A proliferação das seitas religiosas em Angola, por João Ngola Trindade

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Captura de tela 2015-05-14 às 23.49.08Por João Ngola Trindade, Por dentro da África

Introdução

A proliferação de seitas religiosas é um fato constatável no nosso país. A sua complexidade e abrangência exige uma abordagem interdisciplinar, razão pela qual diversos especialistas em Ciências Sociais angolanos analisam-na nos meios de comunicação social com o propósito de prestar algum contributo no esclarecimento deste fenômeno. O texto que se segue apresenta uma abordagem histórico-cristã do referido fenômeno e, igualmente, uma breve reflexão sobre as possíveis causas do surgimento de seitas religiosas em Angola.

OBS: O artigo faz referiência ao massacre na província de Huambo, no centro de Angola. O governo da região declarou que nove policiais e 13 civis foram mortos em um confronto, quando a polícia tentou prender José Kalupeteka, líder da seita religiosa “Luz do Mundo”, no dia 16 de abril. Moradores da região e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) falam em até 1.000 mortos. – Veja mais: Massacre em Angola: “Entre heróis e mártires de uma causa promovida por todos nós”, por Albano Pedro

A religião em Angola

O período pré-colonial, que podemos chamá-lo igualmente de pré-cristão em Angola, foi marcado pela manifestação de crenças religiosas tradicionais seguidas pelos diversos grupos etno-linguísticos angolanos. Convém esclarecer que a alusão às crenças religiosas tradicionais traz em si a ideia da existência de um Ser Supremo (Nzambi), mas também a fé nos bakulos (ancestrais). A estes eram dedicados cultos, periodicamente, com o intuito de garantir a felicidade terrena dos seus invocadores.

A chegada do Cristianismo, em cumprimento do mandato divino “ide por todo mundo e pregai o Evangelho à toda criatura”, resultou na coexistência da religião tradicional com o Cristianismo. A aceitação deste último não significou a rejeição da religião tradicional africana. Pelo contrário, ocorreu um fenômeno conhecido como sincretismo religioso, isto é, a fusão entre a religião tradicional e o Cristianismo que deu origem à vários movimentos religiosos dentre os quais se destacam o movimento antoniano, fundado por Kimpa Vita (séc. XVII), e, posteriormente, o Tokoísmo de que falarei mais adiante.

Porém, na História de Angola, o período de transição política, de democratização, foi o que terá registrado o surgimento de um número elevado de seitas religiosas.
Os estudiosos angolanos são unânimes em afirmar que o processo de abertura política, e a Revisão Constitucional, criou um ambiente favorável para o exercício de um direito consagrado legalmente, isto é, da liberdade religiosa, de culto e de consciência que reconhece a igualdade de todos os credos religiosos perante a lei.

Durante este período (1991/92 até hoje) o solo angolano, rico em recursos minerais e naturais, ficou marcado pela presença de cidadãos estrangeiros, provenientes, majoritariamente, do Brasil e do ex-Zaíre, atual RDC que, alegavam trazer a Boa Nova num país cujos dirigentes haviam adotado durante 15 anos o ateísmo científico e o marxismo-leninismo. O resultado foi o surgimento rápido de várias confissões religiosas, de matriz evangélico-pentecostal, que posteriormente registraram cisões dando origem ao que conhecemos como seitas religiosas.

Causas do surgimento das seitas religiosas
Um dos fatores que contribui para a proliferação das seitas religiosas é, sem dúvida, os desvios de interpretação dos textos sagrados decorrente da deficiente formação bíblica e teológica e secular de muitos líderes religiosos. Este fato estará associado, até certo ponto, ao desinvestimeno de muitas confissões religiosas no setor da educação – atitude que contribui para a permanência de muitos crentes no obscurantismo, uma das raízes do fanatismo religioso.

Acrescido à este facto está a interpretação deturpada da Teologia da Prosperidade que, até certo ponto, mercantiliza a fé cristã. Acredita-se ser possível prosperar ainda que a pessoa tenha um baixo nível de escolaridade e dedique apenas grande parte do seu tempo à oração.
Multidões constituídas por iletrados, doentes, desempregados e com outros problemas acreditam piamente em mensagens deste tipo, pois, interessa-lhes apenas a visão materialista da vida, em detrimento da salvação eterna. Por este motivo fala-se atualmente em “mercado da fé”, isto é, da compra e venda da salvação.
Características das seitas religiosas
Algumas seitas caracterizam-se pela ênfase ao regresso de Cristo. Os seus líderes anunciam que tal acontecimento ocorrerá numa data que eles alegam ter encontrado com base na leitura da Bíblia Sagrada. Outra característica das seitas religiosas diz respeito a sua localização. Geralmente elas encontram terreno nas zonas periféricas onde a exclusão social se manifesta pela falta de hospitais, doenças, pobreza, analfabtismo, desemprego. Tais factores, associados ao desejo de mudança de vida, contribui para a fanatização das mentes de muitos cidadãos.

Algumas seitas religiosas existentes em Angola
O tokoísmo
A escravatura e a opressão colonial terão despertado em alguns angolanos a esperança e a fé no advento do messias entendido aqui como o homem que seria enviado por Deus para libertá-los do domínio colonial que contava com o suporte espiritual do catolicismo. O tokoísmo terá surgido como uma ideologia de libertação do angolano oprimido pelo colonialismo e o catolicismo. Talvez seja esta a razão pela qual este movimento religioso, oriundo do protestantismo, goze de simpatia do Estado Angolano. Apesar de reconhecido pelo Ministério da Justiça, alguns lideres eclesiásticos consideram-no uma seita religiosa pelo fato de, por exemplo, ele apresentar Simão Gonçalves Toko como o Cristo Negro e a sua terra natal (Ntaia, Maquela do Zombo, Uíge) como a «nova» Jerusálem.
A «Igreja» a Luz do Mundo
Esta confissão religiosa foi fundada por Julino Kalupeteka, antigo membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
O autodenominado «profeta» Kalupeteka pregava o retorno de Cristo para o final do mês de Dezembro do ano em curso – uma atitude que por si só faz-nos recordar os primeiros anos de existência do adventismo e de outras seitas religiosas que baseiam a sua mensagem e doutrina no fim do Mundo.
Conclusão
A proliferação de seitas religiosas é um fenômeno que se insere no cumprimento da profecia segundo o qual surgiriam falsos profetas que anunciariam o regresso de Cristo neste ou naquele local e dia. Para um país como Angola, profundamente influenciado pelo Cristianismo, sugere-se que as igrejas cristãs desenvolvam contínua e profundamente um trabalho de evangelização e promoção do ensino, elemento que, a semelhança da Palavra de Deus, liberta o homem da ignorância e do obscurantismo.
Ao Estado compete, entre outras ações, a aposta continua na massificação do ensino de qualidade, na expansão de serviços básicos, e não só, em toda a extensão do território nacional com vista a reduzir os níveis de pobreza e a possibilidade de adesão dos cidadãos a movimentos religiosos que possam atentar contra a dignidade humana.

Bibliografia
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