África em Conto: Nascente do Kwanza

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Rio Kwanza, Angola - Divulgação
Rio Kwanza, Angola – Divulgação

Por Elisabete Nascimento, Por dentro da África

Somos a família Nizazi. Estamos na mira dos Ovimbundos. Povos do centro Norte de Luanda. São Pastores do planalto.  E rivais dos Kimbundos, artífices do ferro. Ódio nos une. Ódio nos separa. Aprendemos cedo diante do paredão de fuzilamento. Nossa escola.  Ódio e fuzilamento são a única memória possível. Não entendia a diferença: tockue, ovimbundo, umbundo ou kimbundo. Eu tremia por desconhecer a diferença.

Ao pé da nascente do Kuanza estávamos uns dezesseis. Havia um total de uns setenta prisioneiros. Não se entendiam. Muitos eram os grupos misturados. Um verdadeiro mosaico.

Seríamos fuzilados. Ou nossas irmãs, tias, primas seriam violentadas. Nós homens somos guerreiros. Mesmo sem vontade. Nossos braços seriam decepados pelo facão. O troféu seria um braço esquerdo e uma perna direita. De cada guerreiro duas mutilações. Mas a primeira das muitas foi ser guerreiro. Soldado ainda menino. E ser macho cabia iniciação.

Ter o prepúcio cortado pelo estilete enferrujado. O ritual da mukanda. Sem tétano e sem choro. Não morri. Depois da cicatriz do umbigo, ser macho foi a mais traumática de todas. Eu teria de aprender as palavras: combate, embate, munição, beligerância, posse, exército, matança.

Os soldados começam a matança. Atiram para o alto, alguns. A metralhadora começa: grunhidos, gritos, guerra, guerrilha, granada, grilhão…  As explosões eram atômicas. Os fogos de artifício me ferem com o mesmo terror. As armas, todas ocidentais, dilaceram os corpos.

As armas de fogo são todas brancas. Na terceira fila estávamos todos de uma mesma linhagem. Nunca consegui dizer uma frase maior que esta, em face do ocorrido, do medo e do pânico, da náusea e do terror… Silêncio. Sempre. Silêncio nos protege. Falar pode fazer-me pó. Melhor se o fosse. Podíamos ser escravos de guerra. Ou sermos feitos maricas. Ou servir nossa mãe de amantes para eles. E ter irmãos com sangue do inimigo. Este é o maior troféu de guerra.

Por instantes, esqueci a nascente do Kwanza. Ali faríamos um farnel. Por horas abusaram de nossa infância. Pensei não viver. E não conhecer o gozo do amor. Casar. Ter muitas esposas. Ter incontáveis filhos.

O pasto havia me iniciado como cobrir muitas fêmeas. Boa ração. Muito leite de cabra. E descanso de guerreiro. E silêncio, para que uma não saiba da outra. O coito sempre em silêncio nos escondia. Camuflava-nos. Mas na mira de muitos fuzis. Na mira de um lança-chamas. Na mira de facões. Nós, os guerreiros Kimbundos, desabávamos.

Havia Bacongos, Xigongas, Lundas e Mbundos. Não sabia quem era quem. Apenas as línguas distintas. Elas são ameaça de guerra. Falar uma língua é extermínio na certa. O pavor nos assemelhava à condição de nada. Por que tanto ódio? Não sei até hoje. Escapamos do paredão.

CAPA CIRANDA LITTERIS FINAL(1)

Meu pai não era Kimbundo, nem Ovimbundo, nem angolano, nem africano. Mas falava a língua de preto Ovimbundo. Não entendi o que ele disse. O líder deles respondeu. Só entendi as armas sendo abaixadas. Ali mesmo esqueci a minha própria língua de kimbundo.

Já de costas para a mira dos Ovimbundos, sofríamos. Fezes escorriam em minha alma. Era um gozo invertido. Coragem não havia. Não consegui andar. Fui carregado por meu pai. O choro foi o primeiro e o último de toda a minha existência.

Os soldados gritavam: maricas, maricas, maricas, em língua de colonizador. Aí entendi. E sofri ainda mais. Ouvíamos os estupros de meninas. As castrações eram espetáculos. Mais troféus de guerra. Corpos eram flagelados. Não satisfeitos, muitos enriqueceram plantando minas. Eram sementes sulcando a terra. Rasgando a Pátria. Seviciando Angola. A cultura de milho foi trocada pela de pólvora nas covas de plantio.

