África em Crônica: “Afrocentricidade sentada”, por Gabriel Ambrósio

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Bom dia de Burundi! Registro da leitora Fotógrafa Virginia Maria Yunes!
Bom dia de Burundi! Registro da leitora Fotógrafa Virginia Maria Yunes!

Gabriel Ambrósio, Por dentro da África

Sentados numa sala empenada ao sol, paira o clima goiano com olhares de todos querendo escrever sobre o que pensam do planejamento de estudos e o fortalecimentos dos nossos coletivos. Tudo em busca de uma nação do futuro melhor. Mesmo que essa harmonia seja meio utópica, é um sonho melhor da humanidade. Desvelar as visões construindo uma universidade com diversidade e voz para todos. Esse tempo é atemporal que melhor caracteriza a busca da identidade e do reconhecimento.

Foi assim que pensamos nos afrodescendentes e universidades. Se estamos avançando é preciso reencontrar com os coletivos, construindo diálogos com nosso verdadeiro valor humano. E, com os encontros vai se fortalecendo a resistência reflexiva, a proposta contínua de nos encontrarmos para centralizar diálogos enriquecedores e com vastas experiências vividas pelos grupos, e coletivos associados aos movimentos sociais e negros. Somos a maioria no senso geral, mas a representação é minoria numa universidade de milhões de estudantes e alunos, que pensam empoderar e incutir a nós sintonizando a lei 10639/2003 (referente ao ensino da história e cultura afro-brasileira e africana), que nem é apreciada por todos os profissionais.

O passado foi guerreiro, mas o presente engatinha na busca do povo desunido. Dói, não? Identificação ou não ela é necessária, e útil. É sim, se todas as ciências sociais e humanas vissem o ser humano, as mulheres e negros não seriam dignos? Exageros do mundo desumano não são iguais, porque os europeus ensinaram a desvalorização de culturas a seu vasto povo! O contraponto eurocêntrico é encontrado na afrocentricidade, que cultua e recoloca a África no centro. Com razão, a cultura ancestral africana valoriza a mulher desde criança até a velhice. A diáspora encaminha na mesma linha ancestral, o “afrocentrismo” ensina isso, a valorização e criação comunitária da harmonia conjunta “ubuntu”. Mas isso é pouco conhecido na arena acadêmica… Ubuntu é um modo de viver filosoficamente, na harmonia e respeito a todas as pessoas na comunidade.

Agora o termo afrocentrismo é a inovação da afrocentricidade que tem sido desenvolvida nos anos 1980, que tem África como centro da inspiração em termos de pesquisas e o modo de viver. E tem as figuras de Molefi Asante, Reiland Rabaka e também da Ama Mazama entre vários outros. As origens estão nos anos 1954 à 1960, com o trabalho de grandes pensadores africanos como Cheikh Anta Diop, Frantz Fanon, Malcolm X, Du bois, Abdias de Nascimento, George James (grande revolucionário que desmentiu a essência da filosofia no mundo ocidental, dando assim a digna obra “legado roubado”). A filosofia é de origem africana (ASANTE, 2014). Neste artigo (uma origem africana da filosofia: mito ou realidade?).

Voltando à memória da reunião onde falas “ousadas e outras sem bom senso que não são “preconceituosas”, mas às vezes matam os fracos de auto-estima e lhes massacra”, não é digno de viver no meio de paradigmas, aquele que se sente discriminado. Alguns são mais empáticos que outros, e só observam interiormente, pensando ou não em suas atitudes. Eis a necessidade de promover as sentadas redondas, onde os olhares e os discursos se entrelaçam fala após fala, e os atentos apanham e outros se perdem com olhar no celular…

Não me quero atar em falas, mas refletir sobre os encontros que temos organizado durante anos. Estamos procurando criar um coletivo que tenha acadêmicos envolvidos nas pesquisas da nossa história, e nossos escritores, artistas e cientistas. E, aliás, estes são distribuídos por esta diáspora e no berço continental africanamente falando. Com certeza, estamos criando pequenos e grandes laços, sempre que se organizam as sentadas, promovendo a afrocentricidade como objeto de orgulho.

Visibilidades e oportunidades com autoestima e liberdade das mulheres negras, em escolher ou não, a beleza que é promovida pela mídia da beleza. Deste modo, podemos nos empoderar na afrocentricidade e no Ubuntu como formas de reunião nos espaços da academia. Este texto é resultado de um encontro de coletivo de estudantes negros da PUC GOIÁS. Negras, por serem as mais envolvidas na afirmação dos valores ancestrais, desejo-lhes que continuem herdando o pensamento de grandes mulheres da diáspora e da mãe África.

 


1 COMMENT

  1. A sensível leitura compreensiva e interpretativa de Gabriel Mawenda não é apenas um registro de um observador sobre coletivos. Expressa a intensidade apreendida em anos de cultura e vivências onde a ordem e o poder coletivo objetivam vida e preservação de sua comunidade e do próprio indivíduo e por consequência de da terra e do planeta.

    A todos que interessarem é possível dizer: Gabriel está conseguindo fazer muita diferença por aqui.

    Uene