Camarões: Projeto utiliza recursos da floresta para construir casas e reservatórios de água

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Foto de arquivo da comunidade de Mvoumagomi

Natalia da Luz, Por dentro da África

Em Mvoumagomi, sul do Camarões, a construção de casas, banheiros e reservatórios de água tem envolvido e beneficiado uma comunidade fragilizada e estigmatizada. Nesse processo integralmente sustentável, que utiliza recursos e materiais da própria natureza, a população de pigmeus que vive na região ganha qualidade de vida.

“A situação dessa população é muito difícil. Ela vive na floresta e da floresta e por isso o desmatamento é tão prejudicial para ela”, disse ao Por dentro da África, o arquiteto Arturo Vittori, que desenvolve soluções sustentáveis em regiões precárias do mundo.

Construção de casas, reservatórios e banheiros em Camarões – Divulgação

Ao conhecer comunidades isoladas de países em desenvolvimento, Arturo se deparou com uma enorme escassez de água potável, eletricidade e latrinas. Para contribuir e amenizar fragilidades, ele passou a usar a sua experiência de arquiteto e implementar algumas alternativas.

“Aprendemos muito com eles a partir da combinação de folhas e elementos da natureza, por isso o nosso objetivo é também usar recursos provenientes de cada região. No Togo, por exemplo, não havia disponibilidade de bambu, então, a matéria-prima principal que usávamos era a madeira. Já na Etiópia, utilizávamos majoritariamente o bambu”, comparou o italiano.

Arturo lembra que, na região, há uma enorme exploração de plantações de banana e óleo de palma, o que produz devastação e poluição dos rios pelas grandes companhias. A comunidade vive na floresta tropical com enormes dificuldade de acesso por terra. Durante a estação das chuvas, a região sofre com riscos de enchentes.

Construção de casas, reservatórios e banheiros em Camarões – Divulgação

Costumes dos pigmeus

Com cerca de 25 milhões de habitantes, Camarões faz fronteira com Nigéria, Chade, República Centro-Africana, Guiné Equatorial, Gabão e República do Congo. Alguns dos seus recursos naturais incluem praias, desertos, montanhas, florestas tropicais e savanas. O país é lar de mais de 200 grupos linguísticos.

Construção de casas, reservatórios e banheiros em Camarões – Divulgação

Um povo de ‘caçadores-coletores’, os pigmeus bagyelis, por exemplo, vivem na floresta tropical de Camarões, Gabão e República do Congo, juntamente com vários povos de agricultores bantu. Como outros grupos pigmeus (bakola, babongo, aka, bambuti), os bagyelis são tradicionalmente nômades.

Em Mvoumagomi, os meninos são ensinados a usar a vara de pescar. Os homens, geralmente, utilizam substâncias de plantas para capturar os peixes. Outro método da pesca, executado somente por mulheres, é ‘a pesca da represa’, em que a água é removida de uma área represada para que os peixes sejam pegos.

Por dentro da África conversou com a mediadora do projeto nas comunidades. A camaronesa Bárbara Guassen nos contou que uma importante etapa do projeto foi finalizada: a casa. Foram mais de três semanas para finalizar a residência para uma família de cerca de seis pessoas.

Warka House pronta – Divulgação

Inspirada na arquitetura das casas tradicionais africanas, a Warka House é um modelo moderno e eficiente que permite que os moradores mantenham suas tradições e rituais.

“O principal problema com a casa tradicional é a falta de higiene e conforto.  Nós usamos praticamente o mesmo material que encontramos na natureza, só que oferecendo mais segurança, limpeza e sustentabilidade” disse Bárbara, indicando que o próximo passo será o banheiro e a torre de água, a Warka Water, que deverá ficar pronta até meados de 2019.

Warka Water

Exemplo do primeiro Warka Water – Etiópia – Divulgação

O nome do projeto é inspirado na árvore gigante ‘Warka’, uma figueira nativa da Etiópia, tradicionalmente utilizada para reuniões públicas, e que faz parte da cultura e do ecossistema local.

A torre pode ser construída e montada por moradores locais, sem a necessidade de andaimes ou equipamentos elétricos. Com 10m de altura, ela pesa apenas 60 kg e pode captar cerca de 100 litros de água por dia.

Construída com materiais baratos reciclados (blocos de pedra locais, fios de cânhamo, cabos de poliéster e malha de bioplástico), a estrutura é feita principalmente de bambu. O revestimento interno (de plástico reciclado em espécie de rede) agrupa gotículas de orvalho que vão ao encontro do recipiente de coleta.

Em 2015, o Por dentro da África fez uma reportagem exclusiva para falar sobre a iniciativa na Etiópia, que hoje beneficia diretamente mais de 100 pessoas. Lá, é possível coletar mais de 100 litros de água por dia na região”. Leia a reportagem aqui 

Durante a estação da seca é comum que os pigmeus se movam e acampem dentro da floresta para manter o grupo alimentado, já na estação chuvosa, a água colhida é armazenada em recipientes expostos ao meio ambiente.

“Alternativamente, os moradores devem fazer uma caminhada de meia hora até o rio Lobe. Esta tarefa recai principalmente sobre as mulheres, mas as crianças também podem ser responsáveis ​​por essa atividade. Eles andam descalços pela densa floresta até chegar ao rio, e depois precisam tomar muito cuidado para não escorregar nas encostas até a água cheia de crocodilos”, alertou Barbara.

A camaronesa lembra que, com frequência, a água está contaminada, mas os moradores não têm escolha. Eles bebem água, lavam pratos e roupas no mesmo lugar e por isso doenças se espalham mais rapidamente.

“A falta de água limpa aumenta o risco de doenças como cólera, febre tifóide e disenteria. A escassez geralmente encoraja as pessoas a armazenar água em suas casas, o que acaba aumentando o risco de contrair malária a partir da proliferação de mosquitos”, explicou.

Foto de Divulgação do projeto da Warka House

Alternativa para áreas de insegurança alimentar

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) advertiu que a escassez de água é uma das questões mais urgentes relacionadas à segurança alimentar no Oriente Médio e no Norte da África. A disponibilidade de água doce per capita na região caiu dois terços ao longo dos últimos 40 anos e deverá diminuir mais 50% até 2050, segundo a FAO.

A agricultura e outras atividades afins consomem mais de 85% dos recursos de irrigação, água subterrânea e água vinda das chuvas e, com o aumento da população urbana e das exportações, mais produtos agrícolas serão necessários.

Uma análise dos dados de 35 países da África Subsaariana (representando 84% da população da região) mostra diferenças significativas entre os mais pobres e os mais ricos da população, tanto em áreas rurais e quanto urbanas. Mais de 90% dos mais ricos em áreas urbanas usam fontes melhoradas de água e mais de 60% têm água encanada no local. Nas áreas rurais, a água canalizada é inexistente em 40% mais pobres das famílias, e menos da metade da população utiliza qualquer tipo de fonte melhorada de água.

“Nós trabalhamos de forma independente, sem assistência específica de outras organizações, apenas alguma colaboração nas fases de desenvolvimento de projetos específicos. A implantação da torre requer manutenção, limpeza e reparação, mas é uma operação simples,que não precisa de técnicos especializados ou equipamentos elétricos. O mais interessante disso é que há possibilidade de instalá-los em outros contextos geográficos com condições ambientais e meteorológicas semelhantes.

Saiba mais sobre o projeto aqui

Este conteúdo pertence ao Por dentro da África. Para reprodução, entre em contato com a redação.

 


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