A subversão do 13 de maio

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Ilustração de Johann Moritz Rugendas sobre o Brasil no século XIX

Maria Teresa Ferreira, Por dentro da África 

Amanhecia 13 de maio. A senzala vazia guardava lembranças dos amores que não vingaram, dos filhos que se foram ou morreram, às vezes, os dois respectivamente. As palhas espalhadas pelo chão guardavam o odor e as manchas de sangue, misturados aos unguentos das pretas benzedeiras pra curar as feridas do açoite.

Corpos pretos como a noite marchavam rumo à liberdade. Homens, mulheres, velhos e crianças se dirigiam ao grande e proibido portão com medo e desejo de ultrapassá-lo. O caminho naquele momento significava a materialização do esforço de muitos que já não estavam mais ali.

Levavam dentro de si muito mais do que tinham nas sacolas improvisadas de sacos de batata e de lençóis surrupiados da casa grande. Estavam transbordando os sonhos desenhados nas cabeças trançadas. Linhas que traçavam caminhos para lugares onde eles pudessem estar mais perto das suas memórias e da sua humanidade.

As batalhas tinham o saboroso gosto da vitória. O tronco, chicote e maldade ficariam para trás, assim que o portão fosse cruzado. Eles cantavam cada um em sua língua, alguns em português, e todas as vozes vibravam em notas de felicidade. Eu imagino que tenha sido assim o dia em que a Lei Áurea (13 de maio de 1888) foi assinada.

Diferente de mim, aquela massa de pessoas desprovidas de nome e humanidade, desconhecia os tratados e os interesses internacionais que motivaram a Lei Áurea e isso faz toda diferença. Hoje é possível entender as conseqüências da falta de planejamento e de leis que pudessem dar sustentação à autonomia e liberdade ao povo preto.

A população negra, além de ter a diáspora como herança e as marcas indeléveis deixadas pelo período da escravidão, convive com uma data que antes de Achille Mbembe, já autorizava a necropolítica.  O 13 de maio é mais uma fraude da política e da sociedade brasileira, que não materializa suas leis através de ações concretas que garantam as elaborações constitucionais como, por exemplo, a Lei 10.639 e o Estatuto da Igualdade Racial.

Ecoa a energia e a força do povo preto que ultrapassou o portão da casa grande, sem rumo ou futuro e ganhou o mundo. Vibra a energia e a força dessas pessoas que ultrapassaram o portão da casa grande e ressignificaram sua existência transformando-se em semente nas terras brasileiras com a mesma força que enfrentou o trabalho duro da lavoura luta contra o seu próprio genocídio.

Ouço os cânticos das plantações se aproximando do portão. Reverencio os mais velhos e agradeço os mais novos por ver neles o futuro. Reconheço-me em cada traço daqueles que caminham. Minha voz se junta à voz deles no brado de liberdade que logo menos chegará. Iluminará.


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