“Outros negros”, por Ademir Barros dos Santos

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Por Ademir Barros dos Santos, Por dentro da África 

A busca deste estudo é apresentar, em contraponto à voz oficial, outras posturas das negritudes transpostas compulsoriamente para o Novo Mundo, visto que os meios oficiais, ainda hoje, enfatizam a dominação pacífica do europeu sobre o africano que, no extremo, ainda é visto, mesmo, como conivente com o processo.

Contra tanto, é necessária constante vigilância sobre o processo de apagamento da ação dos movimentos culturais e sociais que os próprios negros produziram, instrumentalizando a cultura nacional, bem como produzindo a própria libertação. Este o ponto e objetivo do que aqui vai exposto.

Para início, o maior movimento migratório registrado pela história da humanidade envolve, pelo menos, dez milhões de emigrantes involuntários, deportados, com extrema violência, do continente africano para as Américas, onde se viram condenados, sem qualquer crime, a sevícias e trabalhos compulsórios.

Contudo, não são as Américas seu primeiro destino, mas, sim, Portugal: em Lisboa, apenas um século após iniciado o processo de escravização, os africanos já compunham mais de um terço da população local!

No tempo, o processo tem início em meados do séc. XV; no século seguinte, incrementa-se com a descoberta das Américas, estendendo-se até o final do séc. XIX. No espaço, atinge todas as populações do litoral atlântico do continente negro, onde se encontravam três culturas principais: Alta Guiné, Baixa Guiné e África Central; é neste espaço que, estimadamente, quinze milhões de africanos são vitimados pelo processo de transferência compulsória, dos quais algo em torno de dez milhões desembarcam e sobrevivem nas Américas; quanto ao outro um terço, simplesmente não resiste à violência do processo; quarenta por cento de todo o contingente chegado vivo, foi alocado ao Brasil!

Mas, despersonalizados e descivilizados, expurgados de suas sociedades e culturas de origem, animalizados, desconhecedores dos costumes e idiomas que os recebem, destinados apenas ao trabalho mais vil, compulsório e sob tortura… sobrevivem e, apesar de todos os pesares, formam suas primeiras associações. Nas senzalas.

Senzalas: as oficinas de Exu

Segundo define Nei Lopes em sua Enciclopédia brasileira da diáspora africana, o termo aproximado “sanzala”, em quimbundo, significa “habitação de indivíduos da mesma família”; já para Robert W. Slenes, em Na senzala uma flor, p. 148, o termo, atualizado, traz a conotação de “residência de serviçais em propriedade agrícola”; ou, ainda, “povoado”.
É possível que, na diáspora, o significado apontado por Nei tenha se generalizado mais e, a partir de então, tenha adquirido o signifcado que Slenes adota.

A vida na senzala

Clovis Moura informa, às pp. 7 e 8 de História do negro brasileiro:
Esta história começa com a chegada das primeiras levas de escravos vindos da África. Isto se dá por volta de 1549, quando o primeiro contingente é desembarcado em São Vicente. D. João III concedeu autorização a fim de que cada colono importasse 120 africanos para as suas propriedades. […] alguns historiadores acham que bem antes dessa data já haviam entrado negros no Brasil. Afirmam mesmo que na nau Bretoa, para aqui enviada em 1511 por Fernando de Noronha, já se encontravam negros a bordo.

Uma vez no eito brasileiro, o escravizado recebia tratamento de animal de carga e tração, conforme informa Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, p, 120:
Semanalmente vinha um castigo preventivo, pedagógico, para não pensar em fuga […]. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado com ferro em brasa, tendo um tendão cortado, […] ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha, ou, de uma vez só, jogado nela para arder como um graveto oleoso.

Quanto à vida dos escravizados e ao eito, eis o texto de Louis-François de Tollenare, em seu relato de viagem ao Recife, início do séc. XIX:

[…] nada de apatia; tudo é trabalho, atividade; nenhum movimento é inútil, não se perde uma só gota de suor.