Muitas covas rasas foram abertas. Nunca fechadas. Foram quinze anos de guerra. E uma existência de opressão. As brincadeiras eram interrompidas. Era uma perna explodida. Um olho vazado. Ou um braço dilacerado.

Dilacerado, eu abandonei o útero de Angola. Terra minada de ódio. Terra minada de desconfianças. Eu desconfio sempre. Eu odeio em qualquer situação de discordância. Não tolero. Sem tolerância. Silêncio. Eu odeio o ódio. Ódio aos que pilharam o corpo de um continente abaixo de deserto. O corpo de uma e de muitas nações dentro de uma única Angola.

Angola da luta pela Independência à guerra civil
Angola da luta pela Independência à guerra civil

Nunca gozei plenamente. Nunca gozei sem pressa num corpo de mulher. Dei a cada uma, silêncio absoluto. Assim escondi umas das outras. Silêncio nos protege. Tática de guerrilha. Tática para acasalar. Feminino é palavra recente. Nem sei bem do que se trata. E nunca perguntei. Nem fazia questão de saber até o fim deste desabafo.

Tenho ainda e sempre, medo de falar e de perguntar. Seja ovimbundo ou quimbundo. Temo ousar em falar. O que quer que seja. Um único fonema é uma ameaça. É o paredão ainda em mim. Meus namoros foram ancorados no paredão. Meu corpo nunca mais foi tocado. Tocado de afeto. Não sei o que é isso. Custo a entender os dicionários: afeto, generosidade, amor, cumplicidade.

Rio Kwanza - Divulgação
Rio Kwanza – Divulgação

Eu toco as mulheres como a um gado. No pasto prefiro as éguas. São mais apertadas do que as vacas. Toco-as ainda como a uma privada. Eu esvazio o escroto. Eu me alivio. Eu fico livre do gozo. Mas eu não transbordo de emoção. Nunca. Amor é coisa de mutilado. Eu tenho todos os órgãos. Mas fui mutilado.O corpo nessa seara é corpo de concentração.

Aos quarenta e nove anos já consigo juntar os remédios. E escrever sobre o nojo e a náusea constantes. Escrevi frases solitárias e curtas. Mas dois golpes a mim desferidos me fizeram querer sair do paredão. Um violento golpe deu-se. Sem querer, eu mesmo o desferi. Um golpe de barriga me tira da clandestinidade no Brasil. Amei assim mesmo meu filho.

Em silêncio sou-lhe grato. Tempos depois, muito próximo a um amor de generosidade, tremi como diante dos ovimbundos. Era um outro tipo de ameaça. Afastei-me em silêncio. Afastei-a de mim. Nunca neguei a providência de macho. Ela transbordava de alegria. Neguei-me a ela. Neguei-a a mim. Neste ínterim, um segundo golpe, agora do destino, me é desferido.

Um filho sem amor vai acionando a necessidade de mudanças. Escondi o quanto pude. Escondi daquela que me amou e a meu corpo, mesmo estilhaçado. Aquela que me amou sem meus dentes, a amiga que suportou o golpe de um filho escondido por cinco anos. Éramos apenas amigos. Mas nos desejamos. Quero ser homem. Um homem de palavras, sem medo do paredão. Quero falar e ser ouvido. Quero ter voz de africano. E ser ouvido. E fazer valer meus ditos. E estudar as nuances dos muitos nomes, que repito, mas desconheço.

Aos poucos, minhas frases ficaram maiores e mais complexas. Mulheres inteligentes aguçam a minha vontade de falar, de enunciar. Ainda tremo com os fogos no final do ano. Ainda falo pouco, e escrevo menos ainda. Leitura é coisa escassa. Tenho muita dificuldade em assistir ao filme Hotel Ruanda, e ler coisas sobre o Burundi ou a Etiópia. Planejei ler Mayombe e Geração da Utopia. Ficou tudo na utopia.

Nunca consegui terminar de ler Terra Sonâmbula. Ainda tenho insônia, mesmo não sendo mais sonâmbulo. Fiz vasectomia. Talvez eu a reverta para poder embalar uma filha de lindas covinhas em meus braços de quimbundo.

Conto do livro Ciranda de Meninos, de Elisabete Nascimento


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