Da Bélgica, grupo de africanas lança ao mundo um olhar sobre a República Democrática do Congo

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Natalia da Luz, Por dentro da África  

Rio – Da Europa até o centro da África, elas criaram uma ponte imaginária que as conecta com a terra natal. Alimentadas pelo ativismo e pelo compromisso em auxiliar as conterrâneas que vivem em um dos países mais perigosos para as mulheres, na República Democrática do Congo, o Gfaia (Grupo de Mulheres Africanas integradas e Ativas), fundado na Bélgica, em 2006, promove campanhas lançando debates sobre emancipação, igualdade, violência, solidariedade, racismo e inclusão.

– Os nossos movimentos são destinados à melhoria de situações que enfraquecem a nossa comunidade. Mesmo não alcançando o resultado que gostaríamos aqui na Europa, permanecemos em protesto porque a questão principal é que as pessoas não são informadas o suficiente. Quanto mais ampliarmos esse círculo, maiores as chances de o mundo ouvir e apoiar as nossas causas – conta em entrevista ao Por dentro da África, a presidente da ONG Elena Matundu.

A República Democrática do Congo, o antigo Zaire, está localizada no centro da África e faz fronteira com nove países. Independente da Bélgica desde 1960, o território de cerca de 70 milhões de habitantes convive há duas décadas com um conflito marcado por disputas étnicas, territoriais e econômicas.

A instabilidade política do país, que possui uma das maiores jazidas mundiais de ouro, cobalto, diamante e coltan (usado pela indústria dos eletrônicos), leva para além das fronteiras congoleses que buscam uma saída para a escuridão da guerra. Ainda mais vulneráveis, as mulheres convivem com um medo permanente: o estupro (na região, é usado como arma de guerra). O país foi considerado por Margot Wallström, enviada das Nações Unidas (ONU), como a capital mundial do estupro.

– A campanha principal da nossa associação é, naturalmente, a de combate à violência contra as mulheres congolesas. Um dos eventos mais terríveis deste conflito que continua até hoje é o estupro em massa, no qual elas são vitimas e sufocadas pela impunidade – desabafa a líder do grupo composto por mais seis congolesas.

Elena acredita que, com isso, as mulheres têm perdido gradualmente o seu lugar na sociedade, onde são estigmatizadas e rejeitadas após sofrerem violência sexual. Diante da incapacidade da comunidade internacional, das autoridades congolesas e da falência do Estado, vários atores da sociedade civil, como o Gfaia, fazem coro contra essa omissão.

Chamar a atenção da Europa 

Uma das muitas campanhas organizadas pela instituição, que também se engaja na promoção social e profissional das mulheres africanas, foi o “Fight for Five” –  que leva o nome da organização não-governamental fundada por Patrice Majondo-Mwamba. O evento, realizado em novembro de 2010, em Bruxelas, capital da Bélgica, teve como objetivo chamar a atenção do mundo para acontecimentos no país, principalmente envolvendo crianças e o seu recrutamento para servir às milícias. Os fundos arrecadados foram para a construção de uma escola em Lubumbashi, sudoeste do país africano.

– Em dezembro de 2010, a associação foi o centro do evento de caridade “Woman no Cry”, realizado em Roma com a participação de Antonella Clerici (famosa apresentadora da TV italiana). A renda foi doada para o Hospital Panzi de Bukavu, instituição que é a porta de esperança para mulheres vítimas de um crime que degrada e envergonha toda a nação. O hospital, fundado em 1999, na província de Sud-Kivu, é coordenado por Denis Mukwege, um ginecologista congolês que, em 10 anos de trabalho, já operou mais de 40 mil mulheres.

Campanha para Nobel da Paz

Ele encara a medicina como uma missão e preenche todos os requisitos do que imaginamos ser um herói. Trabalha de maneira incansável trazendo à vida mulheres que estavam à beira da morte. Para cada grupo de 10 mulheres vítimas de abuso atendidas pelo hospital Panzi, três precisam de uma cirurgia reconstrutiva após serem mutiladas.Uma estatística arrepiante que, durante os momentos de conflitos mais intensos, se amplia. Denis já chegou a operar 10 mulheres por dia em 18 horas ininterruptas de trabalho.

Além de promover eventos na Europa destinados ao hospital congolês, a Gfaia lançou ao mundo uma petição para incentivar a indicação do médico ao Prêmio Nobel da Paz. Certamente, ele faria jus ao título pelos seus mais de 10 anos dedicados a esse flagelo.

– Lançamos uma petição pelo www.change.org e continuamos a sensibilizar a opinião internacional para esse movimento. Queremos que o trabalho desse grande  herói seja reconhecido e recompensado, e que ele continue a defender a mensagem de esperança pelo seu empenho. Isso fará com que um raio de esperança chegue à região, dando origem a uma nova consciência.

Participe da campanha e assine a petição aqui para indicar o médico congolês ao Nobel da Paz 2013! Para conferir as campanhas, visite o Gfaia!

Por dentro da África


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