Presidentes Africanos: Série resgata história e apresenta avanços e desafios para a África

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Presidentes Africanos - Divulgação - Cine Group Natalia da Luz, Por dentro da África

Rio – Há mais de 130 milhões de anos, Brasil e África foram separados por um movimento das placas tectônicas, que deu origem ao Oceano Atlântico e aumentou a distância que no século XVI seria reduzida pelo tráfico de escravos. Nesta aproximação forçada, o país recebeu mais de 4,8 milhões de africanos, que trouxeram seus costumes, cultura e riqueza imaterial que ajudaram a formar o Brasil, país com a maior concentração de afrodescendentes fora do continente africano. Mesmo considerando este elo, o Brasil ainda está em processo de descoberta da África, objetivo que move a série “Presidentes Africanos”, que, em 15 episódios, faz uma viagem didática pela história, economia, cultura e expectativas de 14 países africanos.

– Ainda há um déficit de informação monumental e muito preconceito em relação ao continente africano que, para muitos, é o lugar das guerras, massacres, problemas… Há muito mais do que isso. Não há uma África, há muitas Áfricas, e temos muito o que aprender sobre elas – diz, em entrevista ao Por dentro da África, Franklin Martins, que apresenta a série Presidentes Africanos com direção de Carlos Nascimbeni e edição executiva de Carlos Alberto Junior.

Entrevista com o presidente do Senegal - Presidentes Africanos - Divulgação - Cine Group

A curiosidade pela África é permanente na vida do jornalista. Por isso, ele estudou, leu e cruzou o Atlântico a caminho da descoberta desse continente que soma mais de um bilhão de habitantes. Enquanto esteve no cargo de ministro das Comunicações (2003-2007), ele foi a praticamente todos os encontros do governo brasileiro no continente africano. Essa proximidade favoreceu o seu encantamento e a certeza de que o Brasil precisava formar o seu próprio olhar sobre a África.

A África tem hoje 55 países (49 continentais e 6 insulares) de características, costumes, línguas e tradições múltiplas. Os requisitos para a escolha dos 14 apresentados na série foram: densidade demográfica, distribuição por área geográfica (Áfricas do Norte, Central, Ocidental, Oriental, Austral) e os elos com o Brasil, onde a lusofonia se apresenta nos tornando mais “irmãos”.

Entrevista com o presidente da Etiópia - Presidentes Africanos - Divulgação - Cine Group

– Nós poderíamos ter feito Marrocos, mas Marrocos não tem presidente… No Quênia, havia uma eleição nos meses seguintes. Então, fizemos alguns ajustes inserindo os países mais populosos como a Etiópia, Egito, Nigéria, África do Sul, República Democrática do Congo, incluindo também os países que forneceram escravos para o Brasil como Angola e Moçambique…

A série produzida pela Cine Group que leva “Presidentes” no nome resgata a história das antigas civilizações, a escravidão e o colonialismo, enquanto retrata fragilidades e avanços da África contemporânea. Isso porque, ao falarmos do passado, é possível desmitificar a ideia de que não houve “história” e grandes civilizações no continente africano, uma absoluta falta de informação que ignora os Impérios de Gana, Mali e Songai, os Reinos do Congo e Benin e o Grande Zimbábue.

– Muitas pessoas acham que os europeus sempre estiveram por lá, mas eles foram para a África só no final do século XIX, com as metralhadoras para desbravarem o interior. Antes disso, eles tinham apenas alguns enclaves: a França no Senegal, Portugal na costa de Angola e Moçambique e Holanda no Cabo (África do Sul). O colonialismo tem, no geral, 100 anos na África – ressalta o jornalista que estará em São Paulo nesta terça para exibição e debate sobre a série.

O colonialismo e a descolonização

O processo de descolonização da África pela Europa começou em 1910, com a África do Sul, que pertencia ao Reino Unido, e terminou em 1980, com o Zimbábue, que também era colônia britânica. A maioria dos países africanos conquistou a independência nas décadas de 50 e 60. Em alguns casos, esse processo foi pacífico como no Benin, mas, em muitos, a independência só foi realizada por meio da guerra como na Argélia (1962) e nas colônias portuguesas Angola (1975), Cabo Verde (1975), Moçambique (1975) e Guiné Bissau (1973).

