África do Sul: Conheça Orania, a cidade dos afrikaners

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Orania - Foto: Divulgação

Natalia da Luz, Por dentro da África

Johanesburgo – Há quase 20 anos, a África do Sul baniu o apartheid e elegeu Nelson Mandela (em abril de 1994) para presidir o país, de histórico segregacionista. A partir daí, a cor da pele não poderia mais limitar fronteiras para os cidadãos sul-africanos. Sob a justificativa de preservar a cultura, grupos afrikaners ou africanêres (sul-africanos descendentes de alemães, franceses e, principalmente, holandeses) preferiram se manter isolados em “cidades” como Orania, região independente que tem a própria bandeira e sistemas econômico, político e, especialmente, filosófico. Mestiços, brancos, indianos e negros não têm permissão para viver na cidade que os afrikaners ergueram.

ORA - Moeda de Orania
ORA – Moeda de Orania

– Muitos moradores vieram para cá por compartilharem a nossa filosofia de preservar a cultura afrikaner e, especialmente, porque perderam seus empregos com o fim do apartheid – disse John Strydom, porta-voz da cidade, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África. Na comunidade em expansão, vivem aproximadamente, 1000 pessoas, de maioria calvinista e adepta ao partido Freedom Front. A maioria também passa tardes de domingo fazendo churrasco e jogando rugbi no tempo livre, costumes do universo de um típico afrikaner.

No passado, os negros enterraram o dompas – passaporte que eles usavam para justificar a presença em áreas aonde só os brancos poderiam circular. Apesar de ser uma versão que lembra a essência segregacionista do antigo regime, o próprio presidente do país Jacob Zuma já anunciou publicamente aprovação do modelo de Orania. A independência da cidade, segundo o discurso dele, é admirável. De acordo com John, ela existe dentro dos termos do artigo 235 da Constituição sul-africana, que permite que Orania tenha autoridade para prover seus serviços e pagar seus impostos locais.

Mapa de Orania - Divulgação

Em afrikâans (língua dos afrikaners), Orania é chamada de “Vluytjekraal”, propriedade comprada e fundada pelo filho de Hendrik Verwoerd (primeiro-ministro da África do Sul de 1958 a 1966), defensor dos Estados-Nação (regiões independentes que poderiam reivindicar e adotar seus próprios métodos políticos). E assim acontece em Orania, onde seus moradores fazem todo tipo de serviço, desde a limpeza das ruas até o controle da moeda. A cidade tem a própria moeda, chamada ORA, lançada em 2004 e que se mantém na mesma paridade com relação ao rand (moeda sul-africana).

A cidade, localizada na parte central do país, não é a única a preservar a cultura dos afrikaners. John diz que troca ideias com outras “comunidades intencionais”, que se influenciam mutuamente como Kleinfontein, localizada próximo a Pretória. Fora da África do Sul, o contato é com South Tyrol, ilha autônoma no norte da Itália, criada em 1948.

História de Orania

orania 2Para entender o motivo da construção de Orania, vale relembrar o tempo em que a África do Sul mantinha um dos maiores padrões de vida do mundo para os brancos. De 1948 a 1994, enquanto os baas (chefe em afrikaans) esbanjavam saúde, educação e Mercedes, os kaffir (forma depreciativa como os negros eram chamados pelos afrikaners) viviam na escuridão das townships, sem eletricidade, saneamento, dignidade.

A subida de Nelson Mandela ao poder, em 1994, devolveu a “cidadania” aos negros. Aos poucos, os brancos e especialmente os afrikaners foram perdendo espaço no governo e na sociedade. Viram sua cultura, antes hegemônica (apesar de sua população ser inferior a de negros), ser reduzida no país, que passou a ser muito mais dos negros e muito menos deles.

– Nós não prestamos muita atenção na política: há muito pouco da política sul-africana para o afrikaner… Minorias não são bem tratadas na África do Sul, diferente da Europa, por exemplo.

Para circular por Orania, não é necessário um convite especial, mas, obrigatoriamente, o visitante passa por uma entrevista, na qual precisa detalhar as suas razões, nos lembra o porta-voz.

