como capital religiosa e cultural do país, a medina conserva suas muralhas intactas, com portas de diferentes aspectos e detalhes que representam uma atração a mais para os turistas. Distribuídos dentro desse enorme labirinto, o colorido das peças em couro exibidas pelos vendedores, curtidos localmente, trajes típicos e diferentes espécies agregam diferentes tonalidades ao ocre das estreitas ruas.

De Fez é possível ainda fazer viagens curtas de um dia a Meknès, outra das quatro cidades imperiais ou a Volúbilis, sitio arqueológico e antiga cidade romana.

Volúbilis -Quem disse que é preciso ir a Roma para apreciar a grandeza do que foi, um dia, o império romano? Do que hoje é Portugal ao Oriente Médio, há vestígios de monumentos e cidades construídas pelos romanos. Marrocos não é exceção.

Volúbilis nasceu primeiro como um assentamento bereber, transformando-se em uma das capitais do reino mauritano de Juba II entre 25 a.C. a 24.C. No entanto, foi com a conquista romana que esta localidade adquiriu seus traços mais característicos.

Colunas e pedras demarcam os limites de casas luxuosas da época, com pisos decorados de mosaicos que ressaltam ícones da mitologia grega como dionísios, ninfas, deuses e semi-deuses e nos levam a essa viagem ao passado. No local, podemos ainda apreciar o arco do triunfo, as colunas do foro e do capitólio. Uma passeio único que se encontra a 1h30 de Fez.

Bab-el Mansour, a porta mais imponente de Marrocos, dá entrada para a medina de Mèknes.
Bab-el Mansour, a porta mais imponente de Marrocos, dá entrada para a medina de Mèknes.

Mèknes – Uma das quatro cidades imperiais de Marrocos, junto a Rabat, Fez e Marraquexe, Mèknes possui a mais bela entrada para uma medina do país, ricamente trabalhada, com colunas de mármore, desenhos em madeira talhada, detalhes em verde, símbolo do islã e uma inscrição em árabe que ressalta essa grandeza. “Eu sou o portão mais bonito do Marrocos. Sou como a lua no céu. Propriedade e riqueza estão escritas na minha entrada”, declara a frase em cima do portal, chamado de Bab el-Mansour. A beleza e conservação do seu conjunto arquitetônico levou a Unesco a declará-la patrimônio da humanidade em 1996. Justo em frente se encontra a praça el-Hedim, onde, além de restaurantes e comércio, o turista encontra de tudo um pouco – desde apresentação de músicos até dança de cobras e macacos.

leaoIfrane –  Localizada a 1.700m de altitude, Ifrane é conhecida como a Suíça marroquina. Caracterizada por suas casas, construídas como chalets, e inserida em uma floresta de pinheiros, rodeada por lagos e com temperaturas em torno a zero grau, Ifrane mostra uma nova faceta do Marrocos. Aqui também se encontra uma das estações de esqui marroquina, chamada de Michlifen.

No centro da principal praça de Ifrane, no entanto, ergue-se uma homenagem a um antigo habitante local: o leão do Atlas. Admirado por ser maior que seus pares e sua vasta juba negra, o leão do Atlas se encontra extinto em liberdade. O último de sua espécie foi abatido em 1922.

Hoje não se sabe ao certo quantos animais continuam vivendo em zoológicos e cativeiros, e, mesmo assim, acredita-se que nenhum exemplar seja de raça pura.

Erfoud – Os Gnaoua são uma etnia procedente da África Ocidental e Central, trazidos à região de Merzouga (porta do deserto do Saara) originalmente como escravos. Uma vez em liberdade, viveram por anos como nômades, até constituírem, junto aos bereberes, o município de Khamlia entre os anos 50 e 60.

Além da pesca e agricultura, hoje essa etnia sobrevive por meio da cultura. Turistas de todo o mundo visitam o vilarejo para ver o grupo “les Pigeons du Sable”, ou “Pombos do Deserto”, em português, que resgata através da música e dança parte de suas raízes.

Um famoso festival acontece durante três dias seguidos em julho ou agosto, onde a música não cessa de tocar para ajudar aos participantes alcançarem o “barack”, benção divina. O ritual serve ainda para ajudar na cura de males e doenças.

Passeios no deserto são cada vez mais comuns entre os turistas. Há opções para dormir no deserto para todos os gostos
Passeios no deserto são cada vez mais comuns entre os turistas. Há opções para dormir no deserto para todos os gostos

Erg Chebbi – Passar uma noite no meio do deserto pode parecer para muitos um plano exótico e remoto. Hoje, com o leque de serviços ampliado há ofertas para todos os gostos e demandas – do básico ao luxuoso. Os acampamentos se encontram a uma hora de passeio montado em camelos ao entardecer, onde cada sombra, cada curva, subida ou descina proporciona uma imagem singular.

A palavra erg carrega a nostalgia do que um dia foi um oceano, já que significa mar de dunas. As montanhas de areia chegam a medir 150 metros de altura e chegar ao seu pico é passeio obrigatório para todos que queiram acompanhar o nascer e pôr do sol da posição mais privilegiada. Serviços de internet, pousadas e agências de viagem organizam passeios de 2, 3 ou mais dias a esta localidade.

