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Natalia da Luz, Por dentro da África – 14/04/2013

Rio – Localizada ao norte da África, a Líbia é um país formado sobre uma das maiores províncias petrolíferas do mundo: detém a sétima maior reserva de petróleo do planeta e a maior da África. Estrategicamente às margens do Mediterrâneo, com 2 mil km de costa, grande parte dessa riqueza (cerca de 85%) segue sua rota para a Europa. Não por coincidência, os principais exploradores do “ouro negro” que pulsa a economia mundial também vêm do velho continente: Itália, França, Inglaterra estão entre os comandantes da exploração na Líbia, que, neste período democrático pós-revolucionário, está de portas abertas para o Brasil.

– Gostaríamos de ver as empresas brasileiras atuando em nosso território, gostaríamos de ver a experiência do Brasil nas áreas da construção civil, engenharia e, principalmente, energia e petróleo – contou em entrevista ao Por dentro da África Abdulbari Al Arousi, ministro do Petróleo e Gás da Líbia, que, no Brasil, esteve em reunião com autoridades brasileiras como o Ministro Fernando Pimentel (MDIC), Ministro Edison Lobão (MME) e Graça Foster, a presidente da petrolífera brasileira que, nos últimos anos, especialmente desde o conflito de 2011, suspendeu as suas atividades de exploração no país árabe.

Mapa da Líbia Al-Arousi revelou o desejo de que a companhia brasileira amplie sua presença na Líbia e que, se depender do seu governo, a empresa poderá desenvolver uma parceria equilibrada e mutuamente lucrativa para explorar a maior riqueza do país africano de cerca de 7 milhões de habitantes. A tecnologia da Petrobras em águas profundas daria o suporte necessário para aquele pais.
Na década de 70, a brasileira atuou em projetos on shore e, em 2005, retornou à Líbia com o objetivo de explorar blocos de óleo e gás off shore. Durante a rodada de licitações da estatal National Oil Corporation, em meados da década passada, a empresa brasileira recebeu os direitos exploratórios da Área 18, localizada no noroeste do país, no mar Mediterrâneo, com profundidade de até 700 metros.

Motor do país 

Segundo relatório da OPEP de 2011, a reserva de petróleo da Líbia (48 bilhões de barris) é a sétima maior de todo o mundo, atrás dos seguintes produtores: Venezuela, Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes. O país iniciou a sua exportação de petróleo em 1961, dez anos após a sua independência da Itália e oito anos antes da instalação da terrível ditadura de Gaddafi, que durou 42 e comandou o país até 2011, sob o égide do terror e do atraso. Em 1962, a nação tornou-se membro da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Hoje, a sua produção é majoritariamente de petróleo leve (com baixo teor de enxofre) e supera os 1.6 milhão de barris diários, quantidade que a autoridade líbia deseja multiplicar.

Ministro do Petróleo e Gás da Líbia Abdel Arousi - Foto: Natalia da Luz

– O petróleo tem uma importância máxima para nós porque ele sustenta o nosso país, ele é a peça chave de todo o nosso desenvolvimento. O Brasil tem uma larga experiência nesse setor. Queremos aumentar essa produção e precisamos de ajuda para aprimorar mais e mais essa indústria  – conta o engenheiro, destacando que a matéria-prima representa 95% das exportações do seu país, que vem avançando cada vez mais em anos recentes em direção à agregação de valor dos chamados produtos do “down stream”.

Neste momento de transição, a nova Líbia busca direcionar as suas instituições para a elaboração da nova Constituição, entre o final de 2013 e início de 2014. A expansão dos setores do petróleo e gás e petroquímico é crucial para fomentar a reconstrução da nação que passou quatro décadas sendo minada por uma das mais terríveis tiranias no mundo.

– Financeiramente, temos que manter essa indústria forte. Nós temos muitos desafios e sabemos que não será fácil. Para aumentar a nossa produção para 2 milhões de barris por dia, contamos com a Petrobras. Eu estou certo disso e absolutamente disponível para discutirmos e encontramos caminhos que possam fomentar uma parceria entre os dois países e viabilizar contratos com empresas brasileiras – disse confiante.

