África em Cena: “Coloque-se no seu lugar”

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Omar Sy – Divulgação

Por Luciana Trinkel, Por dentro da África

São Paulo – Foi o título que me chamou a atenção: Samba. É o ritmo mais popular do Brasil e é canção de ninar no Rio de Janeiro, onde eu nasci. Mas é também um nome. E é o nome do cara do filme. Lembram daquele ator negro, incrível, que fez o cuidador no filme Intocáveis? Ele. Omar Sy. Em nova parceria com Olivier Nakache e Eric Toledano, que também assinam texto e direção.

As imagens de uma festa abrem o longa. Brancos se divertem, brindam bodas de amor e as cenas invadem a cozinha. Seguem até o final do corredor, vasculham o canto à esquerda, descem um degrau imundo e entram num lugar qualquer. Acham o vão de um imóvel deslumbrante e o escombro de um sonho distante. Lá está ele, lavando a louça e as digitais da elite parisiense. Pronto. Sinopse desenhada.

Omar Sy – Divulgação

O filme é mediano considerando a fotografia, a originalidade e a edição. Mas só a delicadeza e a insistência em apontar, mais uma vez, os refletores para dramas tão relevantes, vale o aplauso. O fato é que esse abismo cinza sempre vai inspirar roteiros. Mas, dessa vez, a abordagem não traz o branco que maltrata o negro ou a pobreza iminente, fruto do poder indômito. O tema é a imigração.

Samba é um senegalês que vive em Paris há anos e não é legalizado. Vai preso. E te prende na história. Ele tem que dançar conforme a música. E haja ritmo pra tanto Samba. E haja perrengue pra tanto barulho. Mas ele não é o único. Coadjuvantes, mesmo aqueles com situação regular no país, sofrem opressões paralelas e vivem a imobilidade de um mundo materialista, ignorante e egoísta. Não se trata apenas da distância entre culturas, povos e ideais. O filme fala da distância de si mesmo, em sessões de submissão diária, uso de medicamentos, tensão, pressão, medo e vazio. Também fala de amor. E das surpresas que ninguém se prepara.

Omar Sy and Charlotte Gainsbourg in Samba.
Omar Sy and Charlotte Gainsbourg in Samba.

A mocinha, que já apareceu como ninfomaníaca em outro set, interpreta uma advogada surtada que precisa de equilíbrio pra viver, mas só consegue se estabilizar com a vulnerabilidade do desejo sufocado. Delícia de contradição. E com a licença da rima, em síntese, sim, ela perde a linha com o negão.

Omar Sy – Divulgação

Atenção também para a cena da limpeza nos vidros de um prédio. Sensacional. Não há nada mais importante do que viver, ainda que seja uma vida de cinco minutos. Até a música do Brasil ganha espaço; um andaime vira “Palco”, literalmente, de Gilberto Gil. A amizade e o querer bem de quem está no mesmo balaio também centralizam a obra, mas é a simplicidade de um sonho que comove.

Ter um lugar. Saber qual é seu lugar. Sentir-se em casa, seja essa casa um país ou um coração. Qualquer lugar onde você esteja autorizado a entrar e seja estimulado a permanecer. Coloque-se lá. Coloque-se no seu lugar.

O protagonista poderia ser árabe, canadense, haitiano ou timorense, uma vez que o filme sugere problemas sérios e uma bagunça na imigração francesa. Mas ele é senegalês. E só ele e mais um africano são presos. Uma mensagem sutil ou escancarada do que ainda existe e persiste: a inquestionável luta desse continente que sofre em busca de uma vida digna e de um olhar isento de segregação.

Omar Sy – Divulgação

No fim das contas, o Samba do filme também é o meu samba. Senegal é o berço da percussão e a batucada de cá, de Chico, Cartola, Mangueira e Noel, não seria a mesma sem os instrumentos de lá. A sensação que eu tenho é que já virou clichê falar de amor e de união. Mas, realmente, não conheço nada mais importante. Nada. São a base desse lugar que todos querem encontrar para lá plantar cor, poesia, vida e música. Especialmente o samba. Principalmente os Sambas. Chega de silêncio.

Luciana Trinkel é jornalista e cronista brasileira

 


1 COMMENT

  1. “Ter um lugar. Saber qual é o seu lugar”… E só que tem morada nas letras, paixão pela escrita e sensibilidade para ler o mundo pode produzir um texto tão simples e tão belo sobre um tema de tamanha gravidade que carece do nosso olhar e da nossa ação. Parabéns, Luciana Trinkell!