“O Valongo foi o maior ponto de desembarque de africanos escravizados”, diz Milton Guran

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Cais do Valongo – Natalia da Luz

Natalia da Luz, Por dentro da África

O Cais do Valongo foi eleito Patrimônio Mundial neste domingo, dia 9 de julho.

Considerado o maior ponto de comércio de escravos do mundo, o Rio de Janeiro abriga uma região chamada de Pequena África por abranger inúmeros aspectos da cultura africana, trazida durante a travessia de mais de 300 anos de tráfico transatlântico. Apenas no século 19, desembarcaram mais de 500 mil africanos escravizados no Cais do Valongo.

“O Cais do Valongo foi o maior ponto de desembarque do tráfico transatlântico. Em torno do cais, se desenvolveu um complexo escravagista com armazéns, pontos de venda de escravos, mercados, casas comerciais. Este foi o maior porto escravagista, com a maior transferência forçada de toda a história da humanidade”, disse, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, Milton Guran, antropólogo e coordenador da indicação do Cais do Valongo ao título de Patrimônio da Humanidade.

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O Cais do Valongo (que servia para o desembarque dos escravos entre 1774 e 1831) foi construído para receber e comercializar escravos. Depois que D. João VI veio para o Rio, o comércio de escravos na Praça XV passou a causar incômodo. Então, foi estabelecido o Cais do Valongo, mas, antes disso, a cidade já era a porta de entrada para africanos que eram trazidos para este lado do Atlântico desde o século XVI.

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O Cais do Valongo foi declarado patrimônio nacional em novembro de 2013, quando a UNESCO considerou o local parte da chamada “Rota do Escravo”, projeto criado pela instituição em 2006 para destacar o patrimônio material e imaterial relacionado ao tráfico de escravos no mundo.

O processo de escavação da região – entre janeiro de 2011 e junho de 2012 – reafirmou a necessidade do resgate da história que liga africanos, brasileiros e também portugueses. Os artefatos (muitas louças portuguesas, por exemplo), os restos mortais, pedras, conchas, búzios, amuletos africanos, tudo o que foi encontrado sinalizada essa presença africana.

Uma das responsáveis pelas escavações, a arqueóloga Tânia Lima acrescentou ao dossiê que, sem condições de escrever sua própria história, os escravos do Valongo deixaram para trás esses objetos, perdidos, abandonados, esquecidos ou escondidos.

“Através dos seus pertences, eles falam sobre suas angústias, seu desespero, mas também sobre suas esperanças, e sobre as estratégias de sobrevivência que desenvolveram, em um discurso silencioso, porém extremamente eloquente. Essa foi a herança que eles puderam deixar para a sua descendência e também para a posteridade, agora recuperada pelas escavações arqueológicas. (ANDRADE LIMA: 2013:186).

Para redigir o dossiê de candidatura, que tem quase 500 páginas, a historiadora Monica Lima diz que foi necessário pensar em quais aspectos abordar, já que o cais é um ponto que conecta as histórias do Brasil, Portugal, Américas e África, além de ter sido um local de distribuição para outras cidades da América do Sul.

Pintura de Jean Baptiste Debret - 1768 -1848
Pintura de Jean Baptiste Debret – 1768 -1848

“O Rio foi a cidade mais atlântica do mundo. Essas pessoas deixaram a memória viva do que foi a escravidão. Desta maneira, nós denominamos isso como memória sensível, um conceito que trabalhamos em outras regiões do mundo, como os campos de concentração do holocausto (na Alemanha|) e a Robben Island (a ilha onde Mandela ficou preso por 18 anos)”, destacou a historiadora em entrevista ao Por dentro da África.

Cemitério dos Pretos Novos – Divulgação

Na apresentação do dossiê, o maior africanólogo de língua portuguesa, Alberto da Costa e Silva, justifica a importância do cais para a humanidade:

“O Cais do Valongo merece ser considerado pela UNESCO patrimônio da humanidade porque é o sítio de memória da escravidão mais completo que se conhece. Ele tem importância não apenas para a história brasileira e, portanto, para a nossa vida como nação, mas também para a história do mundo. Dizia o escritor nigeriano Chinua Achebe que a história não é boa nem má; que a história é, e nós somos esta história, com seus momentos luminosos e demorados e terríveis pesadelos, como este que parecia interminável e que nos deixou como  cicatrizes profundas monumentos como o Valongo, monumentos vivos, que não precisam de textos a elucidá-los, que são pelo que são, e nos comovem pelas pedras que pisamos e pelas pedras que olhamos, pedras que receberam, depois de medonha viagem, os pés de muitos de nossos antepassados, e que contam um pouco desse longo capítulo trágico e espantoso da história dos homens sobre a face da terra.”

Encontro das “Áfricas”

Grande parte dos africanos trazidos à força para o Brasil vieram da região do antigo Reino do Kongo (onde hoje estão Angola, República do Congo, Gabão e República Democrática do Congo), mas o Brasil também recebeu muitos africanos de países como Gana, Benin, Togo e Nigéria. E foi aqui, no Rio de Janeiro, que muitos africanos se reconheceram africanos, como lembra o professor Guran.

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Pintura de Jean Baptiste Debret – 1768 -1848

“Antes, quem falava iorubá não tinha ideia do bantu. Foi aqui que tudo se misturou. E isso fez com que a maioria da população brasileira, depois de muitos séculos, se assumisse como afro. Eu sou visto como branco, mas minha avó era negra, e minha bisavó foi escrava. Então, quando falamos de ancestralidade, a gente não fala de cor da pele, é muito mais do que isso”, ressaltou o antropólogo.

Dentro da candidatura do Cais do Valongo, Milton lembra que o Instituto dos Pretos Novos representa um dos três pilares. Entre os séculos XVIII e XIX, grande parte dos que chegavam sem vida era enterrada onde hoje está localizado o instituto, local que pode fechar as portas por falta de verba.

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Cemitério dos Pretos Novos – Divulgação

Pretos Novos era o nome dado aos novos escravos que chegavam ao Rio de Janeiro pela região do porto e eram negociados no mercado de vendas, no Valongo. As ossadas, utensílios, argolas e colares encontrados são uma rica fonte de estudo que precisa ser preservada.

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O segundo pilar é referente ao complexo africano de comércio de escravos e, o terceiro, diz respeito à presença afro na região, impregnada de história e cultura africana com referências ao surgimento da capoeira, dos cultos de matrizes afro e ao quilombo da Pedra do Sal.

“Dentro disso tem o aspecto do sítio arqueológico. A gente lembra da Grécia com Acrópolis e tenta comparar com o Valongo, mas aqui existe um valor simbólico que materializa a diáspora africana no mundo inteiro. A escravidão existe há mais de 10 mil anos, está presente em todas as sociedades humanas, mas aqui temos essa dimensão simbólica”,afirmou Milton.

Pintura de Jean Baptiste Debret – 1768 -1848

O dossiê confirma que o ressurgimento do Cais do Valongo trouxe para as proximidades do sítio arqueológico outros grupos culturais e manifestações, ligados à celebração das heranças africanas. Esses grupos se juntaram  aos  que  haviam  resistido  por  muitos  anos  na  região  e  que,  durante  certo  tempo,  tiveram que  atuar  de  forma  clandestina,  em  períodos  de  repressão  às  expressões  da  cultura  negra  popular.

“A região do cais também conectava o Rio à possibilidade de uma volta, de um retorno dos africanos libertos. O reconhecimento do cais permite que seja um espaço-reverência e referência para a nossa história”, completou Mônica.

Leia o dossiê sobre a candidatura aqui 

Cais do Valongo – Foto de Milton Guran