– Nós recebemos muitos turistas (é uma das nossas principais atividades), conversamos sobre a comunidade e orientamos sobre as atividades, lembrando que segurança é o ponto principal. Não existe crime por aqui. Nós não temos uma estação de polícia especial, mas temos muitos vizinhos que tomam conta – destaca John, orgulhoso sobre o oásis que ele representa em meio a um dos países mais violentos do mundo.

Orania - Foto: Divulgação

Diferentemente do que se viu durante toda a história da África do Sul, em Orania não há negros servindo os brancos. Apesar da auto-suficiência, o poder nessa “cidade” não é distribuído de forma igualitária. Os habitantes são ricos e pobres, o que, obviamente, gera tensão pelo desejo à mobilidade em qualquer lugar do mundo.

– Na África do Sul, há muitas subdivisões raciais, o que aumenta o conflito. Mas se você estiver em um ambiente que reúna pessoas de uma mesma cultura, é muito mais fácil de administrar essa relação – opina John, lembrando que, onde ele vive, pobres podem se tornar ricos! Por que não? (Ele pergunta).

Sobre a carência de interação com outras culturas, ele acredita que Orania possa ser um grande exemplo para resolver a desigualdade com a população negra da África do Sul e uma boa saída para encontrar um futuro mais justo…

– O sistema capitalista fez isso em outras partes do mundo. Eu acho que o “localismo” e as pequenas comunidades são as melhores alternativas.

Além dos limites de Orania

Orania - Foto: Divulgação

A gastronomia de Orania não é muito diferente da sul-africana. Alguns gostam mais de fast food, outros preferem cozinhar alimentos mais saudáveis e consumir produtos que eles produzem em grande escala, como nozes, azeitonas, frutas e legumes.

– Saímos da cidade para comprar carros, eletrodomésticos e para participar de cursos e reuniões em departamentos governamentais, quando necessário. Também fazemos passeios e compras. Apenas um ou dois habitantes trabalham fora de Orania. Muitos outros, pela internet, para empresas externas. Há bastante trabalho, mas ele é, principalmente, de natureza primária. Temos muito pouca necessidade de gerentes, por exemplo. Já os principais pontos de crescimento são: agricultura, turismo, educação e indústria da construção. Temos praticamente desemprego zero – comemora John. (No país, o percentual beira os 26%, segundo o governo e 40%, segundo organizações não-governamentais).

Orania - Foto: Divulgação

O porta-voz conta que poucos moradores enviam seus filhos para as universidades ou instituições externas. Em Orania, há duas escolas com sistemas diferentes da pré-escola ao ensino médio. Inglês é a segunda língua em todas as escolas da África do Sul e também ensinada na cidade.

– Nossas escolas (creio eu) são de padrão melhor do que a média de escolas sul-africanas e focadas em nossa própria cultura e amor à língua mãe. Uma das nossas escolas usam sistema de auto-aprendizagem considerado muito avançado.

Orania - Foto: Divulgação
Orania – Foto: Divulgação

Como diz John, talvez seja mais fácil controlar a tensão quando todos do grupo têm os mesmos costumes, o mesmo pensamento. Por outro lado, a interação seria absolutamente descartada.

– O apartheid era um sistema de segregação social. Orania foi construída sobre uma atitude bem mais positiva e criada para preservar a nossa cultura. O racismo acontece quando pessoas de um grupo consideram os outros como inferior simplesmente com base na cor da pele e filiação. Esse não é o nosso foco. Isso não faz parte da nossa filosofia – completou.

Por dentro da África


22 COMMENTS

  1. Liberdade näo é isso, deixemos os Oranianos em Paz!!!! Sou negro (mulato) filho de branco e negra, mas hoje em dia na África do Sul, ao abrigo do Black Enpowerment é muito difícil para os Afrikaners e outros grupos conseguirem emprego na empresas públicas onde a prioridade nos recrutamentos para os empregos tem a seguinte ordem: primeiro: Negro; Segundo: Mestiço e Indianos/asiáticos; Terceiro: Afrikaners e demais brancos e por último os estrangeiros. Em Moçambique ser branco, mulato ou indiano também é difícil conseguir emprego nas grandes empresas públicas melhor adoptar apelido Cossa, Guebuza et al. Pois admiro a sua postura, reparem eles näo säo de nenhum modo europeus a suas origens remontam de 1652 com a chegada Jan Van Riebek e de lá para cá cortaram as suas raízes com a Europa e criaram a sua própria identidade e sofreram também com os britânicos. Se esse for o modelo de crescimento que assim seja.

