Teses e Monografias: Ideias historiográficas e políticas de Cheikh Anta Diop

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Título: O despertar da África: as ideias historiográficas e políticas de Cheikh Anta Diop
Autor: Jorge Henrique Almeida de Jesus
Universidade: Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Cheikh Anta Diop nasceu em 1923 no Senegal e faleceu em 1986 no mesmo país. Notabilizou-se por suas contribuições nas áreas das ciências humanas e exatas, bem como por sua atuação política. No que diz respeito à formação, Diop especializou-se em Química e Física Nuclear pelo Collège de France em 1956 e, quatro anos depois, obteve o título de doutorado de Estado em humanidades pela Sorbonne. Para os propósitos desta monografia, que se concentra nas ideias historiográficas e políticas do referido autor, destacaremos sua contribuição na área de humanidades.

Até meados do século XX predominou a ideia de uma África sem história, estática e à margem do Espírito, tal como declarara Friedrich Hegel em sua Filosofia da História. Desde pelo menos a corrida imperialista e o subsequente estabelecimento do regime colonial, prevaleceram os estudos etnológicos que reforçaram ainda mais a suposta imobilidade das sociedades africanas que, excluídas da narrativa histórica, se tornaram objeto exclusivo da descrição etnográfica.

Como bem salientou John Fage, com o advento dos movimentos de libertação africanos, sobretudo no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, a nova geração de historiadores africanos assumiu a responsabilidade de defender como tese principal que a África tinha uma história (FAGE, 2010, p. 20). Como o historiador mais representativo desse período destacou-se Cheikh Anta Diop, principalmente com suas pesquisas acerca do Egito faraônico e da África ocidental pré-colonial.

Paralelamente a luta contra a suposta historicidade das sociedades africanas, Diop empreendeu um verdadeiro combate contra um segmento específico da historiografia ocidental, a saber, a egiptologia. De fato, para esta o Egito faraônico não era uma civilização africana, menos ainda negra. Para parcela significativa dos egiptólogos ocidentais, o antigo Egito fazia parte do complexo civilizacional mediterrânico e oriental, mais próximo da Ásia do que da África, onde estaria localizado por “descuido geográfico”.

Desde 1954 com a publicação de Nations nègres et culture por Diop, obra esta considerada um divisor de águas na historiografia africana, a história do Egito faraônico e a da África negra foram finalmente interligadas. Diop demonstrou, com base em uma metodologia interdisciplinar, a proximidade cultural, linguística, sociológica, antropológica e histórica entre o vale do Nilo e o resto do continente africano. Seus argumentos não foram totalmente aceitos pela comunidade científica internacional, porém parte das suas teses foi reconhecida e acolhida como válida.

Percebido como um dos intelectuais mais influentes do mundo negro desde 1966, Diop influenciou gerações de acadêmicos e ativistas sociais, seja na África ou na diáspora, tanto em sua época quanto após a sua morte. Um dos exemplos dessa influência é o movimento de ideias conhecido como afrocentricidade, termo cunhado por Molefi Kete Asante para designar uma epistemologia inovadora baseada na agência dos Asante para designar uma epistemologia inovadora baseada na agência dos povos africanos e afrodescendentes, bem como na análise de todos os fenômenos referentes à África e sua diáspora a partir delas mesmas, e não mais a partir do referencial europeu (ASANTE, 2009, p. 93).

Considerando a influência exercida por Cheikh Anta Diop sobre acadêmicos e ativistas de origem africana e americana, vimos por bem analisar suas ideias historiográficas e políticas, assim como a relação existente entre elas. Como se verá ao longo dos capítulos, Diop partia do princípio de que a pesquisa histórica deveria contribuir para a conscientização dos povos africanos, cuja missão seria construir um Estado pan-africano como alternativa ao colonialismo.

Antes de iniciar nossas análises, façamos um apanhado geral do que foi escrito nas últimas décadas a respeito do personagem em tela. A seguir, faremos uma discussão teórica acerca dos intelectuais e apresentaremos as fontes e a metodologia utilizadas na pesquisa.

CAPÍTULO 1 – A ÉPOCA E O HOMEM
A eclosão dos movimentos de independência africanos e a propagação de movimentos político-filosóficos e culturais como, por exemplo, o pan-africanismo e a negritude, influenciaram profundamente as ideias historiográficas e políticas de Cheikh Anta Diop. Sabendo disso, pretendemos traçar o panorama da época em que ele nasceu e viveu, bem como reconstituir a história daqueles movimentos em suas grandes linhas.

O despertar da África

Ao abordar a África diante do desafio colonial, Albert A. Boahen escreveu que o período da história africana situado entre 1880 e 1935 foi marcado por inúmeras e rápidas mudanças. Se até 1880 a África havia se conservado em grande independente, sendo governada por seus próprios reis, rainhas, chefes de clãs e de linhagens, em formas de governo que iam da imperial e real até as comunidades e unidades políticas de porte e natureza variados, em 1914, a parte a Etiópia e a Libéria, todo o continente se viu dividido em colônias e submetido ao domínio das potências imperialistas europeias (BOAHEN, 2010, p. 3).

Se entre 1880 e 1910 se deu a conquista e efetiva ocupação do continente, foi entre esta década e 1935 que se consolidou a exploração do sistema colonial. Atento às múltiplas formas de resistência dos povos africanos, Boahen nos informa que desde a irrupção do colonialismo as autoridades e os dirigentes africanos defenderam a sua soberania e independência mediante o confronto, o estabelecimento de alianças ou por meio da submissão temporária.

Na maior parte das vezes fracassaram diante dos invasores que, dotados de tecnologia e capacidade bélica superiores, os reduziram à condição de colonizados, mas o fato é que as populações, se bem que tenham se adaptado ao novo regime, mantiveram a resistência protestando por melhores condições de vida (BOAHEN, 2010, p. 19).

A conquista da África pelas potências imperialistas europeias foi rápida. Do mesmo modo, foi rápida a conquista da independência pelas colônias africanas. A partir de 1935 é possível perceber uma tomada de consciência quanto à nocividade do colonialismo,

A invasão da Etiópia pelas tropas de Mussolini, que tanto indignou os intelectuais negro-africanos e afro-americanos, e a tomada de consciência da opressão racial e colonial que se seguiu são indissociáveis do movimento político e filosófico pan-africanista. Como veremos, este movimento influenciou consideravelmente a emergência do pensamento anticolonial na África.

O pan-africanismo, o pan-arabismo, a negritude e os movimentos de libertação africanos

O pan-africanismo é um movimento político e filosófico de potencial libertador baseado na noção de raça negra. Ignorá-lo implica em um equivalente desconhecimento da história do continente africano, isso para um período particularmente importante, a saber, o da descolonização da África. Do mesmo modo, só faríamos uma leitura superficial e equivocada dos escritos políticos e historiográficos de Cheikh Anta Diop caso ignorássemos a influência do pan-africanismo em seu pensamento e em sua ação.

Leia a pesquisa completa aqui O DESPERTAR DA ÁFRICA

Os estudos publicados pelo veículo Por dentro da África são voluntariamente cedidos pelos próprios pesquisadores na intenção de disseminar o conhecimento sobre muitos aspectos do continente africano.

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