‘A arte precisa combater a intolerância contra religiões de matrizes africanas’, diz Rafael Pondé

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Rafael Pondé – Acervo Pessoal

Natalia da Luz, Por dentro da África

As religiões de matrizes africanas são parte da riqueza que liga os dois lados do Oceano Atlântico. No Brasil, país que mais recebeu africanos escravizados durante o tráfico transatlântico (séculos 16 a 19), elas são as mais atingidas por atos de intolerância religiosa. Neste 23 de abril, dia de Ògún, orixá conhecido por ser grande guerreiro, abrir caminhos e proteger as pessoas, o músico Rafael Pondé lança sua canção-manifesto pela liberdade à crença, à fé.

“Todos temos direitos, quebre o seu preconceito e respeite o meu axé. Olhe para Jesus Cristo, que não fez distinção, isso sim é ser cristão”, diz a letra do samba “Candomblé é Sagrado”, que já pode ser ouvido no Spotify.

Rafael contou ao Por dentro da África que decidiu compor a música após participar de um debate na Universidade de Howard, em Washington, Estados Unidos. Na ocasião, ele era o mediador de uma conversa entre o diretor do documentário ‘Mulheres de Axé’, Marcos Rezende, e os alunos da instituição.

Kehinde e Tawo – Foto de Stela Caputo

“Estava programado um grande festival sobre manifestações artísticas do Nordeste, especialmente da Bahia, Pernambuco e Maranhão, e este debate, em janeiro, havia sido parte deste conjunto de atividades que culminariam em junho. Estávamos online (eu, em Washington) e o Marcos Rezende (na Casa de Oxumarê)”, contou o compositor que também é produtor musical e educador.

Lançado em 2016, o documentário de 30 minutos ouve, entre os entrevistados, cerca de 10 Mães de Santo da Bahia, destacando a importância e presença dessas mulheres na prática e preservação dos saberes das religiões de matrizes indígenas e africanas. A obra termina com uma denúncia contra a perseguição aos praticantes das religiões de matrizes africanas, e lembra o caso da mãe Gilda de Ógùn. Assista ao documentário aqui

Durante o processo de criação, Rafael homenageou mãe Gilda, fundadora do Axé Abassá de Ógùn, morta no ano 2.000. Em 21 de janeiro daquele ano, a ilaorixá de Itapuã sofreu um infarto após ter visto sua foto no jornal Folha Universal, da Igreja Universal do Reino de Deus, que a descrevia como “macumbeira charlatã”. Dois meses antes, ela havia sido agredida física e verbalmente por membros da Assembleia de Deus em sua própria casa de santo.

“Eu sempre soube dos ataques aos terreiros, isso sempre foi uma realidade, infelizmente. Eu tomei consciência dessa violência, em particular, a partir do documentário. Esses casos, em especial o caso da Mãe Gilda, me tocou bastante porque eu me pergunto como um país que tem uma população majoritariamente afrodescendente pode maltratar e ter tanto preconceito em relação às religiões afro?”, questionou o compositor.

Busto de Mãe Gilda – Foto da Secretaria de Comunicação da Bahia – Divulgação

“Candomblé é Sagrado” é parte do trabalho de comprometimento do músico com os aspectos históricos e culturais do continente africano em sua trajetória pessoal e artística. ‘Afrika Bahia’ (2014), por exemplo, foi um álbum dedicado a esse envolvimento. Neste trabalho, há inúmeras referências à relação entre o Brasil e o continente que tanto enriqueceu e moldou a cultura brasileira. Veja abaixo o clipe com artistas e ativistas. 

“Essa canção nova está dentro do meu propósito com a arte: engajada, de mudança e conscientização. Desde o início da minha carreira, eu carrego essa influência. No disco ‘Átomos, palavras, canções’, tem ‘A Revolta dos Malês’, por exemplo, onde eu conto a história desse importante acontecimento em Salvador, em 1835. Eu considero que nós, artistas, precisamos ter uma preocupação de transformação social, de lutar por melhores condições porque a nossa poesia, a nossa voz são dons e devem ser usadas em causas nobres para a melhoria da vida na Terra”.

O músico que tem quase 25 anos de profissão já colaborou com diversos artistas nacionais e internacionais como o produtor Hans Martin Buff (Prince, Joss Stone, Scorpions) e o pianista americano ganhador do Grammy, Bill Anschell. Vivendo nos Estados Unidos desde 2017 com o papel de divulgar a música brasileira e produzir artistas latinos, Rafael usa suas canções para chamar atenção para temas sensíveis como a desigualdade social, negligência política e o racismo. Neste seu manifesto, o cantor aborda o racismo religioso que reprime os praticantes das religiões de matrizes africanas.

“Olha aqui seu sujeito, vá agora estudar para poder se libertar. O candomblé é sagrado, grande matriarcado, que pariu o meu Brasil”, diz o refrão da música.

O candomblé é sagrado assim como umbanda, catimbó, cabula e as crenças que têm como referência a cultura e a religiosidade trazidas para o Brasil pelos africanos durante mais de 350 anos de tráfico transatlântico. Entre os séculos 16 e 19, cerca de 5 milhões de africanos escravizados desembarcaram no país. Saiba mais: A intolerância contra as religiões de matrizes africanas 

Segundo o Censo de 2010, o Brasil tinha, naquele ano, cerca de 1,2 milhão de praticantes (autodeclarados) dessas religiões. Cabe lembrar que este número está distante da realidade, já que muitos adeptos, por várias razões, não se identificam como candomblecistas ou praticantes de outras religiões de matrizes africanas.

Foto de Roger Cipó – Exposição AFETO

Mesmo garantidas pela Constituição de 1.988, a liberdade religiosa e a liberdade de culto não são uma realidade para todas as religiões no Brasil. Nos últimos anos, houve um crescimento significativo dos casos de intolerância religiosa no país.

Segundo dados do Relatório sobre os casos de Intolerância Religiosa no Brasil, dos 1.014 casos registrados entre abril de 2012 a agosto de 2015 pelo Centro de Promoção da Liberdade Religiosa & Direitos Humanos (CEPLIR), 71% dos casos eram contra adeptos das religiões afro-brasileiras; 8% dos casos contra evangélicos; 4% contra católicos; 4% contra judeus, por exemplo. Informações do Disque 100 indicam que, em 2018, foram feitas 213 denúncias de ataques às religiões de matrizes africanas, o que representa um aumento de 47% em relação ao ano anterior.

Foto de Roger Cipó

“Esse comportamento é algo muito grave, que precisamos denunciar. As pessoas devem se envergonhar da manifestação de seus preconceitos e serem punidas por suas agressões”, desabafou.

Para Rafael, a arte deve ser usada para estimular reflexões que levem as pessoas à convivência com mais harmonia, mais amor. Ele lembra que, em sua primeira banda, a Diamba, em 1.996, suas canções em reggae já faziam essa ponte com a espiritualidade, com o respeito à natureza, à educação da sociedade.

“A intolerância religiosa é uma forma de ódio, de energia ruim, e a música, para mim, é uma ferramenta de transformação espiritual, de evolução. Eu acredito que o preconceito e tantos sentimentos hostis possam ser combatidos, contestados a partir dela. É como eu vejo a música em mim”.

Veja mais o trabalho de Rafael Pondé em seu site e em seu canal no Youtube.


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