Uganda: Artistas usam a música para combater discriminação contra a população LGBTI

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Natalia da Luz, Por dentro da África

Em Uganda, um dos países mais repressores do mundo para a comunidade LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e pessoas intersex), um grupo de ativistas luta contra o preconceito usando música e arte. Rainbow Riots capacita e estimula habilidades artísticas para que as pessoas vençam o isolamento e construam uma rede de apoio.

“Cultura e criatividade são armas extremamente poderosas porque mudam a mente das pessoas. Eu queria fazer música para dar voz às pessoas que tiveram suas vozes caladas”, contou ao Por dentro da África, Petter Wallenberg, artista ativista que há dois anos decidiu produzir um álbum com vozes talentosas de países perigosos para a população LGBTI. Assista ao vídeo abaixo com a música Freedom (Liberdade).

No álbum, cada música foi escrita e cantada por um artista que vive onde a violência homofóbica é constante. Tudo o que é arrecadado com apresentações é destinado ao projeto. Petter lembra que, em Uganda, a reação sobre qualquer coisa relacionada às questões LGBTI é, na maioria das vezes, negativa e odiosa. No país, os homossexuais são denunciados com fotos expostas em jornais como se fossem criminosos e sujeitos à punição de 14 anos de detenção.

Bad, componente do grupo, diz ao Por dentro da África que estar inserido no meio LGBTI é sempre uma experiência difícil em seu país, principalmente para os trans, que são considerados o rosto da comunidade em Uganda. Os ataques físicos por parte da polícia e da população são muito comuns.

“O desemprego e a expulsão da educação leva muitas vezes as pessoas trans ao trabalho sexual. Isso nos coloca em alto risco de contrair HIV e outras DSTs. No entanto, não temos muito acesso aos serviços de saúde devido à discriminação”, disse o ativista.

No país de Bad e Ivan (outro componente do Rainbow Riots que conversou com o site), muitos jornais utilizam frases como “enforquem os homossexuais”. Essa postura contribui para a propagação do ódio entre seus próprios cidadãos. Muitos ativistas foram assassinados nos últimos anos com o incentivo de propagandas como essa. Um caso que ganhou repercussão internacional foi do David Kato, espancado até a morte em 2011.

“O nosso projeto tem como proposta conscientizar. Nem todos ugandeses veem os nossos vídeos por falta de acesso à internet. Mas eu tenho amigos que enviaram mensagens perguntando se eu era homossexual e por quê eu tive que negar isso. Mesmo em clubes noturnos, você não está livre para dançar e se expressar. Se eles veem um homem dançando como uma mulher, eles realmente te jogarão para fora”, explicou Ivan.

Inspiração

O projeto de Peter, que reúne componentes de Uganda, Malawi e Jamaica (no Caribe), está recebendo atenção por inspirar pessoas marginalizadas. O trabalho fortalece a comunidade como um todo, já que a música ajuda a compartilhar experiências, aumentando a conscientização em países onde as questões LGBTI são controversas.

“Eu acredito em mudar o mundo passo a passo. A missão é aumentar a visibilidade dessas pessoas, fornecendo uma plataforma para voz criativa. Além do álbum Rainbow Riots, fizemos a campanha musical “Igualdade de Direitos” para os Objetivos Globais das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável”, contou Petter, lembrando que a organização também arrecadou fundos para as vítimas do ataque em boate gay de Orlando, em junho de 2016, onde mais de 50 pessoas morreram.

A perseguição é um dos grandes desafios no país onde a organização está sediada. Ivan foi preso apenas por conta da sua orientação sexual.

“Na prisão, você é assediado e despido. Eles sempre querem envergonhar você antes de aprisioná-lo. E se você for apanhado no ato, eles sempre pedirão muito dinheiro a você, a vítima, porque eles têm essa mentalidade de que os homossexuais são pessoas com dinheiro”.

Em fevereiro de 2014, pós a aprovação da lei no Parlamento de Uganda que pedia pena de morte para os homossexuais, uma parte da população aplaudiu o feito, pois ela ainda acredita que os homossexuais devam ser exterminados para proteger a geração mais jovem contra aquilo que consideram um grande mal, disse, em entrevista ao Por dentro da África, Walusimbi Moises, responsável pela organização Uganda Gay On Move, criada em janeiro de 2013 para defender a igualdade e os direitos humanos.

Em agosto de 2014, a lei foi anulada porque não havia membros suficientes na votação. Apesar disso, os deputados não abandonaram as tentativas de criminalizar ainda mais a homossexualidade.

Petter Wallenberg (no centro) com Kowa Tigs Fats e Deb Ems
Petter Wallenberg (no centro) com Kowa Tigs Fats e Deb Ems

Com população de mais de 40 milhões de habitantes, Uganda contabiliza, aproximadamente, 1,5 milhão de pessoas pertencentes à comunidade LGBTI, segundo a organização. Desta forma, cerca de 5% de um país estariam sujeitos à violência legitimada e à condenação baseada apenas na orientação sexual de seus cidadãos.

O projeto de lei foi entregue pela primeira vez em 2009, com proposta de pena de morte para alguns atos homossexuais, o que provocou um intenso debate entre os defensores dos direitos humanos. Após muita pressão internacional, em dezembro de 2013, o Parlamento removeu a pena de morte e inseriu a prisão perpétua para “os casos mais graves de homossexualidade”. Vale lembrar que a homossexualidade já era ilegal em Uganda, mas a nova lei oferece uma ameaça ainda maior para os direitos humanos. Leia a reportagem completa aqui e relembre o caso.

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Na África, os atos homossexuais são considerados criminosos em cerca de 40 países, de acordo com a Anistia Internacional. Essa ideia (“de que na África não há homossexuais”) ainda é reproduzida por muitos líderes africanos como o ex-presidente do Zimbábue Robert Mugabe, que encorajava atitudes homofóbicas, justificando que o colonizador inglês, supostamente, tentou impor a homossexualidade aos africanos como parte de um programa mais amplo do imperialismo ocidental… O rei da Suazilândia, os presidentes da Namíbia, Quênia, Zâmbia e Uganda, bem como os líderes de muitas igrejas que atuam em todo o continente, seguem essa mesma estrada da intolerância.

Veja mais: “Primeiro casamento zulu estimula discussão sobre tradição”

“Ainda temos muita luta pela frente, mas hoje eu me sinto otimista em fazer parte desse projeto que usa a música para defender nossos direitos. Eu tenho muita esperança de que um dia teremos liberdade. Talvez a próxima geração aproveite os frutos disso”, desabafou Bad.


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