África em Verso: “Mãos de Mãe”, por Ed Mulato

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Foto: Virginia Yunes - Guine-Bissau
Foto: Virginia Yunes – Guine-Bissau

Ed Mulato, Por dentro da África

O que me lembro é daquelas mãos enoooormes que apoiavam minha cabeça, enquanto me alimentavam; muito mais do que com leite, com o calor de seu carinho.

Depois as mãos, cada vez mais curtas, ainda apoiavam minha cabeça enquanto me trocavam as fraldas: limpavam as primeiras sujeiras do caminho.

Não sei se cresci, ou se eram as mãos que se encolhiam, cuidadosas, ao conduzir as minhas; mas sei dos infinitos e constantes passeios, onde me ensinaram a atravessar as ruas, confiando minhas mãos nas suas, que nunca me deixaram estar sozinho.

Foram as mesmas mãos que me guiaram pela juventude, acolhendo-me em seu seio quando de meus choros, transformando-os em consolos, e desastres em alegrias.

Depois, aquelas mãos me abandonaram: apequenadas, enrugadas, murchas, tortas, enlaçadas, não mais me acarinharam, talvez por estarem muito frias.

Mas, me inundaram de certezas quando me mostraram que, um dia, minhas mãos, mesmo murchas, tortas, enrugadas, estarão, certamente, entrelaçadas. Com as suas, e com seu carinho.

Assim sei que estas, em outros novos mundos, novamente enormes, outra vez me acarinharão enquanto me alimentam, me conduzindo para novas travessias, por desconhecidas novas ruas, onde já não há mais descaminhos.