Sociedades Africanas: Desenvolvimento ou Desintegração?

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Addis Abeba – Etiópia


Por Ulrich Schiefer, Por dentro da África 

(Artigo produzido em parceria com o Instituto Universitário de Lisboa)

Lisboa – As sociedades africanas são sociedades muito diversas, ricas nas suas histórias, nos seus modos de vida e culturas e, portanto, falar delas em conjunto é uma abstração. Neste texto são tratadas as sociedades que habitam a África Subsaariana e as suas diásporas, que são cada vez mais numerosas. A região da África subsaariana tem dimensões comuns que a caracterizam, nomeadamente o relativo decrescimento da sua participação ativa no comércio e na economia mundial, não obstante a corrida desenfreada pelos recursos naturais em algumas zonas. A desconexão (déconnexion) da África Subsaariana manifesta-se no desinvestimento e na descapitalização.

A desestruturação das organizações econômicas produtivas, a decomposição tendencial das unidades de sobrevivência rurais, a crescente perda de conhecimentos produtivos e organizacionais, assim como a perda de capacidade de socialização, atuam como processos interdependentes que se reforçam mutuamente numa espiral negativa.

A perda de controlo de grupos sociais cujo potencial de violência flutuante pode ser instrumentalizado quase completa e livremente, é consequência da desintegração e do colapso, bem como condição para ainda mais destruição.

Especialmente nas periferias das grandes cidades, formadas no contexto de processos de urbanização acelerados, estabelecem-se as condições para o aparecimento de atores violentos, cada vez mais jovens. Estes inspiram-se, nos seus modelos culturais, bem como na sua simbologia para a criação da sua identidade, no filme violento internacional.

Os seus símbolos de comunicação tornam-se, deste modo, internacionalmente convertíveis, e sobrepõem-se à forma mágica histórica de existência do jovem guerreiro – na sua emanação moderna reforçada por drogas igualmente modernas.

Os campos de refugiados desempenham um papel especial como incubadora de cadetes, os protagonistas do potencial de violência, que entretanto já escaparam do controlo das suas sociedades de origem.

Foto: RDC – UNICEF

O colapso físico das infra-estruturas de produção, consequência da falta de manutenção, da falta de capacidade de investimentos de substituição, ouda simples destruição, seja por desleixo ou com propósito, coincide com o desmoronamento das instituições da administração pública. Muitas empresas são canibalizadas como o são, também, muitas instituições sociais.

Existe um triângulo de tensões entre grupos dos aparelhos “estatais”, especificamente dos aparelhos repressivos fora de qualquer controlo, (cada vez mais difícil de destacar dos grupos criminosos) –– do capital pirata internacional cada vez mais agressivo e das sociedades, principalmente urbanas mas não só, em estado de anomia crescente.

Neste campo de tensões nasce uma economia, tendencialmente sem normas, parcialmente violenta, de organização criminosa que recruta o seu pessoal nos destroços da sociedade urbana em colapso que já não consegue canalizar os seus conflitos inter-geracionais.

Cientistas de desenvolvimento e colapso de sociedades

De fato, o colapso de sociedades é um tema muito desagradável, cuja discussão encontra resistências numerosas. Estas têm dimensões teóricas, ideológicas, políticas e emocionais.

A orientação de um conjunto de disciplinas científicas para o conceito de desenvolvimento produz uma fixação paradigmática, e um correspondente consenso básico entre cientistas, consenso esse que tende a excluir fenômenos não compatíveis.

Foto: Nigéria – Virginia Maria Yunes

A consolidação ideológica desta atitude é reforçada, entre outros fatores, pela dependência econômica da política de desenvolvimento que – sob pressão crescente do público contribuinte – assume uma postura de defesa cuja agressividade aumenta em correlação inversa com o fracasso do desenvolvimento externamente induzido.

Qualquer crítica encontra, portanto, a mesma atitude de defesa hostil que reprime tudo que possa pôr em risco os fluxos da economia dissipativa.

Esta atitude é reforçada por uma forte componente emocional, proveniente de uma identificação duradoura com o objeto e reforçada por um mal-estar crescente cuja origem é a frustração, apenas parcialmente assumida, que resulta do fracasso do empenho de muitos anos.

As posições ideológicas, cada vez mais cristalizadas, em caso extremo do “political correctness”, não somente impedem a reflexão crítica, como também combatem qualquer discurso divergente (e, não raras vezes, os discursantes).

Bissau – Foto de Virgínia Maria Yunes

Embora tentemos pôr as sociedades no centro da análise, o que as ciências de desenvolvimento tendem a ignorar, sugerimos um olhar diferente que evite transportar conceitos analíticos de um contexto para outro. Quer dizer, entendemos, por exemplo, o “Estado” como uma projeção externa, um formato de organização de partes da sociedade que tem origem na necessidade de proporcionar um interface ao conjunto de intervenções externas mas cuja matriz é uma auto-organização original – tanto na sua projeção para o exterior, como, nas relações que determinados grupos estabelecem com o resto das sociedades.

Para ilustrar este ponto: retirar as “fardas” aos atores e olhar para as relações que, de fato, estabelecem com restantes atores. Idem quanto ao comércio: não faz sentido distinguir entre comércio legítimo e ilegítimo, e ainda menos entre economia formal e informal – olhamos para a produção e os fluxos reais de bens e serviços. O mesmo se aplica às intervenções externas – olhamos para os fluxos reais e em função destes, atribuímos o valor e o lugar devido às manifestações simbólicas e discursivas.

Portanto, mais de 50 anos de ensaios no sentido de induzir o desenvolvimento, em África, levantam uma série de questões, que têm merecido a atenção de muitos cientistas:

*Por que as políticas, programas e projetos de desenvolvimento não funcionaram? Por que as coisas pioram em vez de melhorar?

*Outras questões, não menos importantes, estão a ser largamente ignoradas, pelo menos nos discursos oficiais:

*Poderiam as populações (não as elites) estar em piores condições, se não tivesse havido intervenções desenvolvimentistas?

*Será que as tentativas de induzir o desenvolvimento contribuíram para o surgimento de dinâmicas de desintegração nestas sociedades?

*Como é que os interesses das agências de intervenção influenciam os diferentes tipos de intervenção?


Captura de tela 2015-09-07 às 12.31.37Artigo desenvolvido pelo Curso de Estudos Africanos, do Instituto Universitário de Lisboa, para a parceria com o Por dentro da África. Saiba mais sobre o curso e a instituição aqui 


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