Denis Mukwege: documentário conta a história do indicado ao Nobel da Paz que salvou milhares de mulheres

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Natalia da Luz, Por dentro da África

Rio – No lugar onde o abuso sexual é parte da realidade diária, um homem se dedica a milhares de mulheres brutalmente usadas pelos senhores da guerra. Em Bukavu, na República Democrática do Congo, o estupro é uma arma de guerra que destrói família, comunidade, dignidade. Indicado ao Nobel da Paz deste ano por conta do seu ativismo, o ginecologista Denis Mukwege, herói de milhares de mulheres escravizadas física e emocionalmente, tem a sua missão contada no documentário O homem que conserta as mulheres.

Denis Mukwege encara como missão de vida o exercício da medicina. Na província de Kivu Sul, na República Democrática do Congo, ele atende mulheres violentadas que tiveram que passar por reconstituição do sistema reprodutor para que pudessem sobreviver. Por conta do seu trabalho, ele se tornou o maior especialista em danos provocados por violações, chegando a trabalhar mais de 18 horas por dia fazendo mais de 10 cirurgias. No total, em 15 anos, cerca de 40 mil mulheres já foram operadas pela equipe de Mukwege. E muitas mais ainda serão atendidas, já que o trabalho do hospital permanece.

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– Eu quis falar sobre essa tragédia, falar sobre essa reparação física, mental e jurídica das mulheres, além de combater e denunciar a impunidade diante da comunidade internacional. Para mim, foi uma obrigação moral fazer esse filme e ajudar Mukwege – disse, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, o diretor Thierry Michel, que exibirá o seu filme no Festival do Rio até o dia 14 de outubro.

O cineasta passou um ano (setembro de 2014/setembro de 2015) em Kivu, epicentro do conflito onde está localizado o Hospital Panzi (criado em 1999 por Mukwege e a amiga ativista Christine Schuler-Deschryver). O estabelecimento é um dos poucos hospitais na República Democrática do Congo com experiência na área de reparo da fístula (espaço entre a bexiga e a vagina ou entre o reto e a vagina, que provoca terríveis consequências físicas, tais como vazamento descontrolado de urina e fezes).

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Para contar a história deste congolês, que alimenta a esperança de toda uma região e se tornou exemplo para o mundo, Thierry ouviu e sentiu o cotidiano de uma população marcada pela violência. Este último ano foi mais uma das temporadas do cineasta belga na República Democrática do Congo, país onde ele já dirigiu outros filmes como Mobutu roi di Zaire, Congo River e Katanga Business. Em meio às entrevistas que dão voz aos ativistas, Thierry já foi preso e expulso duas vezes do país africano.

O contexto de guerra que caracteriza a República Democrática do Congo, sobretudo o leste do país, fez das mulheres e meninas seus principais alvos. O estupro em massa praticado por soldados e rebeldes é rotineiro, e as crianças-soldado também são vítimas dessa trágica guerra. Com isso, as mulheres têm perdido o seu lugar na sociedade, após serem estigmatizadas e rejeitadas. Os estupros, muitas vezes, envolvem facas e objetos perfurantes que não apenas atingem a vagina. Nesses ataques, muitas mulheres perdem a vida ou ficam com a saúde e a vida sexual comprometidas.

RDC mapa– Esse é um grande problema para as mulheres em todos os sentidos, desde o ataque até a tentativa de resolução, porque a impunidade é enorme. Elas são estigmatizadas, abandonadas depois de uma violência como essa. Quem assume a função de recuperação da saúde mental e física das mulheres é o hospital Panzi – diz o diretor do documentário, acrescentando que, além do hospital, há as clínicas móveis que circulam por outras regiões atendendo mulheres que não estejam em Kivu.

Todo esse envolvimento de Mukwege, que fez dele porta-voz das mulheres de seu país, também criou inimigos. Após ter levado vários tiros junto com um amigo, ele pediu asilo na Europa, em 2013, mas três meses depois resolveu voltar, apesar do perigo e das dificuldades.

