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luatyPor Ondjaki

(Disponível na página do escritor Ondjaki e cedido ao Por dentro da África, texto foi escrito em homenagem a Luaty Beirão, um dos 15 ativistas angolanos presos há mais de 100 dias)

Um jovem preso não sabe distinguir o amarelo dos dias,

das dores ácidas do estômago nas poucas lembranças que lhe seguram aos dias

“que dias são estes…?”, insiste a voz de dentro, um pequeno átomo de força inventa animosidade, rebenta e se esgota, faz o jovem mover os pés em direção a muito perto, caminha não por exercício, mas porque o ruído dos pés lhe quer lembrar que talvez ainda esteja vivo

a boca tão parada, tão dentro, os tremores no peito, aflitivos, uma espécie de falta de ar, uma espécie de desespero intermitente, ora dói aqui, ora dói ali, “melhorar procurar onde não dói…”, nestes dias absurdos onde até os olhares e os sorrisos de quem o vê, são vistos sob uma perturbadora falta de nitidez.

restos de afeto, as vozes, as notícias, “há um mundo lá fora” dizem as vozes que seriam para animar, um jovem preso não sabe distinguir nessas vozes o que é amarelo o que é cinza, quer ouvir, quer saber, mas o pior fogo é sempre o de dentro, a tênue fronteira entre convicções e pedidos, o martelar da dúvida que ontem o assaltava e hoje não tem espaço para o assaltar;

o ácido parte do estômago, traz a dor, anula vozes, enriquece um delírio de baixa intensidade, “será que te recordarás dos sonhos…?”, nunca as horas foram tão longas ou duras ou a respiração lhe soube tão mal na boca, põe os pés no chão e invoca esse átomo de força para causar um ruído

espécie de canção de embalar, dele para ele mesmo, o gesto lento da mão na parede (“outro ruído… talvez ainda esteja lúcido…”), um jovem invoca todos os minúsculos pedaços da voz da mãe, tenta compor uma frase, uma que fosse, com essa voz emprestada, materna, que lhe servisse de embalo

e fecha os olhos no seu escuro, e já não sabe dizer se o escuro é escuro, e já não sabe dizer em que corpo adormece nem pode prometer, a ninguém, em que corpo acordará

invoca (inventa?) o último sopro de um átomo de força e tenta, com um qualquer resto de amarelo, deixar-se adormecer;

se sonha, é com os pés da sua filha.

Filha de Luaty

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