Sobre o terror nos oceanos e a procura por conforto, por Calido Mango

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Por Calido Mango, Por dentro da África

São Francisco do Conde – A ilha italiana de Lampedusa e a ilha de Kós, na Grécia, são as grandes marcas históricas e humanitárias diante da crise de imigração e refúgio na Europa. Antes de cruzarem o Mediterrâneo, elas fugiram do horror das guerras no Norte da África e Oriente Médio, ao serem atingidas por conflitos sangrentos, perseguições políticas, sociais e religiosas. Neste cenário, elas foram obrigadas a procurar conforto e liberdade para a reconstrução das suas vidas nos países europeus.

Milhares de pessoas se arriscam através de frágeis embarcações superlotadas, enfrentando fome e desnutrição; contudo, não parece fácil o que procuram na Europa. Recentemente, um migrante afegão foi abatido no dia 15 do corrente mês pela polícia de guarda fronteiriça, quando tentava entrar na Bulgária. Se fizermos uma retrospectiva à Conferência de Evian de 1938, antes da II Guerra Mundial, como disse um alto-comissário da ONU, Zeid Ra’ad Al Hussein, lembraremos da Solução Final de Adolf Hitler (quando milhões de pessoas morreram depois de os Estados Unidos e muitos países de Europa recusarem a receber muitos judeus)

As tragédias do Mediterrâneo a caminho da Europa

Verifica-se um aumento de 83% do número de refugiados em relação aos primeiros seis meses do ano 2014 de acordo o ACNUR (Alto Comissariado de Nações Unidas para Refugiados). No Mediterrâneo, morreram cerca de 1.308 pessoas só no mês de abril; outros 137.000 fizeram travessias nesse período; entre eles homens, mulheres e crianças provenientes do norte da África e Síria, palcos da guerra civil de muitos anos.

Outro estudo de OIM (Organização Internacional para as Migrações) afirma que, desde janeiro de 2014, cerca de 430.000 refugiados arriscam-se nas águas para alcançar a Europa; desse total há o considerável número de 2.800 refugiados que chegam mortos ou desaparem; quase 310.000 deles chegaram à Grécia e 121.000 à Itália.

É muito comum assistir em quase toda a mídia mundial, nos seus destaques informativos, a situação de fluxo migratório nos oceanos e no solo europeu. As fronteiras de alguns países, como Hungria, foram fechadas várias vezes; outros países puseram cercas com arames farpados, além de canhões de água e balas de borracha. A famosa imagem do sírio Osama Abdul Mohsen, rasteirado pela cinegrafista húngara Petra Lazlo, ainda com o filho ao colo, são atos de desigualdade com os imigrantes. Outro exemplo é o caso do menino sírio Ayslan Kurdi de três anos, que morreu afogado numa praia da Turquia. A imagem comoveu o mundo.

Como é óbvio que existe influência política dos países europeus e dos Estados Unidos nos impasses políticos em outros países (Líbia, Síria e Sudão, por exemplo), devido à pressão para mudanças de seus sistemas políticos, como aconteceu na Líbia, que culminou na queda e morte de Muammar al-Gaddafi.

As declarações polêmicas sobre a presença dos refugiados

Não é muito difícil compreender as ideias políticas e raciais fortemente contraditórias das leis que regem as normas dos direitos humanos ou dos direitos dos refugiados; de acordo com declaração de Al Hussein à agência Reuters (Acesso em 14 out. 2015). O caso do Eurotunel de Calais no norte da França, através do qual os imigrantes tentaram entrar no Reino Unido, motivou o primeiro ministro britânico David Cameron a considerar aquilo como uma “praga”.

Na sequência disso, o Secretário dos Assuntos Internacionais Britânico, Philip Hammond, afirmou publicamente que a chegada de muitos migrantes africanos iria colocar em causa o “padrão de vida” europeu. As declarações discriminatórias estendem-se até as personalidades públicas da sociedade britânica, como a colunista e celebridade Katie Hopkins e Teresa May, secretária do interior, que definiu os refugiados de forma conjunta como “baratas”, e continuaram ainda a afirmar que a presença dos mesmos fará com que seja “impossível a formação de uma sociedade coesa” na Europa.

Essas palavras não deveriam ser proferidas em nenhuma circunstância por quaisquer pessoas, quanto mais as que estão ligados ao Estado. Pelo contrário, deveriam utilizar os seus poderes políticos e sociais para mobilizar o resto das pessoas a se solidarizarem com os que precisam de ajuda, fazer respeitar os direitos humanos e fazer cumprir o Estatuto de Refugiados das Nações Unidas.

Os esforços políticos virados ao acolhimento dos migrantes e refugiados

Apesar de existir declarações não favoráveis à questão dos refugiados, no dia 13 de maio passado, a Comissão Europeia propõe a introdução de cotas para alocar os refugiados que chegaram em massa nos países europeus, assim aumentando a migração legal, algo que despertou a hostilidade da maioria dos países membros da UE.

Mesmo com enormes dificuldades, o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, chegou a instar os membros da UE a acolher 120.000 refugiados. Só a Turquia, sendo a principal entrada dos refugiados sírios na Europa, recebeu quase dois milhões de sírios desde o início de conflito em 2011 (disponível em www.bbc.com/portugues Acesso em 16 out. 2015); nos restantes países europeus os refugiados estão distribuídos em grande número.

A principal líder europeia e mentora do acolhimento dos refugiados, a chanceler alemã Angela Merkel, convocou a comunidade europeia a aceitar os refugiados e prestar ajuda a eles; houve reação contrária na Hungria, que chegou a fechar a sua fronteira com a Sérvia. Áustria e Eslováquia, entre outros países, introduziram controles

Realmente, este problema deveria ser preocupação de todos os países membros da UE. As leis que tratam dos direitos humanos não devem ser respeitadas só no papel. A tarefa de atender as pessoas que viram os seus tetos destruídos pelas guerras deveria ser algo prioritário de todas as nações. Espero que um dia os corações dos seres humanos sejam compassivos uns com os outros e, acima dos interesses políticos, procurem valorizar a vida humana.

 

Por Calido Mango, estudante de Ciências Humanas na UNILAB – Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Federal no Brasil)