Essa cidade ancestral já serviu de cenários para vários filmes famosos, entre eles Gladiador, Babel e Game of Thrones
Essa cidade ancestral já serviu de cenários para vários filmes famosos, entre eles Gladiador, Babel e Game of Thrones

Aït Ben-Haddou – Construída no século XI, Aït Ben-Haddou é um exemplo da arquitetura ancestral do sul do Marrocos. Essa Ksar, ou cidade-fortificada, forma parte de uma rota com mais de mil edificações similares. Nenhuma, no entanto, tornou-se tão famosa como esta localidade. Vielas, muros, arenas e residências serviram de cenário para filmes como Lawrence da Arábia, a Joia do Nilo, Indiana Jones, Gladiador, entre outros. Os produtores de Jogo de Tronos também encontraram em Aït Ben-Haddou o cenário perfeito para dar vida a “cidade amarela” de Yunkai.

A praça é o coração de Marraquexe, reunindo artistas, turistas e locais. Pinturas com henna, cobras encantadas, apresentações folclóricas têm como palco este local.
A praça é o coração de Marraquexe, reunindo artistas, turistas e locais. Pinturas com henna, cobras encantadas, apresentações folclóricas têm como palco este local.

Marraquexe – A cidade é a quarta maior cidade de Marrocos, mas uma das mais famosas e destino favorito dos turistas. A cidade se divide em duas partes, uma mais nova, sede de grandes cadeias de hotel, lojas de luxo e o cassino; e a antiga, onde se encontra a medina, conformada por suas mais de 3 mil vielas e um centro vibrante que parece nunca dormir. Jemma el-Fna é o ponto de encontro entre turistas e locais, onde contadores de histórias, dançarinos, contorcionisas, encantadores de cobras se apresentam diariamente.

Cafés estrategicamente posicionados ao redor da praça oferecem uma visão privilegiada e panorâmica do burburinho, possibilitando ainda desfrutar de uma taça de chá de menta, iguaria marroquina. A tradução do seu nome significa “Assembleia dos Mortos”, pois antes aqui eram realizadas as execuções daqueles julgados como criminosos. A diversidade de cultura e tradição expressada nesta praça a levou em 2008 a entrar na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO em 2008.

Outra atração da cidade é o Palácio da Bahia, construído no século 19 por Si Mussa, antigo escravo promovido a grão-vizir do Sultão Mulai Hassan. O edifício tinha a intenção de ser o maior do mundo e seu nome significa “brilho”. No pátio principal, se encontra uma área amplia e decorada, com fontes de água para a ablução, o ritual de limpeza antes das orações. Nesta área também se encontra a entrada para os quartos destinados às 24 concubinas que chegaram a viver neste harém.

Marraquexe é uma cidade para andar e perder-se em suas estreitas ruas, onde parte de sua beleza reside. Mapas não conseguem detalhar a grandeza dos souks, os mercados locais, onde vendedores de tapete, espécies, couro, lâmpadas e boticários representam uma atração a parte. Negociar é a alma do negócio e uma arte em Marrocos, mas principalmente em Marraquexe. Os preços são exorbitantes porque se supõe que a barganha está em jogo. O importante é não é estabelece um mínimo e bater pé para conseguir o preço e sim mostrar boa vontade de encontrar um ponto em comum de interesse para os dois.

Vale a pena ainda uma visita ao Jardim Menara, ao antigo bairro judio, a antiga escola corânica de Ben Youssef, os túmulos saadianos e a mesquita Cutubia, que apesar de não permitir a entrada para não mulçumanos, possui um expressivo miranete, similar ao das mesquitas e Rabat e a Giralda,de Sevilha, na Espanha. A origem do nome da torre é bibliotecário, em homenagem aos vendedores de manuscritos que antigamente se encontravam nesta região. Há vários serviços de guias para pequenos e grandes grupos, com preços variados. Nós testamos o tour grátis, com quase 5 horas de duração e visitas as principais atrações e recomendamos. Para mais informação, clique aqui.

Sobre o país

O país que tem como línguas oficiais o árabe e o berbere, mas também fala espanhol e francês, recebe turistas do mundo inteiro, o ano todo. Os árabes representam cerca de 70% da população e os berberes 30%. As outras etnias não chegam a corresponder a 1%. A religião dominante é a muçulmana sunita (99%). A língua predominante no país é a variante marroquina do árabe.

Influências

Marrocos é uma monarquia constitucional, hoje, governada pelo rei Maomé VI. No passado, o país esteve sob domínio dos fenícios, do Império Romano e do Império Bizantino até à chegada dos árabes, no século VIII. Em 1415, Portugal levou seus navios até o litoral marroquino, e entre os séculos XV e XVII, os portugueses controlaram a parte costeira que se estende de Ceuta até Agadir (Fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Gué). Em 1859, a Espanha anexou Marrocos, mas em 1904, na Conferência de Algeciras, a Inglaterra concedeu à França o domínio do país. Ao longo do nosso especial você vai conhecer mais sobre todas essas influências que moldam a cultura marroquina. 

Após essa introdução, acompanhe as nossas próximas reportagens sobre o fascinante Marrocos. 

Capital: Rabat
Língua Oficial: árabe, berbere
Governo: Monarquia Constitucional
Independência da França e Espanha – 1956
Moeda: Dirham marroquino

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