Franklin Martins e Mônica Monteiro, presidente da Cine Group, entre os Massai na Tanzânia - Cine Group – Após a sequência de independência, o continente passou por um período muito delicado, com disputas entre facções dentro de diferentes países. A África percorreu as chamadas “décadas perdidas” (70 e 80), até encontrar, nos anos 90, um processo muito positivo de democratização. As lideranças africanas têm consciência de que depende delas construir um futuro melhor para o continente – contou o ex-ministro, ressaltando que, apenas em 2012, houve 17 eleições democráticas, prova de que o fortalecimento da democracia é uma realidade.

Veja mais: “Eu vejo um futuro brilhante para a África, mas os africanos precisam moldá-lo”

Apesar de o voto não ser obrigatório, grande parte da população faz questão de comparecer às urnas. Franklin conta que a média de participação dos africanos é de 80%. Isso porque há um grande entusiasmo e desejo pela democracia.

– É claro que há denúncias de fraudes, violações em alguns lugares, mas, nestes casos, as próprias instituições africanas se organizam para combater seus percalços.

Busca pela Paz na RDC

Missão na RDC - Foto: ONU Em um dos episódios, Franklin entrevista Joseph Kabila, presidente da República Democrática do Congo, país que vivencia um conflito atroz no coração da África. Nesse território, milícias, rebeldes, empresas de exploração de minérios e governos se encontram em uma guerra que fere a identidade e a dignidade dos africanos.

– Kabila assumiu o poder em 2001, aos 30 anos de idade, logo após o assassinato do seu pai Laurent Desiré Kabila. Em 2006, ele foi eleito nas primeiras eleições democráticas do país em 40 anos. Embora exista muita discussão sobre a legitimidade do pleito e algumas organizações internacionais acreditem que as eleições foram fraudulentas, os resultados foram aceitos – contou Franklin, após a gravação no país de cerca de 70 milhões de habitantes, a quarta maior população da África.

A situação de confrontos na República Democrática do Congo não é recente. A nação rica em minérios e que faz fronteira com nove países foi cenário de um dos modelos mais cruéis de colonização. Usado como propriedade deLeopoldo II (o segundo rei belga), o país fornecia a borracha a partir do trabalho de escravos africanos que, como castigo por não alcançarem a cota estipulada pelo rei, tinham mãos e pés mutilados.

Campanha pela conscientização do uso do Coltan – Há um problema seríssimo de violência na RDC. Foi uma região devastada pela escravidão, de onde vieram muitos escravos, mais de um milhão. É um dos países mais ricos do ponto de vista geológico. Tem um potencial de energia espetacular (120 mil megawatts) e de terras agricultáveis, mas um Estado fraco, muito fraco que não consegue promover a paz… – comenta o apresentador da série, lembrando que tamanha riqueza atrai tropas e milícias provenientes de outros países como Uganda e Ruanda.

É da RDC que sai grande parte do coltan, matéria-prima usada pela indústria de eletrônicos. A ONU apresenta estimativas desconcertantes como a de que já morreram milhões de pessoas na disputa pelo “ouro azul”, além do impressionante faturamento de mais de US$250 milhões que teve o Exército de Ruanda no comércio do mineral.

– A busca pelo coltan contribui massivamente para essa instabilidade. Se olharmos nas estatísticas veremos que Uganda e Ruanda aparecem como produtores do minério, o que se justifica pelo contrabando. Mas, na verdade, todo o coltan da região é proveniente da RDC. Como é uma zona de guerra, há muitos registros de violações contra crianças e mulheres, o que é deplorável. A ONU não pode se limitar a desapartar, mas a ter uma posição mais efetiva. O que a RDC precisa é de um Estado forte – acredita o jornalista.

