“Você não pode imaginar a riqueza do Brasil sem levar em conta a participação da África” diz Jean-Paul Delfino

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Jean Baptiste Debret, Voyage Pittoresque et Historique au Bresil (Paris, 1834-39)

Natalia da Luz, Por dentro da África

Roma – Do continente europeu, ele esmiúça, desbrava o Brasil ao se despedir de terras brasileiras, nação que foi construída a partir de uma imensurável contribuição africana. Essa ligação intercontinental que cruza oceanos é o objeto de estudo de um escritor francês que coleciona nove obras sobre a história do Brasil e também dos africanos.

– Na história oficial brasileira, a importância dos negros africanos não é respeitada. Você não pode imaginar a riqueza do Brasil sem levar em conta a importância da África. Na música, na pintura, na literatura, na escultura, na gastronomia, na explicação do mundo pelo candomblé! Em todas essas áreas, a África tem uma importância fundamental – disse Jean-Paul Delfino em entrevista ao Por dentro da África, reconhecendo o papel dos índios e europeus (portugueses, holandeses, franceses) na formação do país.

É essa história, cheia de referências à África, que ele contará em sua palestra na mediateca de Luanda, capital de Angola, na próxima quinta-feira. Convidado pela Aliança Francesa, ele apresentará o trabalho de toda uma vida, já que ele é daqueles escritores que nutre fascínio pelas histórias que compõem o DNA brasileiro. Pergunto se há uma espécie de encanto que o traz da França para o Brasil, pelo menos, duas vezes ao ano, e ele diz que sim, mil vezes sim!

delfino 2– Há um dia como todos os outros dias que você está andando na rua, cruzando com milhares de pessoas, homens, mulheres, crianças e, sem saber o motivo, você encontra uma pessoa que tem uma energia particular. Você não conhece aquela pessoa, você reconhece ela! Minha história com o Brasil começou assim. Eu tinha 13 anos e estava ouvindo uma bossa nova de João Gilberto. Foi como uma visão! – lembra o escritor de 50 anos.

A palestra “O Brasil, Filho de África” será em Luanda, parte de uma região de onde saíram cerca de 70% dos escravos que chegaram no Brasil através do tráfico transatlântico, que durou mais de 300 anos (séculos XVI a XIX). Em sua primeira ida à Angola, ele diz que chega para fazer encontros, compreender, sentir, beber e comer.

Na conferência, Delfino vai falar sobre muitos heróis brasileiros, como Dandara, Aqualtune, Luiza Mahin, Joana Angelica, Clara Camarão, Aleijadinho, Tia Ciata (da Pequena África), Besouro (mestre de capoeira), Paraguaçu, Maria Quiteria de Jesus ou Mãe Menininha do Gantois. Na obra Zumbi, o primeiro de seus romances, o herói Semba é um guerreiro ovimbundu (etnia que constitui cerca de 35% da população de Angola), preso pelos portugueses, em 1690. Chegando ao Rio de Janeiro, ele é vendido como escravo e consegue combater, ao lado do grande Zumbi, no Quilombo dos Palmares.

livros– Meus heróis são brasileiros desconhecidos, mulheres e homens do povo: pretos, mulatos, índios e, raramente, brancos. Eles são, praticamente, todos negros e esquecidos pela história oficial do Brasil. Quero fazer um dicionário muito livre, um dicionário das almas do passado que precisa, para mim, ser conhecido por africanos e brasileiros – compartilha o desejo.

Captura de tela 2015-06-09 às 22.02.16Nos últimos anos, Brasil e África, notoriamente, vêm se aproximando, se redescobrindo. A globalização, os acordos comerciais, parcerias sócio-políticas e intercâmbios culturais vêm estreitando o espaço do Atlântico entre nós, além da vontade de saber um pouco mais sobre a nossa própria história. Os livros de Delfino contam um pouco sobre isso em mais de 5 mil páginas, que misturam a história oficial e os heróis de suas obras de ficção.

– Espero que os brasileiros se interessem mais pela sua história porque, quando você não conhece o passado, você não tem as armas para enfrenter o futuro. Para os angolanos, é a mesma coisa.

Serviço: Dia 11 de junho, às 18h 

Alliance Française de Luanda /

Travessa do Bocage n°12, Largo da Sagrada Família, BP 1578, Luanda

 


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4 COMENTÁRIOS

  1. É necessário que todos tenhamos essa conscienciosa, pois temos uma cultura desses povos que aqui chegaram como escravos, onde as pessoas que os escravizavam não respeitavam suas religiões e costumes, e ainda os tratavam como se fosse um único povo sem distinção de suas etnias. Até hoje no Brasil muitos falam em África como se fosse uma etnia homogenea. Devemos ter a conscienciosa de que são povos com várias etnias e culturas diferentes.

  2. Precisamos dessa consciência! A nossa formação tem base africana e não temos como negar! Que, aos poucos, possamos aprender e valorizar essa relação!

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