    • O comentario do senhor Joaquim esta corretíssimo pois trabalhei uns tempos com engenheiros sul africanos de origens diversas e para o branco afrikaner ficou mais dificil o emprego principalmente publico e historicamente eles perderam seus laços com a europa

  2. O outro lá em cima disse que o mundo é globalizado,(livre)e que nascemos para conviver uns com os outros.
    A outra diz que é inaceitável brancos viverem isolados nas terras dos negros.
    1-O mundo agora está globalizado podemos viver onde queremos (mas isso que essa pessoa falou só serve para os “negros”)

    2-É inaceitável brancos vivendos em.comunidades isoladas nas terras dos negros,no caso a África.
    (Mas negros viverem,ou melhor migrarem aos bolos pra Europa onde lá as minorias são bem assistidas,eles podem…tudo ok)
    (Negros tem bairros inteiros nos EUA tudo ok pode)
    Negros migrando para viver ao redor do globo também pode,negros se estabelecerem em outros países,demonstrarem orgulho e manifestar sua cultura,pode também,países originalmente brancos,colocarem “Miss” e “modelos” negras,apesar do país ser originalmente de brancos,para reapresentar e dar espaços as tais “minorias” negras que ali vivem,por exemplo como acontece na Suécia,Noruega,Irlanda,Canadá…também pode)
    Ou seja a hipocrisia e o racismo do lado negra reina,mas eles não adimitem isso,porque o ódio não os permite.Quer dizer que existe 2 pesos e 2 medidas senhores? É assim que vocês buscam igualdade? Tem algo errado,vocês só querem ser beneficiados,ouvidos mas não querem que os direitos sejam exercidos de forma igualitária para os 2 lados? Ninguém merece ser punido à vida todo por causa de um passado,um passado que você nem estava lá,sendo assim,toda a família de um assassino por exemplo teria que ser punida pelo o crime dele e suas futuras gerações também seria punidas do mesmo jeito,vocês percebem que não há logíca nisso? Wake up! Parem de serem rancorosos.

  3. Acho isso um atraso , um retrocesso ! Primeiro que limita e estimula seus descendentes a serem mentalmente racistas. O mundo agora é “globalizado”,queiram ou não.Podemos está em qualquer lugar e a qualquer momento. Somos serem humanos. Não nascemos para viver isolados!

      • Kinsk, há trezentos anos os brancos foram pra lá e que só tinha uma tribo nômade. Quem hipocrisia. A região Amazônica tem uma enorme floresta vazia. Na tua cabeça de vento então vamos deixar os holandeses invadirem o Brasil e pronto. Aliás, os holandeses, franceses, tentaram conquistar o Brasil, quando era vazio. Muito bonito. Vamos procurar terras vazias no mundo e invadir. Burro, a África sempre foi ocupada por negros.

  4. Se essa espécie de “segregacionismo moderno” torna-se modelo/exemplo para as sociedade, novamente a população negra seja na África do Sul o no Brasil será a mais lesada, pois simplesmente terão justificativa para continuar nos “limitando” a favelas e periferias.

  5. Já vi muitas pessoas julgando esses cidadãos, mas não acho que essa cidade seja racista. Ela, simplesmente, encontrou o seu próprio modelo de vida. Como eles, falam, a violência é quase nula, o desemprego não existe. Isso é positivo. Poderia servir de exemplo.

    • João Cabrita, obrigada pelo comentário sobre a origem da palavra kaffir! Em árabe, “kāfir” ou “kuffār” significa infiel. Na África do Sul, durante o apartheid, “kaffir” foi uma palavra muito usada pelos afrikaners para fazer referência (de forma depreciativa) aos negros.