Dia Mundial de Luta contra a Aids: Os desafios e avanços do combate na Suazilândia

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Foto: Médicos Sem FronteirasNatalia da Luz, Por dentro da África

Mbabane, Suazilândia – Um pequeno país de aproximadamente 1,5 milhões de habitantes chama a atenção por sua luta contra uma estatística dura. Independente do Reino Unido desde 1968, a Suazilândia viu a sua expectativa de vida cair de 61 para 32 anos (de acordo com o relatório da ONU de 2009), por conta da epidemia de HIV no país. Um misto de conscientização da população e de expansão do tratamento vem provocando avanços nesse cenário.

– Nós já vemos declínio nas mulheres grávidas e também começamos a ver declínio nos novos casos de HIV. Seis anos após a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras chegar à Suazilândia, podemos dizer que as pessoas não morrem mais na mesma frequência. As equipes de saúde são mais otimistas, e a cobertura do tratamento antirretroviral acontece em mais de 80% das pessoas que necessitam de tratamento, de acordo com os critérios atuais da Organização Mundial da Saúde – disse, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, Elias Pavlopoulos, responsável pela Médicos Sem Fronteiras na Suazilância.

Em 2000, a expectativa de vida da Suazilândia era de 61 anos. Em 2009, de acordo com dados do Programa de Desenvolvimento da ONU, essa taxa caiu para 32 anos, a mais baixa em todo o mundo. Este mergulho no abismo estava diretamente ligado ao HIV, revelando uma prevalência que assustou o mundo: 26% da população.

Campanhas em Mbabane - Foto: Natalia da Luz Em 2007, novos programas de luta contra o HIV começaram a ser implantados no país. De acordo com o relatório da Organização Mundial de Saúde de 2011, a expectativa subiu para 50 anos, ao lado de países como Somália, Lesotho e Guiné Bissau. As menores expectativas de vida estariam hoje em Serra Leoa (47), República Centro-Africana (48) e República Democrática do Congo (49).

De 1992 a 2009, o percentual de pessoas infectadas saltou de 3,6% para 26%. Elias conta que esse acréscimo é uma discussão complicada, já que muitos fatores como tratamentos disponíveis, questões culturais e práticas tradicionais têm levado, alguns países, a esta situação. Situação semelhante podemos ver também nos vizinhos da Suazilândia, como em Maputo, em Moçambique e em KwaZulu Natal, na África do Sul. Diante de um dos maiores vilões da população suazi, o governo destinou seus esforços para investir nessa luta.

– O governo da Suazilândia está cobrindo todos os custos de medicamentos para o tratamento antirretroviral. Ao mesmo tempo, começamos a ter alguma melhoria na gestão de drogas, e nós não temos escassez nos últimos 2 anos – disse, lembrando que isso é importante para manter o bom trabalho, mas depende da situação financeira geral do país.

Preconceito contra soropositivos

Campanhas em Mbabane - Foto: Natalia da Luz A África Subsaariana concentra o maior número de pessoas infectadas. Dos 34 milhões de todo o mundo, o continente africano abrange 23,5 milhões de portadores, seguida pela Ásia Meridional e Sul-Oriental, com 4,2 milhões. Na América Latina, são 1,4 milhões, enquanto a Oceania tem a menor estimativa, 53 mil infectados.

Apesar de o HIV fazer parte de muitas comunidades, ainda há preconceito e discriminação pelo fato de ser uma doença sexual, que envolve muitos tabus. O maior desafio diante desse cenário é mostrar que o soropositivo pode ter uma vida absolutamente normal e produtiva.

– Hoje há mais pessoas que falam abertamente sobre o HIV. Nas comunidades, organizamos sessões de educação para a saúde e também nos envolvemos com líderes tradicionais em nossas campanhas. Ao mesmo tempo, os treinamentos para pastores e curandeiros tradicionais também nos ajudam a reduzir a estigmatização.

Mapa da Suazilândia A população contribui com essa luta. Elias conta que milhares de suazis que trabalham no sistema de saúde são a espinha dorsal da luta contra o HIV. Apenas a MSF tem cerca de 30 funcionários internacionais e 450 nacionais, que trabalham juntos em regiões Manzini e Shiselweni para conter a dupla epidemia de HIV e TB.

Poligamia e educação

No trono desde 1986, está Mswati III, de 46 anos, o rei das 14 rainhas, que costuma escolher as integrantes de seu harém em festas públicas. As interessadas são selecionadas entre grupos de virgens de seios à mostra, um evento polêmico, mas aceito por muitos suazis, por fazer parte da cultura local.

A Reed Dance ou Umhlanga é uma espécie de cerimônia na qual jovens da Suazilândia dançam e se mostram para o monarca. A “festa” de oito dias acontece, anualmente, entre agosto e setembro.

A Suazilândia é uma das poucas monarquias remanescentes no continente. Em seu território predominam os planaltos cobertos por savanas e pastagens com uma sociedade patriarcal que admite a poligamia.

Cartaz na Suazilândia - Foto: Natalia da Luz Elias acredita que a cultura contribui para o comportamento da população, mas ainda é pouco na luta contra o HIV. Mudança de comportamento é, talvez, o mais difícil de se conseguir, e leva sempre muito tempo. Para ele, a principal situação que pode ser divisora de águas é a de melhorar o acesso ao tratamento para todas as pessoas HIVpositivas.

– Às vezes, eu penso que estamos nos escondendo atrás de “tabus” para cobrir a nossa ineficácia. Comportamento, como eu disse, é algo que muda lentamente, mas o acesso ao tratamento é algo que depende muito da maneira que fazemos o nosso trabalho.

O Médicos Sem Fronteiras participa de sessões de educação para a saúde que incluem mensagens sobre como ter um filho HIV negativo sendo HIV positivo, como praticar sexo seguro e etc.

– A lição que podemos aprender com a Suazilândia é que, mesmo no maior desastre, se trabalharmos corretamente e colocarmos em prática os recursos necessários, poderemos fazer a diferença. Já podemos ver os resultados positivos e ainda estamos no meio da estrada …

Por dentro da África


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