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Presos PolíticosNatalia da Luz, Por dentro da África

Rio – Após cinco meses na cadeia, 15 ativistas angolanos acusados de “alterarem a ordem pública do país” foram a julgamento. Para os otimistas, um sinal de justiça começou a ser avistado a partir de hoje. A companheira de Domingos da Cruz, um dos ativistas detidos, carrega esperança no peito e no nome e conta como a falta de liberdade aprisiona as mentes em seu país. Opine no fórum abaixo!

– O primeiro dia do julgamento não foi agradável porque, a princípio, eles só estavam permitindo dois familiares por detido. As salas do tribunal estavam muito cheias, com alguns sentados e muitos em pé. A imprensa foi barrada, teve que sair logo assim que o julgamento começou. Temos que enfrentar todas essas dificuldades, mas estamos otimistas – contou, em entrevista ao Por dentro da África, Esperança Gonga, esposa de Domingos.

Domingos da CruzDomingos da Cruz é jornalista, escritor, filósofo, mestre em Ciências Sociais e ativista. Ele foi preso no dia 21 de junho com a mesma acusação dos companheiros: “promover a desordem pública”. Essa não foi a primeira vez que ele teve a sua liberdade de expressão cerceada. Em 2013, Domingos foi a julgamento por ser autor de um livro que fazia críticas ao cenário político do país.

Uma suposição sobre o futuro de Angola foi descrita de forma crítica em uma obra que detalha prováveis caminhos sombrios, cercados pela corrupção. “ Para onde vai Angola: A selvageria apocalíptica onde toda perversidade é real”  foi o motivo de perseguição política e de uma investigação por incitação à violência, que o levará ao tribunal nesta sexta-feira.

Saiba mais sobre o caso de Domingos da Cruz aqui 

– Normalmente, o grupo hegemônico tem em minhas obras e no meu trabalho como jornalista, ativista e docente progressista (herdeiro de uma pedagogia crítica-revolucionária)  fontes para fortalecer a sua cólera irracional – contou entrevista exclusiva ao Por dentro da África, Domingos da Cruz,na ocasião de sua demissão despedido do cargo de professor pelo poder político.

DomingosNesta segunda-feira, Esperança não conseguiu falar com o marido. Apenas um “tchauzinho” de longe foi o que ela conseguiu. Em seguida, ela acompanhou o julgamento que ouviu apenas um dos 15 detidos (outras duas jovens acusadas aguardam em liberdade). Manuel Baptista, o Nito Alves, foi interrogado das 14h até às 18h. Nessas quatro horas, muito foi lhe perguntado sobre falsificação de identidades, o motivo de ele ter mudado de nome e o motivo de ele ser chamado Nito Alves (Nito Alves foi ministro do Interior de Angola desde a independência em 11 de Novembro de 1975).

-Ficaram insistindo nessa história até chegar à acusação de “rebelião”: por que ele havia participado das palestras ao lado do Domingos, por que debatiam o livro do Domingos, por que faziam manifestações? Com tantas perguntas, o Nito ficou esgotado até que o julgamento (que vai até sexta-feira) foi interrompido.

De acordo com o Jornal Maka Angola, a maior parte dos 15 jovens chegou à sala de audiência descalça, o que levou o juiz a considerar a atitude “uma falta de respeito”. Benedito Jeremias foi o primeiro a se explicar, dizendo ser uma “forma de protesto” contra o alegado excesso de prisão preventiva, enquanto Luaty Beirão, que esteve em greve de fome durante 36 dias, acrescentou: “Estivemos cinco meses [tempo em que estão em prisão preventiva] há à espera de botas. Chegaram hoje às 04:00, antes de virmos para aqui. Já não precisávamos”.

