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Manifestantes angolanos em Luanda. Em destaque, está o manifestante Nito Alves – Foto: Arquivo pessoal


Por Fernando Guelengue, Por dentro da África 

O artigo foi escrito para chamar atenção da população para o cerceamento à liberdade de imprensa. No dia de 20 de junho, 15 ativistas foram presos em Luanda. 

Exigimos dignidade para repensarmos Angola. Recentemente, o país entrou em uma situação de colapso financeiro, social e político devidamente anunciado pelo mais alto mandatário do modelo de país e de nação que queremos ser. Todos os dias, assistimos o desrespeito dos direitos humanos por um lado e, por outro, a tentativa de democratização das consciências berrantes do comunismo exacerbado que foi implementado há décadas por quem nem presta atenção aos nossos verdadeiros interesses.

Os heróis da liberdade, naquela altura, lutadores dos interesses de todos os angolanos diante da exploração dos colonizadores portugueses, não pouparam esforços para dar um sentido de liberdade e dignidade aos autóctones que estavam privados de respirar o ar da justiça e liberdade de consciência, bem como pensar na mudança do quadro político que não beneficiava ninguém.

Naquela altura, tudo girava em torno de uma palavra que hoje começa a tentar ser minimizada e escandalizada. Uma palavra que contém força e une sinergias para derrubar um grande potencial de exploradores. Hoje, essa palavra é usada como uma ameaça aos líderes políticos que queiram continuar no poder. A palavra é REVOLUÇÃO!

O termo carece de adaptações inovadoras que possam deixar de perigar a vida de milhares de indivíduos que se consideram revolucionários. Os líderes de hoje foram os grandes revolucionários que associavam essa categoria de resistência à luta violenta, através do uso de armas brancas e de fogo para atingir os seus fins. Na época contemporânea, o termo passou a ser chamado de desafio político, que significa a exigência de mudança através de métodos expressamente não-violento.

Quatro dos 15 ativistas presos em Luanda –

Repito que os caminhos a serem seguidos não podem ser violentos porque todos os ditadores possuem um arsenal bélico mais do que suficiente para detonar resistências. O pensamento é o principal instrumento de mudança. Para os líderes que estão no poder, não é interessante ver quem pensa, principalmente, quando se trata de jovens intelectuais! A razão é única e não precisamos de lupa ou de suporte para ver o vírus da eternização a ser diagnosticado e combatido por pequenos pensadores que foram influenciados pelos grandes ativistas e democratizadores do mundo.

Che Guevara dizia que um jovem que não fosse revolucionário deveria ter uma falha genética. Então, eu digo, no contexto de hoje, que um jovem que não pensa na mudança é um doente mental porque existe inúmeras possibilidades de estar transtornado e frustrado quando não se atinge o épico da realização pessoal e profissional. Uma homenagem aos jovens detidos recentemente por debaterem o país numa altura de crise financeira e moral que todos enfrentamos está a ser feita desde o dia 20 de junho por toda a sociedade. E nada mais gratificante do que ouvir e ver a classe intelectual, nos mais variados segmentos da vida do país, se pronunciar sobre a má conduta dos órgãos do ESTADO envolvidos nesta borrada de suposto golpe de Estado com livros.

Isto justifica o que avancei no meu artigo anterior, no qual menciono que não são apenas os 15 que precisam de mudança, mas os jovens da nova geração e demais intelectuais comprometidos em realizar Angola. Só para dar fôlego à luta de intervenção social para se exigir mudanças, os músicos também fazem a sua parte. No meio de muitos, há o sembista angolano Paulo Flores, que participou da mais recente faixa do rapper Kid MC, intitulada “o apagão da esperança”. Na abertura, é possível ouvir a seguinte estrofe: Nossos heróis Todos morreram Da sobra “ca te” Queremos escola Da paz Queremos pão Queremos educação Dignidade em Angola Queremos!

Paulo Flores deu provas de ser um verdadeiro talento nas músicas de intervenção social angolana. Essa é, no meu ponto de vista, a música que mais deveria se ouvir ao longo deste tremendos dias de que estamos a enfentar e pelo fato do refrão ser feito pelo meu músico favorito, o kota Paulo FLORES. O mais importante nesta música me parece ser o nível de patriotismo que é mostrado e demonstrado pelo artista que pede para que todos nós não esqueçamos ANGOLA.

Isso é ser angolano e compatriota de verdade! Essa é a GERAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA E DA MUDANÇA. ANGOLA DIZ BASTA!


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Fernando Guelengue
Natural de Luanda e com raízes na província do Kwanza Sul, Fernando é licenciando em Psicologia do Trabalho e das Organizações pelo Instituto Superior Politécnico do Cazenga - ISPOCA. Atua como jornalista, escritor, poeta e consultor de comunicação. É também pesquisador em Ciências Sociais, Psicologia do Trabalho e Direitos Humanos.