Há 20 anos, a Nigéria conquistava o primeiro ouro olímpico para a África

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FIFA
Seleção da Nigéria em 1996 – FIFA

Por André Carlos Zorzi, Por dentro da África 

No dia 3 de agosto de 1996, a Seleção da Nigéria conquistava a primeira medalha de ouro para o continente africano no futebol olímpico. Para celebrar a data, vamos relembrar detalhes da histórica campanha, que contou com uma virada histórica do Brasil, e o show de grandes nomes do futebol do continente: Nwankwo Kanu, o centro-avante grandalhão e finalizador, que fez história com sua camisa numero 4, e Jay-Jay Okocha, um dos mais habilidosos meias do futebol nigeriano.

CONTEXTO

No ano de 1996, a seleção nacional da Nigéria vivia o melhor momento de sua história, tendo sido campeã continental dois anos antes, e também feito uma brilhante campanha na Copa do Mundo dos Estados Unidos, liderando um grupo com a poderosa argentina, a Bulgária, que seria 3ª colocada do mundial, e a Grécia. Nas oitavas de final, caíram por apenas 2 x 1, diante da gigante Itália.

A expectativa era de que mais títulos viessem já em janeiro daquele ano, quando o time disputaria a Copa Africana de Nações sediada na África do Sul. Porém, questões políticas interferiram na situação.

Anti-Shell protesters in New York representing the Ogoni people.(AP Photo/Bebeto Matthews)
Anti-Shell protesters in New York representing the Ogoni people. (AP Photo/Bebeto Matthews)

A empresa holandesa Shell explorava o petróleo da região, prejudicando bastante as condições ambientais, e ocasionando uma condição de vida precária à população local, que muitas vezes protestava por seus direitos. Ao final de 1995, o governo enforcou nove ativistas relacionados à causa do povo da região, os Ogoni, o que gerou uma série de sanções internacionais ao país, impedindo assim a Nigéria de disputar o torneio continental de 1996, na África do Sul presidida por Nelson Mandela.

AS OLIMPÍADAS DE ATLANTA

Nas Olimpíadas, porém, a participação do país foi mantida, e os nigerianos foram sorteados em um grupo ao lado de Brasil, Hungria e Japão. Os jogos foram disputados na cidade de Athens.

O regulamento permitia que cada equipe convocasse apenas três atletas com mais de 23 anos de idade para jogar a competição. O treinador holandês Jo Bonfrere escolheu apenas o zagueiro Uche Okechukwu, 28 e o meia Amuneke, 25 (idades da época), que já haviam jogado a Copa do Mundo dois anos antes. O restante do elenco era composto por jovens promissores, quase todos já atuando nos grandes centros da Europa, entre eles Kanu, Taribo West, Ikpeba, Amokachi e Okocha (estes dois últimos também já haviam jogado a Copa do Mundo) que se consolidariam pouco tempo depois.

NIGERIA 1996A CAMPANHA

Ao longo da campanha pelo ouro histórico, a Nigéria enfrentou grandes adversários, que já haviam provado seu valor no próprio torneio. Os argentinos, por exemplo, venceram os Estados Unidos (que jogavam em casa) por 3 x 1, e golearam a Espanha por 4 x 0 na fase final.

O Brasil chegou a golear o time de Portugal por 5 x 0 na disputa do bronze, e o bom time do México também já havia vencido a Itália por 1 x 0, na fase de grupos. Na primeira partida, contra a Hungria, já próximo ao final do primeiro tempo, aos 44’, o centro-avante grandalhão Kanu tabelou com um companheiro de ataque, próximo à meia-lua, e recebeu em posição para estufar as redes e garantir os três pontos.

Contra o Japão, no jogo seguinte, a equipe vinha com dificuldades para acertar o gol. Até os 33’ do segundo tempo, o placar ainda marcava 0 x 0. Foi quando Babangida recebeu, próximo à área adversária, um cruzamento feito de antes da linha de meio-campo. Ele dominou a bola e deu um toquinho, livrando a bola do goleiro e da marcação, para abrir o caminho da vitória.

Nigeria Olympic Gold 1996
Nigeria celebrate winning Olympic football gold in 1996 – unfortunately it proved to be something of a false dawn for the game in Africa. Photograph: Action Images

Antes do final do jogo, um lance bizarro. Um defensor japonês, seguido de perto por um atacante nigeriano, tropeçou dentro da grande área e agarrou a bola com as mãos na queda. Pênalti para os africanos, que converteram com o meia Okocha, cobrando rasteiro, no canto esquerdo do gol, com o goleiro quase defendendo.

Com o resultado, a equipe foi para o último jogo em situação confortável, já que tinha seis pontos e três gols de saldo, diante de três pontos de Brasil e Japão (Saldos de +1 e -1, respectivamente), além da Hungria, que já não podia mais alcançar os nigerianos.

