África em Verso: “Maio, 25: Dia da África”, por Ed Mulato

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Divulgação - Programa Mamaye - Evidence for Action
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Ed Mulato, Por dentro da África

Salvo grave engano, o ser humano viu-se feito dentro de seu ventre. E entre tantas peripécias e incertezas, idas, vindas, sutilezas, viu-se bicho diferente: por alguma via muito estranha, mal saído das entranhas, aquele bicho fez-se gente.

Mas, assim que viu rompido o vínculo do umbigo, desfez-se logo de seu berço, desprezando o braço amigo. E então, capaz e forte, partiu no rumo norte. E não levou você consigo.

Curioso, sagaz, sutil, esperto, andando firme e já ereto, viu outros mundos entre novos paraísos. Conquistou largos espaços, esquecido de seus braços, que julgou não mais precisos.

Inventou fuzil, canhão, caneta; e saiu a conquistar a terra: montou fronteiras e agrediu o mundo, espalhando enormes guerras.

Construiu, destruindo, um rastro de misérias, deixando os mortos para trás. Inventou um novo deus. E em nome deste deus, matou, roubou e vilipendiou os povos conquistados. A eles imputou os mil pecados, como fossem dominados por seu próprio Satanás.

Quando voltou, não voltou por lhe querer bem: pois se veio até mesmo com quadrilha! Pérfido e sorridente, fingindo amar você e sua gente, preparou-lhe a armadilha.

our africa1Sob o manto, escondido, disfarçou mortal fuzil; também ali fatal canhão, com formato de caneta. Com encanto, foi mentindo que sorriu, escarnecendo a pele preta.
Com a caneta, lhe agrediu a inteligência. Com o fuzil, feriu seu povo. Com o canhão, lhe roubou a independência.

Arrancou, de si, os braços fortes, a quem deu precoces mortes, planejadas, prematuras. Roubou-lhe toda a sua sorte, estilhaçando as estruturas.
Depois, juntando-se em matilha, planejou sua Partilha.

Assim se pôs sobre seu corpo retalhado, que conspurcou, e deixou despedaçado; dos pedaços que marcou, apossou-se de repente. Sequer pensou que estraçalhando o corpo esfarelado, esmigalhava seus irmãos, para ele, indiferentes.

Destruiu sua cultura, desdenhando, com voz dura, das estórias que contavam venerados anciãos…

Então, mãe, de sua garganta, agora muda, só lhe resta, como ajuda, o silêncio estuporado, o medo nos seus olhos estampado, o vazio em suas mãos.

Porém, minha mãe distante, não me esqueça um só instante, e confie nos seus filhos. Que mesmo longe de seus braços, não esquecem de seus traços, mesmo aqui, fora dos trilhos.
Até por isto, reforçada a aliança, nunca perca a esperança, pois seu sangue pulsa em mim. E sendo assim, e p´ra lhe ver, de novo, o riso, vou fazer todo o preciso, pois também quero sorrir.
E é só pensando nisto que ainda estou aqui.

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