Resenha de “O intelectual negro e as suas responsabilidades”

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Por João N’gola Trindade, Por dentro da África

Artigo analisa o discurso de Viriato da Cruz, publicado originalmente em língua francesa na Revista Presence Africaine e traduzido para o português por Edmundo Rocha.

viriatoNo Congresso dos Escritores e Artistas Negros realizado na cidade de Roma, em 1959, Viriato da Cruz debruçou-se sobre “O Intelectual Negro e as suas responsabilidades”. Passado mais de meio século desde a ocorrência deste fato cultural, e num momento em que o Renascimento Cultural Angolano desperta a atenção, penso ser oportuno analisar o discurso proferido por “um intelectual angolano do séc. XX”

O discurso de Viriato da Cruz foi proferido no período histórico conhecido como o colonialismo português durante o qual a prática da assimilação impunha aos angolanos a rejeição e a aceitação, respectivamente, da cultura angolana e da portuguesa.

Consciente da “alienação mental”, por via da educação que promovia a cultura portuguesa, alguns jovens decidiram criar o movimento cultural denominado “Vamos Descobrir Angola”, pois esta, enquanto espaço socio-cultural era desconhecida por eles.

A conquista da independência de Gana (1957) e Guiné-Conacri (1958), e as ideias de Cheikh Anta Diop sobre a Unidade Cultural de África e o Futuro Cultural de África influenciaram Viriato da Cruz a refletir sobre as consequências da colonização enquanto sistema de negação de valores adquiridos no decorrer do tempo e num determinado espaço sociocultural.

Nesta ordem de ideias, a Diplomacia Cultural desenvolvida pelos nacionalistas angolanos incluía a denúncia da política colonial portuguesa levada a cabo pela Administração Colonial Portuguesa em Angola.

O autor chamava a atenção para alienação cultural através do ensino ministrado nas escolas que durante o período colonial limitava-se a reproduzir os conhecimentos produzidos no Ocidente.

Atualmente, a improdutividade em matéria de pesquisa científica é um assunto que, conforme já dissemos, deveria motivar os responsáveis das instituições de ensino superior a repensar o seu papel enquanto (i) espaço de debate e de produção de conhecimento como um produto cultural e de utilidade para a sociedade angolana, e (ii) do professor como intelectual comprometido com a formação de quadros competentes.

Isto porque a independência de um Estado tem repercussões no domínio da produção científica e cultural por meio da qual um País pode afirmar-se no mundo (BATSÎKAMA, 2013).

O desprezo pelas “línguas africanas” de que fala Viriato da Cruz, embora sejam lecionadas em algumas instituições do ensino superior, continua sendo um fato e ganha apoio nas declarações de uma estudante universitária (será a única?) desinteressada “em falar estas línguas”, e na tese insustentável sobre os constragimentos representados pelo multilinguismo para a Educação Financeira em Angola.

Neste sentido, achamos pertinente a afirmação do intelectual angolano segundo a qual o negro, ainda que independente, seria “sempre um assimilado” que deveria “adoptar [somente] os valores da civilização europeia”.

Atualmente, o ensino veiculado nas escolas suscita interrogações sobre o conhecimento que os estudantes possuem sobre, por exemplo, a Literatura Angolana. A questão colocada estende-se às outras áreas do conhecimento como o Direito Costumeiro cujo adiamento da sua institucionalização como cadeira nos cursos de Direito contradiz as recomendações do I Encontro Nacional Sobre Autoridade Tradicional em Angola. Nesta ordem de ideias, a proposta para a “institucionalização dos estudos angolanos” (FORTUNATO, 2010) ganha sentido e pelo que é nos parece nela o pensamento que norteou a criação do movimento Vamos Descobrir.

Na era da globalização a Redescoberta de Angola é um imperativo que visa ao angolano conhecer-se à si – uma atitude filosófica, de introspecção sobre a nossa “identidade cultural […] enraizada na nossa história e na do nossa continente” (SANTOS, 2007).

Contra a hegemonia cultural do ocidente

A “operação de enxerto da cultura ocidental” de que fala o poeta angolano é uma questão que anima o debate sobre o multiculturalismo e os conflitos, alegadamente, resultantes desse facto (HUNTINGTON, 1999) e da necessidade de preservação das nossas “identidades culturais” angolanas (BATSÎKAMA, 2013; SANTOS, 2007).

No âmbito das relações internacionais, na perspectiva da interculturalidade, e seguindo a linha do pensamento de Cheikh Anta Diop sobre a Unidade Cultural de África, o pensador angolano mostrou-se favorável a uma maior cooperação entre os Estados africanos, pois entendia que “as relações com as antigas metrópoles não podem ser mais proveitosas que aquelas que os diversos povos possam estabelecer entre si”.

O intercâmbio entre as universidades africanas deveria, em nossa humilde opinião, ontribuir para o reforço da “unidade”, agora “união” entre os africanos; permitiria a circulação do conhecimento endógeno, isto é, produzido em África pelos africanos sem, obviamente, evitarmos o diálogo com as universidades euro-americanas e asiáticas.

Nesta linha de pensamento, a difusão das línguas angolanas de origem africana (o que dizer do trabalho feito pela Aliança Francesa?) no dominio da Diplomacia Cultural seria um ato de afirmação e de dignificação da cultura angolana, em particular, e africana em geral. O seu dominio constitui hoje umas das exigências dos Estudos Africanos, no dominio da História de África preservada pela tradição oral que essencialmente é o uso da língua (TRINDADE, 2015).

Assim sendo, a ideia segundo a qual […] “nesse processo em fase constante de aceleração só poderão afirmar-se e manter a sua independência [cultural] aqueles países que definirem reportórios de acção e de representação, de língua e de cultura que permitam aos seus respectivos povos interagir com outros povos” (SANTOS, 2007) reforça o enunciado acima exposto.

A independência cultural pressupõe ruptura com o pensamento (colonial e neocolonial) que condenava o angolano à submissão perante o colonizador. Entretanto, o saudosismo pelo colonialismo ganha expressão na boca de um “assimilado” que acredita que teria sido “boss” se a revolução angolana não tivesse triunfado, havendo ainda quem fale da «boa colonização» que teria sido holandesa. “Estaríamos mais desenvolvidos se tivessémos sido colonizados pelos holandeses”, declara a diplomada em Relações Internacionais.

O visionário angolano tinha consciência do plano que teria sido concebido pelo poder colonial que através do “ensino” e da “cultura” pretendia “falsear a nossa personalidade, criar em nós próprios profundos reflexos que irão obrigar-nos, quando a hora da liberdade soar, [a adoptar] um comportamento de fidelidade em relação à Europa”.

Conclusão
No momento em que se fala do Renascimeno Cultural Angolano, em particular, e Africano, em geral, reflectir em torno da contribuição de Viriato da Cruz para a conquista da independência cultural e científica de Angola seria um acto de patriotismo e de justa homenagem a um intelectual comprometido com o desenvolvimento cultural de Angola.

A divulgação da sua obra literária coloca-lo-ia no lugar que lhe é devido na História da Literatura Angolana e na do nacionalismo moderno angolano.