“A Primavera Árabe precisava acontecer. Era a luta pelo futuro”, diz especialista egípcio

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Ativista com as bandeiras pintadas nos dedos - Foto: OTAN Natalia da Luz – Por dentro da África

Rio – Uma nova história começou a ser escrita nos últimos dois anos, após a onda de revoluções que depôs regimes autoritários que há décadas minavam a liberdade e a identidade de egípcios, líbios e tunisianos. Mesmo independente de suas metróples (desde a década de 50), a população dessa parte do mundo permanecia sob o controle de tiranos, até a descoberta tardia do seu poder para transformar, um processo em transição e que ainda produz consequências. A Primavera Árabe, que se espalhou também pelo Oriente Médio, fez uma ruptura com o passado no norte do continente africano.

– A Primavera Árabe foi importante porque ela precisava acontecer. As pessoas tinham que se livrar dos regimes autoritários. Era uma luta pelo futuro – conta, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, Jean Marcou, diretor do departamento de Relações Internacionais da Universidade Grenoble, na França.

Marcha no Fórum Social Mundial, na Tunísia - Foto: Natalia da Luz

Em dezembro de 2010, Mohamed Bouazizi, o jovem tunisiano que ateou fogo ao próprio corpo em sinal de protesto contra a corrupção e as condições de vida em seu país, acendeu a revolta no norte do continente africano. Protestos tomaram conta da Tunísia, levando o presidente Zine el-Abdine Ben Ali (no poder desde 1987) a fugir para a Arábia Saudita dez dias depois. Após a Tunísia, o Egito e a Líbia também vivenciaram – em proporções diferentes – a luta pela democracia e a deposição de seus antigos presidentes.

Países como Marrocos, Argélia e Mauritânia também foram influenciados pelas manifestações da Primavera Árabe, mas ainda hoje permanecem com o mesmo regime, o que não é o caso da Tunísia, Egito e Líbia. A situação da Líbia é mais delicada porque, dentre os vizinhos, apenas ela passou por uma guerra civil. Tanto a Tunísia quanto o Egito foram cenário de intensos conflitos, protestos e de centenas de mortes, mas em condições diferentes daquelas encontradas na Líbia, que, tragicamente, somou mais de 40 mil mortos. A consequência do confronto armado no país, que fora governado durante 42 anos pelo ex-ditador Muammar Al Gaddafi, respingou nos vizinhos, principalmente no Mali e no Níger, alimentando o medo de suas populações e governantes sobre o destino das armas usadas contra e a favor do ex-tirano.

Professor Jean Marcou - Arquivo Pessoal – No ano passado, eu estive em uma conferência em Túnis (Tunísia) e fiquei impressionado como os líderes da África Subsaariana (países africanos localizados abaixo do deserto do Saara) estavam apreensivos em relação à segurança do continente africano. Isso aconteceu porque houve alguns erros na situação da Líbia… É difícil dizer o que seria melhor porque o Gaddafi estava ameaçando a população. Mas eu acredito que a intervenção deve ter o objetivo de proteger a população e não de depor qualquer regime – explica o mestre em Ciências Políticas pelo Instituto de Grenoble, completando que a guerra civil que se estabeleceu durante o ano de 2011 ajudou a proliferar as armas pelo país e suas fronteiras.

Mapa do Norte da África Na Argélia, cuja soberania foi reconhecida pela França apenas em 1962, também houve uma série de manifestações sociais para reivindicar melhores condições de vida. Uma onda de protestos simultâneos eclodiu em todo o país a partir de janeiro de 2011, mas logo foi contida.

– A Argélia também foi contagiada, mas rapidamente o exército reprimiu os protestos. Não sei se haverá uma possível revolução no país, apenas me pergunto até quando o governo conseguirá controlar essa situação? – questiona o especialista egípcio.

Estado x Religião

Protestos no Egito - Foto: ONU Após a revolução, os países que viram as ditaduras ruírem passaram a reformular a sua identidade e, nessa transição, a religião foi acionada sem a menor cautela por um grupo mais radical da população. Ela veio à tona como forma de se integrar não apenas à sociedade, mas à política. O crescimento de correntes conservadoras emergiu no norte da África produzindo um grande paradoxo entre a democracia e a imposição de princípios religiosos.

– Há uma nova interpretação mais conservadora que ronda esses países. A Irmandade Muçulmana, no Egito, por exemplo, tem influenciado o governo com a sua filosofia, o que pode ser um empecilho para o desenvolvimento do país. Dessa forma, não há uma verdadeira política se esta for conectada à religião.

Marcou, que também é professor da Universidade do Cairo (Egito), lembra que existe um risco de o conservadorismo domar e de potencializar conflitos dentro da própria sociedade. Nos três países, há muitos registros de embates entre os conservadores e os agentes sociais que defendem os direitos das mulheres, por exemplo.

– A revolução abriu o pote que estava coberto, sufocado. A sociedade ficou fora do controle da política por muito tempo e agora está buscando o seu lugar, reconstruindo a sua identidade – ressaltou o professor .

Nesse cenário de dualidades, onde há o fortalecimento da democracia, há também o crescimento do salafismo, que é justificado pelos seus praticantes como a busca pelo purismo da religião muçulmana. Salafi (plural salafin) significa, em árabe, seguidor dos ancestrais. O Movimento Salafiya foi influenciado por Jamal al-Din Afghani (1838-1897), um pensador islâmico que estudou a militância dos salafin (ancestrais) nos primórdios do Islã.

