Angola em crônica: O estado trágico do Estado

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Angola - Reprodução Africanews
Angola – Reprodução Africanews

Fernando Guelengue, Por dentro da África

Luanda – A exploração de criança é um mal que assola milhares de jovens das zonas urbanas e periféricas de todas as cidades de Angola. A pobreza leva crianças a serem cada vez mais exploradas para apoiar a família.

O baixo rendimento escolar das crianças e dos próprios encarregados de educação, o desemprego e outros fatores como o analfabetismo empurram as famílias ao perigo, cenário que se agrava com a crise econômica e financeira que o país vive desde os finais de 2014.
O país vive um momento crônico em relação às mortes de crianças nos hospitais públicos e privados nos últimos tempos. O cenário é amedrontador porque até as instituições públicas e privadas realizam campanhas para ajudar o hospital pediátrico, onde falta até mesmo pequenos materiais para o tratamento das crianças.
Se por um lado a falta de assistência à educação constitui um crime do Estado, a não disponibilização de meios adequados para que o sistema de saúde funcione com exatidão também não deixa de se transformar numa exploração por parte do Estado.
Os menores são as principais vítimas deste processo que pode igualmente ser visto como pura incompetência e falta de profissionalismo do Estado. Muitas crianças que seriam a força deste país já não fazem parte do mundo dos vivos porque faltou uma seringa ou um paracetamol no hospital, ou os seus pais não tiveram acesso aos recursos financeiros para acudir à tempo a enfermidade do filho. Hoje, pior que na era do colono português, os hospitais chegam a ser mais comerciais do que humanistas, se preocupam mais com os lucros e menos com a vida.
Certo dia, para dar mais sentido a essa conversa, deparei-me com uma jovem que terminou recentemente o curso de Medicina numa das instituições de ensino superior do país. “Eu não ligo para essa coisa de salvar vidas porque não sou eu quem vai fazer o país mudar. Despacho rápido o meu trabalho e vou às minhas festas para aliviar o sofrimento de ver muita gente a morrer”, frisou a jovem que aparentava ter uns 30 anos de idade.
Assim, quem explora quem? A escola ou o Estado por meio de ofertas de canais de educação fracos e alienados que não ajudam os nossos filhos a se transformarem em adultos menos sensíveis até mesmo à vida?
Foi com bastante tristeza que tomei conhecimento que crianças que, além de estarem fora do sistema de ensino porque os pais não possuem empregos para garantir o sustento da família, têm de percorrer à práticas de jogos de batota de cartas para conseguir dinheiro para se alimentar. Este episódio representa um atentado à família que, cada um de nós, pagará num futuro próximo. Cada um de nós deve estar consciente da sua responsabilidade perante o mundo.
Outro cenário lamentável que tomei nota com muita preocupação é o fato dos jovens que entraram para a história do país e do mundo, por meio de uma detenção arbitrária se encontrarem privados de liberdade num processo que a sociedade encara como sem pernas para andar.

CAMPANHA PELA LIBERTAÇÃO DOS ATIVISTAS ANGOLANOSMuitos deles (o caso dos 15+2), senão mesmo a maioria, possuem filhos menores de 5 anos de idade, que estão a passar situações traumáticas com a ausência daqueles que antes garantiam o sustento da família e da harmonia no lar.

 

O Estado, usando as ferramentas de proteção dos direitos dos menores que a Constituição prevê, deveria assegurar uma assistência social para o equilíbrio de uma saúde mental para essas crianças. Olhemos mais para a inclusão da família por meio de um perdão nacional por tudo que não tranquiliza os espíritos daqueles que morreram pela justiça e bem-estar desta terra.

1 COMMENT

  1. Curtir não é bem o termo, é antes uma grande tristeza! Acreditei que, com a independência, tudo iria melhorar pelo menos um pouco. O que se verifica é que a miséria é maior porque os “poderosos” enchem os “quartos do ti Patinhas” enquanto a população, em especial as crianças, continuam a procurar nas lixeiras a sua subsistência!
    E quanto à liberdade estamos conversados, sabemos o que se passa!