Tempo na prisão

Marcelina de Brito (irmã de Inocêncio), Henriqueta Diogo (esposa de Benedito Jeremias), Esperança Gonga (esposa de Domingos da Cruz), Neusa de Carvalho (esposa de Sedrick de Carvalho) e Elsa Caholo (irmã de Osvaldo Caholo), peticionistas da marcha. – Maka Angola

Desde junho, Esperança viu a sua rotina ser transformada, limitando suas atividades por conta da prisão de Domingos. Ela já não vai ia mais à universidade e passou a trabalhar apenas uma vez por semana. Professora em uma escola, ela também se sente prisioneira por ser impedida de motivar a reflexão de seus alunos.

-Temos que ensinar a escrever, a ler, mas não podemos abordar, indicar, debater sobre os direitos.  Você não pode fugir desta regra em Angola. Como esposa de ativista, só tenho a dizer que vamos continuar a lutar pela nossa dignidade e contra a violação dos direitos humanos nesta selva que se chama Angola. A minha rotina deu uma volta de 180 graus.

Leia mais: O ativismo em Angola tem risco de represálias 

Gene Sharp

Os ativistas foram presos durante encontro com base no livro Da ditadura à democracia, de Gene Sharp, que vem inspirando revoluções não-violentas em vários países do mundo. Lançado em 1993, a obra já foi traduzida para 25 idiomas, inclusive em português, e está à disposição para download gratuito.

sharpO filósofo foi apontado como um dos inspiradores da revolução egípcia que começou na Praça Tahir após a faísca da Primavera Árabe ser acesa na Tunísia, em dezembro de 2010. Aos 84 anos,  Sharp foi nomeado três vezes ao Prêmio Nobel da Paz, em 2009, 2012 e 2013. Em 2011 ganhou o prêmio El-Hibri Peace Education.

Ontem, Esperança esteve com Domingos. Na prisão, ela disse que o companheiro tenta preencher o tempo com leitura, mas não qualquer uma. Títulos e temas polêmicos não entram na cadeira. O último livro que ela levou para o marido foi a biografia de Nelson Mandela. Os outros detidos também leem livros, mas há os que preferem jornais.

Por conta do julgamento, os ativistas estão no mesmo corredor, não na mesma cela. De qualquer forma, podem ouvir uns aos outros, podem se comunicar, apesar da vigilância permanente dos guardas.

– Eles estão sempre vigiando, ouvindo, invadindo a privacidade. Ainda assim, os ativistas são muito fortes, são fiéis às suas palavras. Aqui, temos a nossa dignidade ferida. Há alguns bajuladores que acabam se calando, mas vamos continuar falando. Estamos a pensar positivo.

Os arguidos conversam entre si antes do início da sessão de julgamento (f. Central Angola).

Domingos da Cruz, preso no dia 21 de junho deste ano, começou uma greve de fome assim como o rapper Luaty Beirão, que permaneceu com a greve de fome por 36 dias, gerando comoção mundial. Esperança conta que, como represália, ele foi colocado em uma cela com presos que tinham doenças infecciosas. Ele teve que parar por imposição do diretor do presídio, em troca de voltar para a cela solitária.

Na semana passada, o grupo que está no hospital-prisão de São Paulo divulgou uma Carta Aberta aos Angolanos. “Temos sofrido tremendamente com a prisão e suas condições, que provocaram diversos danos à nossa saúde. Mas nos mantemos firmes”. Firmes e dispostos a perdoar a violência a que fomos sujeitos nestes 128 dias de prisão preventiva que levam, num sinal de que já fomos previamente condenados pelo governo“.

Em um de seus comunicados sobre o caso, a TPA (TV pública de Angola) destacou que, segundo o governo angolano, os mentores do “golpe de Estado” se inspiraram na Primavera Árabe, que lançou a Líbia, Tunísia e Egito para uma guerra civil criando instabilidade social na região. Segundo o comunicado, os membros que promovem as vigílias (pessoas solidárias à causa dentro e fora de Angola) procuram dar sequência ao referido plano “subversivo dos criminosos” após 13 anos de paz. A opinião do governo veiculada no telejornal diz ainda que os angolanos devem se concentrar no bem comum, como a independência, a liberdade, a paz, a democracia.

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