[…] Vê-se em primeiro lugar uma extensa construção ao rés do chão, tendo em frente uma galeria sustentada por colunas; é a senzala dos negros, deserta durante as horas de trabalho. Vêem-se apenas errar sob o alpendre uma ou duas negras que acabam de dar à luz; são dispensadas do trabalho por alguns dias; amamentam os filhos concebidos na escravidão, que serão escravos e que o senhor poderá vender amanhã.

[…] O calor é de 27 a 28º, o sol abrasador; vejo expostos aqui ao seu ardor trinta negros e negras curvados para a terra, e excitados a trabalhar por um feitor armado de um chicote que pune o menor repouso; […]. Tudo é movimento.

O fogo das fornalhas é alimentado dia e noite e mantido durante os cinco meses que dura a safra. Dois negros colocados em frente às bocas alimentam o fogo com lenha verde; outros transportam as formas para a casa de purgar.

[…] é junto à cozinha onde se preparam as rações e à despensa onde são distribuídas. São as negras mais idosas ou de menos confiança que se acham deste lado. Em redor deste quarteirão alimentar tripudiam os moleques e molecas inteiramente nus. De noite vão dormir na senzala com as mães; […].

A essa época, início do séc. XIX, já havia muitos fugitivos; Tollenare assim descreve a chegada de um recuperado:

Acabam de trazer um negro que havia fugido para o mato há cinco dias. […] havia furtado algumas raízes verdes de mandioca e ousara comê-las; […] estava em um estado de baixa humilhação e de apatia que inspirava compaixão. Não sofreu severa correção devido ao seu estado doentio; receio, porém, que isto aconteça quando se restabelecer. O cirurgião que foi chamado me disse que atribui o estado do fugitivo a ter comido terra; assegura-me […] que os negros, […] sabem muito bem tornar-se doentes por este processo que os faz inchar e frequentemente morrer.

Motivações para o trabalho

Clovis Moura, à p. 17 da obra já citada, informa que “a jornada de trabalho era de catorze a dezesseis horas, sob a fiscalização do feitor, que não admitia pausa ou distração”.
Então prossegue e, à mesma página, informa que, em contrapartida a essa jornada e “conforme a falta, havia um tipo de punição e de tortura. Mas a imaginação dos senhores não tinha limites, e muitos criavam os seus métodos e instrumentos de tortura próprios”.
É certo que o trabalho, por forçado e compulsório, não podia prescindir dos instrumentos de tortura, que Clovis, citando Arthur Ramos em A aculturação negra no Brasil, exemplifica, à p. 18 do mesmo estudo:

Finalidade Instrumento

Captura e contenção Correntes, gonilha ou golilha, gargalheira, tronco, vira-mundo, algemas, machos, cepo, corrente e peia.

Suplício Máscaras, anjinhos, bacalhau, palmatória.
Aviltamento Golilha, libambo, ferro de marcar, placas de ferro com inscrições infamantes.
Cabe citar: a partir de 1741, o Estado autoriza, por alvará, que se marque, com ferro em brasa, um “F” no escravo fugido; aos reincidentes, podia-se cortar a orelha; não produzindo efeito o castigo, cabia a pena de morte!

É evidente que tudo o que vai descrito acima, leva a pensar que o negro senzalado, conformado com sua sorte de escravo ou com medo do castigo, apenas se colocava como subalterno e, consequentemente, tornava-se apático, não encontrando nenhuma forma de resistir.

Se engana quem pensa assim: afinal, com quantas espinhas negras forçadamente curvadas, viu-se feita e erguida a coluna cultural de nosso país?

Espera-se que o texto abaixo sirva, pelo menos, para que algumas das costelas apoiadas naquelas espinhas pretas entortadas, vejam suas fraturas um tanto quanto remendadas, mesmo que apenas toscamente, aqui.

