Em conexão na Etiópia, agentes obrigam alguns passageiros a defecar

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Aeroporto de Adis Abeba - Divulgação
Aeroporto de Adis Abeba – Divulgação

Natalia da Luz, Por dentro da África

Uma modalidade de abordar os turistas que desembarcam no aeroporto de Adis Abeba, na Etiópia, precisa ser combatida. Em agosto de 2017, o Por dentro da África denunciou uma prática que representa uma absoluta violação dos direitos humanos: alguns passageiros em trânsito pelo país são parados por agentes da imigração e são forçados a defecar. Após denúncia do site, alguns leitores entraram em contato com o Por dentro da África, inclusive, para reforçar que a prática continua vigente.

No mês passado, o brasileiro William Perez que estava a caminho do Senegal (no voo ET 0507) e fez uma conexão na Etiópia, foi vítima deste procedimento que precisa ser revisto e extinto. Ele e mais sete passageiros (todos africanos, principalmente nigerianos) foram levados para a sala de imigração, onde ficaram por mais de 4 horas e onde foram forçados a defecar.

“Por conta do meu trabalho, eu visito o continente africano inteiro e nunca passei por algo tão absurdo. Quando eu fui contar o meu caso, eu me emocionei porque fiquei imaginando a quantidade de gente (principalmente de negros africanos) que passa por isso. Se formos suspeitos de alguma coisa, obviamente, vamos colaborar com perguntas, escaners, cães farejadores… Eu já fiz isso ao desembarcar em países como Paquistão, Mianmar e Zimbábue, mas o que aconteceu aqui na Etiópia é inaceitável”, disse o brasileiro que trabalha no ramo do comércio exterior

Denúncia de Por dentro da África em agosto de 2017

Na denúncia de agosto de 2017, o Por dentro da África relatou que dois brasileiros, um moçambicano e um togolês haviam sido expostos a este tratamento. Juntos, os quatro escreveram o relato para o site. Na sala, fomos recebidos por três agentes que se recusaram a mostrar suas credenciais (viraram os crachás para que a identificação não fosse possível). Eles nem revistaram as roupas, deram apenas uma breve olhada na bagagem de mão e, em sequência, levaram um de nós para outra sala, onde imaginávamos que houvesse o raio-x. Da sala ao lado, Albino retornou aos berros dizendo que se recusaria a tamanho absurdo: ser obrigado a defecar na frente dos agentes. O moçambicano, que estava há quatro anos estudando no Brasil, retirou da mochila sua monografia em Ciências Sociais afirmando que era estudante e não traficante de drogas.’ Leia a reportagem completa aqui

Do lado de fora da sala de imigração - Por detro da África
Do lado de fora da sala de imigração – Por dentro da África

“Eu estava na sala e um dos agentes apontou para mim, pediu que eu o seguisse. No cômodo ao lado, ele disse para eu abaixar as calças. Eu fiquei em choque, mas abaixei porque achei que pudesse ser uma espécie de revista. Aí ele disse que eu tinha que defecar. Eu achei aquilo inaceitável, indescritível. Não há como você forçar algo fisiológico em alguém. Isso é muito humilhante”, contou William.

Associado a ordem de defecar, os agentes forçaram todos os sete a comer, inclusive o brasileiro. Na reportagem de agosto de 2017, Por dentro da África lembrou que a última tentativa dos agentes para fazer Anoni (togolês) defecar foi obrigá-lo a comer um prato que seria para umas quatro pessoas. “Eu já não aguentava mais… Eu disse que só estava viajando a trabalho e que não era traficante, que não tinha nada em meu estômago”, disse Anoni.

No dia seguinte, antes de pegar o voo para o Senegal, William madrugou no aeroporto da capital da Etiópia em busca de respostas e a fim de denunciar o procedimento. No balcão de atendimento, ele pediu para falar com um responsável pelo setor de imigração. Quando um atendente chegou, William explicou o que tinha ocorrido e perguntou se os funcionários tinham ciência desse procedimento. Foi aí que o brasileiro descobriu que a situação era muito mais grave do que parecia. Não foi um caso isolado praticado por agentes despreparados, mas uma prática institucionalizada.

“Com ar de deboche, ele [o agente] disse que já tinha ouvido reclamações do gênero e pediu que eu fizesse perguntas à companhia aérea, que ela poderia dar respostas. Então, fui até a Ethiopian Airlines e pedi explicações. Uma funcionária bastante prestativa disse não saber de tal procedimento e vendo meu evidente incômodo chamou um agente de imigração. O mesmo disse que eles tinham ciência e que era um procedimento que eles eram instruídos a fazer quando alguém era considerado suspeito.”

Em aeroportos de todo o mundo, raio-x, revista física e cães farejadores são métodos usados para fiscalizar passageiros que, possivelmente, estejam portando objetos ou substâncias ilícitas. Segundo o especialista em segurança e direito internacional, Faysal Mohamood, há diferentes tipos de abusos aplicados por agentes da imigração. Retirar os documentos, bagagens, celulares, interrogatórios longos e que privam o passageiro da liberdade são medidas abusivas comuns e devem ser combatidas, mas essa conduta na Etiópia é algo desproporcional.

Foto ilustrativa de aeroporto - Divulgação
Foto ilustrativa de aeroporto – Divulgação
“Por conta do crescimento do tráfico de drogas na África, há medidas de segurança que vêm se tornando comuns. Aqui na África do Sul, por exemplo, vemos com frequência o procedimento de passar o raio-x para identificar drogas no organismo. Se ainda assim houver uma grave suspeita contra o passageiro, aí, em raros casos, ele toma um laxante para ir ao banheiro, mas forçar essa medida tão radical sem justificativa, sem que haja uma suspeita, é absolutamente abusivo”, destacou o advogado sul-africano.

Além de todo o absurdo e de uma monumental inabilidade dos agentes, ficou evidente o preconceito e o racismo na conduta dos policiais. Dificilmente eles submeteriam um cidadão de passaporte britânico, canadense ou estaduniense a tamanho absurdo.

Não podemos naturalizar ou nos calar diante de ações que ferem a liberdade e que são tomadas de forma despropositadas sem qualquer justificativa. Denunciar às autoridades e ao público ajuda a combater novos abusos.

 


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