O Brasil na nova Líbia 

Bandeira do Brasil e Líbia no estádio Internacional de Tripoli - Foto: Natalia da Luz Desde o reconhecimento do novo governo líbio, em setembro de 2011, o Brasil vem fortalecendo o seu elo com o país africano. O vice-primeiro-ministro Omar Abdulkarim esteve no Brasil em abril de 2012, em encontros com o Vice-presidente Michel Temer e quatro ministros, manifestando interesse em avançar a cooperação entre os dois países. Na capital Trípoli, o Brasil reabriu, em agosto, a embaixada no país sob o comando do embaixador Afonso Carbonar, que vem se dedicando ao processo de retomada e aprofundamento do diálogo e cooperação entre os dois povos e governos.

– Saúdo o Ministro Abdulbari Al-Arousi e sua comitiva pela iniciativa e capacidade de trabalho em múltiplas frentes na atual fase da Líbia. O grande conhecimento do setor energético aliado a uma sensibilidade especial para as demandas sociais fazem dele um importante interlocutor e viabilizador de iniciativas relevantes no plano bilateral. Estamos muito contentes com os resultados da importante missão ao Brasil. Foi uma visita pioneira que abrirá novas avenidas para a colaboração entre os dois países, para o bem comum de nossos povos – destacou o embaixador que, acompanhará a visita do vice-primeiro-ministro líbio Abdusalam Al-Qadi ao Brasil a partir desta segunda-feira.

Arousi espera que o Brasil seja um parceiro oficial em diversas áreas de desenvolvimento. Não apenas em infraestrutura, em tecnologia, mas também nos segmentos cultural e social.

– Não vamos expulsar os antigos parceiros como a Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos, países árabes, mas queremos o Brasil participando – disse, completando que o perfil brasileiro não é apenas de explorador, mas de apoiador solidário, como faz em tantos países do mundo. Com isso a simpatia pelo Brasil e pelo povo brasileiro tem aumentado.

Rua de Tripoli - Natalia da LuzNa era democrática, Al-Arousi destaca que o objetivo do país é construir novas relações de negócios com pessoas de diferentes culturas em benefício mútuo para as partes envolvidas e a Líbia.

– A Líbia está olhando para o futuro e queremos que o governo brasileiro e empresas vejam isso. Temos quatro das maiores empresas brasileiras presentes em muitos projetos. Queremos fazer novos contratos: somos um país de regras estáveis, de enorme dinamismo e oportunidades, temos uma população jovem; queremos que na nova Líbia a parcerias sejam equilibradas e reciprocamente benéficas  – e é isso que estamos defendendo – um tabuleiro em que todas as peças ganhem.

Ruas de Tripoli - Foto: Natalia da LuzNão apenas socialmente, mas economicamente, a Líbia trilha um novo caminho. A revolução de 2011, que tirou do poder Gadafi, após 42 anos de ditadura, foi um novo início da história para o país em reconstrução. A maior parte das sanções da ONU que haviam congelado os ativos do país no exterior –  cerca US$ 170 bilhões – foi suspensa, permitindo que o Banco Central da Líbia mantenha a paridade cambial e garanta liquidez aos bancos.

– Temos muitos recursos, muitos interesses e semelhanças entre os povos brasileiros e líbios. Vocês têm um calor danado, mas em geral é tudo ótimo – brincou o ministro completando que, na area de infraestrutura, está satisfeito com o trabalho das empresas brasileiras.

Entre os projetos das representantes brasileiras estão: a Odebrecht, responsável pela construção do Aeroporto Internacional de Trípoli e o terceiro anel viário da cidade; a Queiroz Galvão, com seis obras de infraestrutura na região de Benghazi e a Andrade Gutierrez, que possui atividades em quatro obras de reurbanização em Trípoli.

Similaridades que ajudam nas relações internacionais 

Foto: Abdusalam Shlebak Absi Durante a conversa, Al-Arousi discorreu longamente sobre as similaridades entre os dois países, destacando o futebol como uma ferramenta e uma paixão para aproximar Brasil e Líbia. A experiência do país-sede da próxima Copa do Mundo, teria muito a contribuir para o plano da Líbia em sediar a Copa Africana de Nações, em 2017.

– Temos a pretensão de organizar a Copa Africana daqui a quatro anos e gostaríamos muito de contar com o apoio do Brasil. Os líbios conhecem o Brasil por causa do futebol. É uma relação de admiração – conta Arousi, lembrando a importância do primeiro jogo de futebol entre dois países no período democrático, realizado em fevereiro deste ano (um esforço do Ministério dos Esportes Líbio, da embaixada brasileira em Trípoli, do presidente da comissão parlamentar Brasil-Líbia Adrian Mussi e das empresas brasileiras em atuação no pais: Odebrecht, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez).

 


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