Associações

É esse ambiente hostil o primeiro lugar em que este fenômeno se manifesta: tendo em vista que ambientes hostis incentivam a formação de associações informais, quer para mútua ajuda, quer como facilitadoras de negociações políticas e de lazer, não é difícil imaginar a necessária união de malungos para a composição de associações informais, nestes locais.
É de se admitir, até por pura lógica, que africanos que partilhavam culturas mais próximas no ambiente de origem, formassem os primeiros grupos de ajuda informal; afinal, o partilhar cultura lhes permitia partilhar estratégias e soluções comuns para problemas também comuns. Daí o que se verá, por exemplo, na formação das irmandades, abordadas mais ao final deste texto.

Como corolário, o ambiente comum da senzala partilhada pode ter estendido as soluções encontradas por um grupo, mesmo que por imitação, para os demais grupos, também co-vitimados pela mesma desgraça senzalada.

Por decorrência, é destas toscas formações novas que resulta a cultura afro-americana, inexistente na África: pessoas de diversa origem se encontram e trocam, negociam e se auto-apoiam compulsoriamente, permutando informações, posições, crenças e idiomas e, consequentemente, reformatando tudo o que sabiam, agora amalgamado em formas mais confortáveis, que se desenvolviam continuamente, no dia a dia.

Assim a oficina de Exu, orixá que desmancha o que está pronto para que coisas novas, nascidas do que foi desmanchado, aconteçam; portanto, da vitória do Deus Cristão, deus da ordem, contra Exu, o deus da desordem, se é que este foi vencido em África, parece terem-se amoldado novas formas americanas, transformando-se em coisa outra, nova mas antiga, mesmo sem perder o que trazia de ancestral.

Coisas novas a partir de coisas velhas: obras de Exu.
Escravos novos

Para a obtenção de escravos novos, a formação de famílias nas senzalas americanas, exceto no século final do processo escravista, era algo praticamente impossível: importava-se algo em torno de oito homens por mulher, visto que a escravidão tinha, por finalidade primeira, o trabalho braçal, extenso e forçado, para o qual as mulheres, assim como as crianças e os velhos, não formavam, evidentemente, o contingente mais indicado.

Porém, há que se atentar que, dessas senzalas e das poucas mulheres de início para cá trazidas, nasceram outras, permitindo, ao longo do tempo, a produção de crioulos, quer a partir de africanas natas, quer de crioulas já aqui nascidas.

Outro ângulo: a economia, no desenrolar do processo, ao se diversificar e expandir, passou a exigir, cada vez mais, braços escravos; como solução, dois caminhos foram adotados: primeiro, a importação crescente de africanos novos, o que, no Brasil, atinge pico em meados do séc. XVIII; segundo, o desenvolvimento de fazendas de reprodução, que logo se mostraram inviáveis, por tornar o ofício de fabricar escravos em série mais caro que a aquisição no mercado aberto, posto que exigia, durante a transformação do bebê em adolescente, apenas investimentos sem qualquer retorno no processo; que duraria, pelo menos, doze anos…

Quanto à reprodução natural entre escravizados, é Darcy Ribeiro quem, em O povo brasileiro, p. 163, opina – talvez com certo exagero – quando fala das mulheres:
A negra-massa, depois de servir aos senhores, provocando às vezes ciúmes em que as senhoras lhes mandavam arrancar todos os dentes, caíam na vida de trabalho braçal dos engenhos e das minas em igualdade com os homens. Só a esta negra, largada e envelhecida, o negro tinha acesso para produzir crioulos.

Porém, Robert W. Slenes, em sua obra já citada, detecta modificações de comportamento ocorridas no final do período escravista; isto, especialmente após a Inglaterra iniciar o combate ao tráfico, o que torna caro o escravo novo.

Ademir é mestrando em educação pela  Universidade Federal de São Carlos – UFSCar Coordenador da Câmara de Preservação Cultural do Núcleo de Cultura Afro-Brasileira – Nucab da Universidade de Sorocaba – Uniso

Leia a pesquisa completa aqui – Outros negros

 



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