Marcha no Fórum Social Mundial, na Tunísia - Foto: Natalia da Luz

– O salafismo é um comportamento pessoal e não governamental. No Egito, por exemplo, eles estão banindo os biquínis para as mulheres; mas e as turistas que frequentam a Península do Sinai? Se você quer modernizar, é preciso escolher a sua política, que não deve estar atrelada às crenças. Nessa região do mundo, as mulheres estão trabalhando, estudando e participando mais da política. Eu me lembro de uma candidata egípcia ao mestrado que disse que queria estudar para ajudar a mudar a sociedade. Existe uma evolução em processo e isso provoca um grande conflito na sociedade, especialmente quando parte dela quer impor suas regras para todos.

Internet como ferramenta da revolução

As redes sociais desempenharam um papel importantíssimo nos movimentos contra a ditadura nos países árabes. A propagação não teria sido a mesma sem a internet e a participação dos homens e mulheres jovens, que, logo nos primeiros dias, criaram seus canais de comunicação, usando os celulares para enviar fotos do que acontecia.

Ruas de Trípoli - Foto: Abdusalam Os jovens lutaram ativamente contra o autoritarismo. Carregados de expectativa e do sentimento de mudança, eles se tornaram os agentes de uma nova era. Há dois anos eles não vivem com as amarras de seus tiranos, mas compartilham uma frustração porque eles ainda não chegaram onde gostariam.

As consequências econômicas são visíveis. A instalibilidade ainda é um fator que predomina na Líbia, cuja maior riqueza provém do petróleo. No Egito, a fuga dos turistas sacudiu a economia do país, assim como na Tunísia. Sobre os prejuízos da Primavera Árabe, em 2011, a Líbia paralisou a atividade econômica e o PIB de US$90 bilhões caiu para US$38 bilhões no ano seguinte, segundo o relatório CIA World Factbook.

De acordo com dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) de 2011, as turbulências no Egito corroeram 4,2% do PIB, enquanto a arrecadação teve uma queda de US$ 75 milhões. Na Tunísia, o governo aumentou seus gastos públicos em cerca de US$ 746 milhões, deixando um rombo em torno de US$ 489 milhões nas contas públicas.

Jovens em protesto no Cairo - Foto: ONU – Temos que ser otimistas porque eu acredito que, apesar das críticas que temos ao regime presente, as eleições foram honestas. É uma nova experiência na política que precisava ser implantada. O regime anterior confiscava as famílias, e o presidente se achava o dono do Estado. Muitas pessoas vêm criticando Mursi (presidente do Egito) e falando que, se nada melhorar, eles vão para a praça Tarhir (centro da revolução no Cairo) de novo. Os países estão em uma situação econômica e socialmente instável, mas é preciso suavizar os conflitos internos e esperar pelo amadurecimento desse momento absolutamente novo.

Cronologia da Primavera Árabe no Norte da África

Dados econômicos do Relatório CIA World Factbook 2012

Bandeira da Tunísia Tunísia (população de 10 milhões de pessoas e um PIB de US$86 bilhões) – Os protestos se intensificaram em dezembro de 2010, com a morte do jovem Mohamed Bouaziz. Dez dias depois, o presidente Zine El Abidine Ben Ali, que estava há 24 anos no poder, foi deposto e fugiu para a Arábia Saudita.

Bandeira do Egito Egito (população de 83 milhões de pessoas e um PIB de US$ 519 bilhões) – As manifestações públicas ocorreram durante todo mês de janeiro de 2011 e deixaram centenas de mortos. Após 30 anos no cargo, Hosnir Mubarack renunciou em 18 de fevereiro.

Bandeira da Argélia Argélia (população de 37 milhões de pessoas e um PIB de US$263 bilhões) – As manifestações começaram em dezembro de 2010 contra a corrupção, além de pedidos de reforma econômica e deposição do presidente Abdelaziz Bouteflika, há 12 anos no poder.

Bandeira do Marrocos

Marrocos (população de 32 milhões de pessoas e um PIB de US$164 bilhões) – Os protestos começaram em janeiro apelando para reformas políticas e sociais e limitações do poder do rei Mohammed VI (no poder desde 1999). Um referendo realizado no mesmo ano permitiu a mudança da Constituição. Entre as medidas, estava a cessão de parte do poder do rei para o primeiro-ministro.

Bandeira da Mauritânia

Mauritânia (população de 3,5 milhões de pessoas e um PIB de US$ 7 bilhões) – Os protestos começaram em janeiro de 2011 com pedidos de reformas para o presidente Mohamed Ould Abdel Aziz, que, após um golpe de estado, instalou-se no poder em 2008. Durante um dos protestos, um empresário de 40 anos também ateou fogo ao próprio corpo.

Bandeira da Líbia Líbia (população de 6 milhões de pessoas e um PIB de US$39 bilhões) – Estimulados pela onda de manifestações nos vizinhos, os líbios iniciaram em 17 de fevereiro a revolução contra as tropas do ex-ditador Muammar al- Gaddafi. Em 19 de março, uma coalizão, liderada por Washington, Paris e Londres, e amparada por uma resolução da ONU, lançou uma operação no país. Gaddafi foi capturado e morto pela população em outubro do mesmo ano, após meses de intensos combates que resultaram na morte de mais de 40 mil pessoas.

Por dentro da África