Thierry lembra que o apoio para que as atividades do hospital continuem de pé vem da Comissão Europeia, Cooperação da Bélgica e USAid (do governo dos USA), já que não há financiamento do Estado congolês.

– Por parte do governo, há uma espécie de perseguição: taxou o hospital, vem cobrando mais dele… É o único hospital público do país que passa por isso! Essa é uma maneira de afetar, enfraquecer economicamente Mukwege. Todos os meios são possíveis para atingir a reputação dele – diz o cineasta.

Denúncia

themanwho_f05cor_2015110799Diante da incapacidade do governo congolês e da comunidade internacional lutarem contra tamanha tragédia, vários atores da sociedade civil protestaram e protestam contra essa omissão. Mukwege foi à sede das ONU em 1997 contar o que se passava em seu país. Na ocasião, enquanto o congolês destacava as atrocidades para líderes de diversos países, a representação da República Democrática do Congo estava vazia, indicando sinal de descrédito e negando apoio ao médico. Apesar dos vários relatórios da ONU sobre crimes cometidos, o fenômeno persiste desde quando a guerra civil eclodiu na região, em 1996.

Thierry durante gravação – Divulgação

– Você (Natalia) conhece o que se passa, mas a população da Europa não conhece, as pessoas que estão aqui e em outros lugares do mundo não conhecem a dimensão dessa situação. Por isso, vamos pedir às Nações Unidas, durante um encontro de Direitos Humanos no dia 23 de outubro, em Nova York, para acabarem com a impunidade. Esse documento que vamos mostrar é muito importante porque vai cobrar o julgamento desses criminosos, vai pedir a criação de um tribunal internacional ou um tribunal misto e a responsabilização dos grupos armados e militares – revelou Thierry.

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Foto – RDC – ONU

De acordo com estudo do American Journal of Public Health, 1,152 mulheres eram estupradas por dia, ou seja, 48 por hora, durante 2006, 2007, anos mais tensos do conflito. Hoje, o número gira em torno de 40, diariamente, de acordo com organizações locais. O documentário não quer apenas informar sobre uma tragédia que atinge a sociedade como todo, mas mobilizar as pessoas, educar a população.

– O filme foi proibido no país. Não conseguimos exibi-lo como temos feito em outros lugares, o que acabou gerando uma publicidade positiva. As pessoas querem assistir, então, elas têm feito muitas cópias e distribuído.

Conflito na República Democrática do Congo

O conflito que atinge toda a população, mas principalmente as mulheres, teve influência na vizinha Ruanda. Depois do genocídio de Ruanda, em 1994, onde mais de 800 mil pessoas foram mortas em 100 dias, cerca de dois milhões de ruandeses de etnia hutu fugiram para a República Democrática do Congo, com medo de represálias por parte do governo tutsi. Entre eles, estavam alguns que participaram ativamente do genocídio e que, no país vizinho, passaram a atacar a população de tutsis. As milícias tutsis apoiadas por Uganda derrubaram o governo congolês de Mobutu, levando Laurent Kabila à presidência, que renomeou o país de Zaire para República Democrática do Congo.

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Foto – RDC – ONU

Quando foi morto em 2001 por seu guarda-costas, o filho Joseph Kabila assumiu o cargo de presidente. Em 6 de dezembro de 2006, ele foi eleito presidente, na primeira eleição geral em 40 anos no país. Desde 1996, mais de cinco milhões de pessoas morreram na guerra entre milícias que brigam pelo controle de regiões consideradas fonte de minerais explorados por empresas de todo o mundo.

De acordo com o relatório Minerals and Áfricas Development 2011, produzido pela Comissão Econômica para a África, mais da metade dos países do continente considera a mineração como uma importante atividade econômica. De acordo com o relatório, a demanda por commodities minerais aumentou drasticamente desde a virada do século. A produção mundial de aço bruto subiu 1% ao ano, de 1990 a 2000,e 6,8 % ao ano, entre 2000 e 2007. Essa corrida pelos recursos minerais compromete o meio ambiente, mas, principalmente, a sociedade que está vulnerável.

