Coluna África em Verso: “As águas do tempo”, por Hirondina Joshua

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Foto: Gorongosa.org

As águas do Tempo

Hirondina Joshua

Chegamos cedo ao Parque Nacional da Gorongosa.

Queríamos anteceder o Sol que naquele dia se fazia primeiro.

Eu definiria a água deste lugar como a água que já tivesse percorrido o Universo,

mas sem que ela própria o tivesse feito.

O olhar me leva à posição de uma tal capacidade metafísica de ver e compreender

a maravilhosa paisagem do conhecimento absoluto:

entender a linguagem da água, o corpo e o verbo da sua molécula.

Sentei no horizonte como se Ser do horizonte fosse, estendendo distâncias à Vida.

A água me significou tudo.

Era o planeta todo em estado de transcendência,

mundos em estado de (di) fusão.

Aconteci.

Todo o instante que ali me fiz,

inventou-se em mim a Terra:

e crescia dentro e fundo e imaculado na razão mística da existência.

Olhava o azul em todos os seus tons alguns

até que se confundiam com o verde, os sons eram música sem pauta.

Rítmicas e de uma tal perfeição que movia os ouvidos da emoção.

Enquanto pensava alto, ouvia o som da água, relaxando a carne interior.

─ Vamos para outra direção…

há mais coisas fascinantes do outro lado.

O meu colega já vinha a incomodar com aquele ar grave e irritado.

Eu não podia crer no que via, nem muito menos deixar de o fazer.

As águas azuis transcendiam o verde que prezo, os montes, e todo o resto…

Era a água a falar, eram os sons a dialogar, eu não via mais nada diante de mim

senão o Ser azulado em que transformava.

─ Vou mesmo embora. Estás a ouvir-me?

Aquela voz irritante voava no azul das águas,

fazia-se paz em toda a extensão da palavra.

De olhos fitos no azul, retornei-me mar, rio, lago…

esculpindo a beleza interior por via exterior.

─ A água é certamente a coisa mais bela que Deus criou.

Pensei com medo e receio mas eu gosto de sentir esta verdade que traço.

Ainda que de forma escorregadia.

─ Phiu phiu phiu phiu…

ouvi um animal ao alto, parecia uma garça eu não sei diferenciar o canto das aves…

distraída vi-me sozinha naquele espaço.

Já o meu colega tinha ido embora,

certamente à procura de uma outra maravilha naquele gigantesco Parque.

Sacudi as calças; percorri o tempo com a mesma velocidade

com que se percorre a luz. E pela primeira vez na vida; corri…

Hirondina Joshua é poetisa moçambicana colaboradora do Por dentro da África