Apesar da tensão na RDC que já ultrapassa os 20 anos e já provocou a morte de mais de 4 milhões de pessoas, o cenário de paz predomina no continente africano. Segundo Franklin, de um bilhão e cem milhões de habitantes, pode-se dizer que 100 milhões estariam em zona de guerra como na RDC, Burundi, Ruanda e algumas regiões do Sahel (situada entre o deserto do Saara e as terras mais férteis a sul: Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger, a parte da Nigéria, Chade, Sudão, Etiópia, Eritréia, Djibouti e a Somália).

O retrocesso após a Primavera

Protestos no Egito - Foto: ONU

Após duas tentativas frustradas de um encontro no Egito com Mohamed Morsi, o presidente eleito democraticamente pelos egípcios, Franklin pensou em fazer novos ajustes para a série (exibida pela Discovery Civilization e BAND) deixando o país de fora. Ele já havia reunido imagens, informações, mas ainda faltava a entrevista com Mursi, eleito após o fim da ditadura de 30 anos de Hosni Mubarak. Em visita ao Brasil no mês de maio deste ano, foi possível uma conversa mais longa a fim de avaliar os avanços da Primavera Árabe.

Veja mais: “A Primavera Árabe precisava acontecer”

– A questão do Egito é que existe uma maioria muçulmana esmagadora dentro de um pais mediterrâneo. Eles têm uma “dupla personalidade”. A maioria do povo votou no Morsi, mas existe uma elite laica que não aceitou os resultados. O problema foi que o Egito não conseguiu construir uma identidade de democracia, voltou ao que eles chamam de “big state”, quando as Forças Armadas, o judiciário e uma parte do empresariado tomam conta do país.

Mohamed Morsi na ONU - Foto: ONU Franklin acredita que parte da população mantém os olhos para a Europa. Ela é egípcia, mas não compartilha os mesmos valores enraizados na Irmandade Muçulmana. Talvez por isso, o partido tenha encontrado tamanha dificuldade em se estabelecer. A instauração de um governo religioso defendido com fundamentalismo por alguns membros da “Irmandade” foi um dos motivos para o golpe que, em julho, tirou Morsi do poder, prendeu membros do partido e provocou milhares de mortes nos embates entre grupos pró e contra o novo governo.

Veja mais: O futuro da democracia no Egito

– Não basta fazer a primavera democrática, tem que apostar na democracia, tem que fazer o jogo democrático quando se perde também. O que aconteceu no Egito é um retrocesso. O Egito tinha uma necessidade por democracia que o levou a fazer a primavera, mas não teve maturidade para conduzir…

Relações com o Brasil

Arte com os mapas do Brasil e África O continente que cresce em média 5% ao ano amplia também o seu volume de negócios com países que não fizeram parte do seu passado de colonização. As trocas comerciais entre África e países como Brasil, Índia, China, Coréia do Sul, Japão e Turquia estão em ascensão, assim como o comércio entre países do próprio continente.

Especificamente com o Brasil, nos últimos 10 anos, houve um aumento de 416% no intercâmbio comercial, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Nas contas do ministério, as vendas do Brasil para o continente africano cresceram de US$ 2,9 bilhões para US$ 12,2 bilhões de 2003 a 2012.

Ryukoku UniversityDesde 2003, o Brasil praticamente dobrou seus postos no continente. Ao mesmo tempo, Brasília observou um crescimento no número de representações africanas na capital federal. De acordo com o levantamento do Itamaraty, com 37 embaixadas, o Brasil é o oitavo país com o maior número de postos instalados na África – o quinto, se excluídos os países do próprio continente. Desse total, 20 foram criadas desde 2003.

– Eu acho que estamos vivendo um movimento de intensificação da relação entre Brasil e África. O negócios estão crescendo, o número de embaixadas, intercâmbios culturais… Existe uma demanda grande por conta da população afrodescendente. Nesse sentido, a série estimula a descoberta e a vontade do público em receber influências e informação sobre a África.

Por dentro da África

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  1. Tem muita ignorância no Brasil. As pessoas precisam estudar mais a história da África. Sabem da Europa, dos Estados Unidos, mas não sabem coisa alguma sobre a África

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