Veja mais: Recursos minerais nos Grandes Lagos

A República Democrática do Congo possui, pelo menos, 64% das reservas mundiais de coltan (mistura dos minerais columbite e tantalite – usada, principalmente, na maioria dos eletrônicos portáteis). A nação rica em minérios e que faz fronteira com nove países foi cenário de um dos modelos mais cruéis de colonização.

Foto – RDC – ONU

Em dezembro de 2010, os chefes de Estado e de Governo da CIRGL (Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos) – abrange Angola, Burundi, República Centro Africano, República Democrática do Congo, Quênia, República do Congo , Ruanda, Sudão, República Unida da Tanzânia, Uganda e Zâmbia -assinaram a Declaração de Lusaka. A partir de um mecanismo de rastreamento e certificação, o compromisso procura abordar a exploração ilegal dos recursos naturais na região e sua ligação com a proliferação de grupos armados. A declaração observa várias iniciativas de transparência e de certificação no setor de minerais, entre eles o Processo de Kimberley, e enfatiza a necessidade de uma abordagem regional no combate à exploração ilegal dos recursos naturais.

Saiba mais: Aniversário de independência da República Democrática do Congo

Para tentar levar estabilidade à região, a maior missão de Paz da ONU foi enviada para o país. No total, 26 mil pessoas (19 mil soldados, 3 mil policiais, 4 mil civis) compõem a MONUSCO, estabelecida em 2010. Notoriamente, a missão vem contendo a violência em muitas regiões do país, inclusive, em Kivu, fazendo a segurança do Hospital Panzi e do próprio Mukwege.

Nobel da Paz

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Durante o filme, Mukwege expressa o seu compromisso com milhões de mulheres, não apenas da República Democrática do Congo, lembrando que “Se pararmos de sofrer pelos outros deixaremos de ser humanos.” Além de atuar como defensor das mulheres, ele convoca os homens para lutarem contra a violência que atinge a sociedade como todo.

Para reforçar a participação masculina, a sua fundação, por meio de debates e atividades artísticas, mobiliza as pessoas sobre a violência sexual. Em outro momento do filme, as ações do médico repercutem em seu desejo quando ele diz ” Tenho esperança de que esse país se torne uma nação com paz e justiça”

– A questão da violação não é apenas dos rebeldes, das milícias. Ela é mais profunda. Esse é um problema moral, um fenômeno social, degradação mental. Está na vida civil esse comportamento porque as crianças-soldado foram e são obrigadas a praticar abusos sexuais. Depois disso, você não pode retornar com elas para o convívio sem um acompanhamento psicológico – destaca o cineasta.

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Até este ano, o congolês contabilizou 26 prêmios e reconhecimentos internacionais como o Sakharov Prize (2014), UN Human Rights Prize (2008) e o Olof Palme Prize (2009). A indicação ao Nobel da Paz (que será anunciado nesta sexta-feira, dia 9) repercutirá na mobilização para erradicar o flagelo da violência sexual contra as mulheres do país.

– Não podemos continuar com essa sensação de impunidade. Mukenge não quer ser político, ele quer manter limpa a sua moral. Merece o Nobel da Paz porque ele é um herói, certamente, um herói.

Para quem estiver no Rio de Janeiro, a exibição durante o Festival do Rio será nos seguintes endereços:

– Dia 09/10, sexta-feira, às 18h30 – C.C. Justiça Federal;
– Dia 11/10, domingo, às 15h15 – Cinépolis Lagoon;
– Dia 14/10, quarta-feira, às 14h – Museu da República.


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3 COMENTÁRIOS

  1. Que posso dizer? São uns animais e ,não seres humanos. Que me desculpem os animais, já que eles agem por instinto, não raciocinam como o ser humano . Esses não são seres humanos, só têm a aparência. Ser´que , se fossem mulheres brancas de olhos azuis ,as organizações mundial,não já teriam tomado providência?