Desta forma, a Nigéria precisaria perder para o Brasil e o Japão golear a Hungria para que ficassem de fora. Logo ao início das partidas, disputadas simultaneamente, a Hungria marcou um gol, aumentando a vantagem da Nigéria, que enfrentava um respeitável time brasileiro.

nigeria atlanta fiffa
Nigéria em Atlanta – FIFA

Graças a um gol de Ronaldo aos 30’, que bateu forte da entrada da grande área, colocando a bola no canto do gol direito, a equipe perdeu a partida por 1 x 0 (O Japão venceu seu jogo por 3 x 2 e acabou eliminado), mas se classificou na segunda colocação, pelo critério de gols pró.

Nas quartas-de- final, o adversário seria o México. Aos 20’, Okocha chutou de fora da área e abriu o placar com um gol bastante parecido com o de Ronaldinho dias antes. Aos 39’ do segundo tempo, Babayaro deu números finais à partida, marcando o 2 x 0 após cobrança de escanteio.

REENCONTRO COM O BRASIL

Na semifinal, a equipe enfrentaria novamente o favorito Brasil, que contava com nomes como Dida, Roberto Carlos, Bebeto, Juninho Paulista, Rivaldo, Marcelinho Carioca, Luizão e Ronaldo.

Logo no primeiro lance do jogo, Flávio Conceição abriu o placar com uma cobrança de falta rasteira. Aos 20’, a Nigéria chegou pela esquerda dentro da área, e após um passe rasteiro em frente ao gol, Roberto Carlos desviou contra as próprias redes, marcando 1 x 1. Bebeto, aos 28’, aproveitou o rebote do goleiro após chute de Ronaldinho, e Flávio Conceição, aos 38’, ampliou após boa troca de passes. O placar indicava 3 x 1 quando os times desceram para o vestiário.

Já no segundo tempo, após boa jogada nigeriana pelo centro do campo, a bola sobrou para Ikpeba, pela esquerda e desmarcado, chutar forte e descontar para os alviverdes. O relógio já marcava 33’ e era preciso correr para tentar igualar o placar e forçar uma prorrogação.

Aos 45’, quando tudo se encaminhava para uma classificação brasileira, a Nigéria foi para o tudo ou nada. Okocha cobrou forte lateral pela direita, e colocou a bola dentro da área adversária. Um jogador nigeriano tentou chutar, fraco, e a ela obrou para Kanu, dentro da pequena área, e em uma condição difícil. Ele chutou, e nem o goleiro nem um defensor rival conseguiram anular o lance. Estava empatada a partida.

Logo aos 4’ de prorrogação, lançamento pela esquerda por parte da Nigéria. Um atleta cabeceou, ajeitando a bola para Kanu, que vinha pela região central, em velocidade. Ele dominou a bola pela esquerda, e chutou de canhota. À época, ainda existia a regra do Gol de Ouro, e a partida foi instantaneamente finalizada, com a histórica vitória africana. Porém, nem tudo foi festa por conta da vitória. Cerca de 30 minutos após o término da partida, ocorreu um incêndio de origem criminosa na embaixada nigeriana em Brasília.

Ninguém se feriu, mas estimou-se um prejuízo de R$10 mil reais por conta do fogo. Em entrevista à Folha de S. Paulo à época, Abu Bakar, encarregado de negócios da embaixada, declarou que o incêncio deveria ter sido provocado por “algum adolescente inconformado com a derrota do Brasil”, e concluiu: “Pagamos o preço pela vitória”.

A FINAL

Na grande final, disputada em 3 de agosto, o time enfrentaria a Argentina, também com nomes de respeito como Ayala, Zanetti, Simeone, Crespo e Ortega, comandados pelo técnico Daniel Passarella.

O jogo se desenvolveu de forma bastante semelhante ao Brasil: Aos 3’, Claudio Lopez recebeu cruzamento pela direita e abriu o placar, de cabeça. O empate veio de forma semelhante, aos 28’, quando Babayaro recebeu um cruzamento pelo mesmo lado, e concluiu de cabeça no mesmo canto, o esquerdo.

Nigéria e Argentina – FiFA

A diferença foi que, desta vez, os times foram para o intervalo empatados. Logo aos 5’ da etapa final, porém, Crespo retomou a vantagem nigeriana, de pênalti. O empate nigeriano viria em um novo lance de lateral. Babayaro cobrou forte, para dentro da grande área, e dois jogadores do time tocaram na bola antes dela sobrar para Amokachi estufar as redes, aos 29’.

Novamente no último lance da partida, aos 45’, Oruma cobrou falta pela esquerda, e em uma falha da defesa argentina, buscando fazer uma linha de impedimento, a bola sobrou para Amuneke, sozinho, fazer o 3 x 2 e garantir o título para a Nigéria.

Tratava-se do primeiro ouro olímpico para o futebol do continente africano, e também da segunda medalha de ouro da história da Nigéria, já que o saltador em distância Chioma Ajunwa havia conquistado o lugar mais alto do pódio alguns dias antes.

 

 


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