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CAMPANHA PELA LIBERTAÇÃOS DOS ATIVISTAS ANGOLANOS Por Fernando Guelengue, Por dentro da África

Um sol ardente animava o clima deste sábado, 9, da cidade de Luanda. Postos num candongueiro partimos para a zona do Panguila ao encontro de um dos presos políticos em prisão domiciliária em Angola. Foi muita coincidência quando ouvimos a música do artista Kid MC, intitulada Mentes Criminosas, com uma introdução que esclarece sem precisar ouvir toda a música.

“Com o passar do tempo, várias mentes se erguiram. Mentes estas que nunca aceitaram mudar a sua forma de pensar perante o sistema, mentes que não se calam vendo as constantes situações de injustiças, e quando pensam diferente, essas mentes são vistas como mentes criminosas”.

Ouvíamos atentamente num silêncio a música que seguia dizendo que é a mente que  ameaça qualquer regime. Assim, a caminhada funcionava tranquila e sem muitos comentários no candongueiro sobre vários problemas que estavam na boca do povo.

– Vou ficar na próxima paragem. Atira um passageiro que agradeceu ao motorista por colocar músicas conscientes que libertam as mentes alienadas.

– Pode pagar mano grande – disse o cobrador que mais tarde ficou surpreso por não ver o valor completo da corrida.

“Cota, desde que a gasolina subiu estamos também a cobrar 150 Kwanzas o preço do táxi porque, com 100 kzs, não é possível fechar a conta e regressar a casa com alguma coisa para os cassules”, disse o cobrador, que também é conhecido do gerente do candongueiro.

O autor do candongueiro não conhecia a residência do mesmo ativista, o que obrigou a solicitar o apoio de pessoas que dominavam a zona.

-Mano Leão, ainda bem que estás aqui. Vamos lá ver o ativista hoje? Já não quero deixar para outro dia porque logo retomam as audições no tribunal – falei ao amigo e membro do grupo de rappers da 3 Divisão (3D).

O leão estava a esperar-me no Tanque de Cacuaco e pediu para me apressar. Eu queria que o candongueiro chegasse rápido, mas nada. Começou com o seu anda/para, anda/para. Porque faltavam muitos passageiros para lotar. Minutos depois, cheguei ao Tanque de Cacuaco. Pegamos um candongueiro diferente que seguia ao Panguila, a zona onde reside o jovem professor graduado em Relações Internacionais e um dos líderes.

Trata-se do ativista José Gomes Hata, que facilitou a nossa entrada na sua residência porque os agentes da polícia que se encontravam no local não queriam visitas porque alegavam que o horário já tinha terminado. – ‘As visitas terminam às 18 horas’ – esclarece um agente.

Chamou o chefe para intervir e, enquanto isso, o Hata espreitou para dar uma vista e ver de quem se tratava, tendo um sorriso de amizade e aproximação para facilitar o encontro.  ‘Chefe, ainda são 17h55 e pedimos que nos próximos dias estaremos mais cedo porque não sabíamos desta regra. Facilite a nossa entrada nem que para isso tenhamos que ficar uns cinco minutos! Lá dei a primeira sugestão ao grosso de militares que cuidavam do ativista. – São meus primos, deixe eles entrarem porque eles não sabiam.

Ouvimos assim a voz e a intervenção inesperada de Cheick Hata. E o chefe da operação pediu para alistar os visitantes. ‘Conseguimos! Que alívio!’, disse o amigo Leão.

Um grande abraço representava o longo tempo que ficamos sem nos ver, desde o mês de junho de 2015, naquela sala de debates que efetuavam sob lema: lutas não violentas, idealizada e ministrada pelo pedagogo e docente universitário Nuno Álvaro Dala, também sob prisão domiciliária, e ministradas pelo jornalista, filósofo e escritor Domingos da Cruz.

– Estive sempre a sua espera desde que nos colocaram em prisão domiciliária para abordamos alguns aspectos equivocados – disse o ilustre Hata.

Na mesa, encontramos vários livros e cadernos como se estivéssemos a procurar algumas respostas às várias questões enigmáticas sobre o processo, pelo que se torna compreensível na medida em que, nos bastidores do julgamento, correm questões que o tempo se encarregará de esclarecer. Haverá muita tinta no futuro. ‘Não se pode enganar todos durante o tempo inteiro’ – frisa Abraham Lincoln. Não vamos detalhar o diálogo por uma questão de respeito e ética profissional, mas em gesto de respaldo do que se abordou, o ativista está determinado com a luta e com um final positivo e justo.

Crônica referente ao caso dos ativistas angolanos presos desde junho de 2015.


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