“O mundo da mulher ficou muito escondido. É preciso falar mais sobre o que somos”, diz Paulina Chiziane

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Natalia da Luz, Por dentro da África 

Ela foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. Em suas obras, Paulina Chiziane promove reflexões sobre aspectos culturais enraizados. Assim, ela abre caminhos, amplia horizontes sobre a liberdade.

“A minha questão é sempre a mesma: as nossas liberdades, seja de homem,da mulher, de qualquer ser excluído. O mundo da mulher sempre ficou muito escondido e é preciso começar a falar um pouco mais sobre o que somos. Uma coisa que eu costumo fazer é contar as nossas alegrias, tristezas, os sonhos das outras mulheres, mas acima de tudo, negociando a nossa liberdade e dignidade como seres humanos”, disse a escritora em entrevista exclusiva ao Por dentro da África. Assista ao vídeo abaixo:

Em visita ao Brasil, Paulina lançou seu último livro ‘Canto dos Escravizados’ e, no Centro Cultural José Bonifácio, no Rio de Janeiro, ela conversou sobre os aspectos que norteiam a sua trajetória na literatura e o seu papel como cidadã moçambicana e africana.

Nos últimos anos, diferentes movimentos que reúnem mulheres moçambicanas vêm ganhando força e repercussão internacional. Pergunto se, em Moçambique, ela percebe esse engajamento mais amplo e cito algumas marchas como a da luta pela legalização do aborto (aprovado no final de 2014).

“Sim. Eu vou te falar que Moçambique é um país de muita sorte. Temos políticas muito boas, de promoção da mulher. Estamos avançados em muitas questões. Só para te dar um exemplo, no Parlamento, nós conseguimos atingir mais de 30% de mulheres”, destacou a ativista que foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz de 2005.

Atualmente, Moçambique se coloca como um grande exemplo no continente africano no quesito representação política feminina. O país é o lusófono na melhor posição seguido de Timor-Leste, Angola, Portugal, Guiné Equatorial, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Brasil. O país parece seguir os passos de Ruanda, que hoje possui mais de 70% do Parlamento composto por mulheres, o maior número no mundo.

Comprometida como cidadã, Paulina participou ativamente da vida política de Moçambique como membro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), na qual militou durante a juventude. Anos depois, afastada da política, mas ativa nas manifestações nas ruas, a escritora lançou seu primeiro livro, Balada de Amor ao Vento, em 1990, e tornou-se a primeira mulher moçambicana a publicar um romance.

Racismo

Como alguém que defende as liberdades e luta contra as desigualdades, lembro, em nossa conversa, que o Brasil é o país com o maior número de negros fora da África, mas ainda um lugar onde o racismo é forte e perverso. Pergunto a Paulina como esse cenário se apresenta para ela.

“Quando eu estou em casa esqueço que tenho raça, mas quando atravesso as fronteiras do mundo, eu percebo que o lugar onde o negro vive é um lugar de sofrimento. Aqui, não deve ser apenas a luta dos negros, mas dos brancos brasileiros. O trabalho é para libertar esse grupo de privilégios porque uma sociedade que caminha assim (dividida) não pode ser saudável e feliz”.

Quando eu estou em casa esqueço que tenho raça, mas quando atravesso as fronteiras do mundo, eu percebo que o lugar onde o negro vive é um lugar de sofrimento.

Debates sobre aspectos sociais

‘Niketche: Uma História de Poligamia’, um dos maiores sucessos da escritora, abriu muitas portas para falar sobre alguns aspectos da cultura que devem ser refletidos.

“Foi um livro que me deu muito prazer em escrever. Eu não digo que a poligamia é boa ou ruim, mas mostro os caminhos sinuosos que a cultura tem. Enquanto eu escrevia, eu ia brincando com os personagens”.

Paulina conta que, quando ‘Niketche’ chegou em Moçambique, os homens ficaram zangados, os escritores disseram para ela que “a literatura não era lugar de feminismos”, mas, depois de virem o sucesso, eles mesmos passaram a escrever mais sobre as mulheres. Pela obra, ela ganhou o primeiro Prêmio José Craveirinha de Literatura, instituído em 2003.

Polêmicas com a Igreja

Em 2015, Paulina escreveu ‘Ngoma Yethu: O curandeiro e o Novo Testamento’. Na obra, ela coloca um curandeiro pra fazer uma análise sobre a filosofia do mundo cultural africano e o novo testamento da Bíblia Sagrada. Pergunto por que foi um trabalho que assustou as pessoas.

“Nossa… Aquilo foi um estrondo. ‘Ih, vamos orar pela Paulinia porque ela foi possuída pelo demônio’. Foi uma confusão, mas depois de um tempo, as pessoas começaram a perceber a justiça ou a ‘justeza’ da minha causa, a minha questão com a minha herança africana”.

Nesta obra de 300 páginas, Paulina lembra que a história ensina que o mundo vai para a África para cristianizar os africanos, mas o ponto de partida do cristianismo deveria ser o próprio continente africano.

“Esse é um debate teológico e levou muito tempo para as pessoas perceberem que eu estava tratando disso. Comigo é assim: eles rejeitam e depois, com a boa repercussão, pedem que eu explique melhor… Isso acontece: primeiro, porque sou negra, segundo, porque sou mulher. Se eu fosse qualquer outra coisa, rapidamente aceitariam.”


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