Quênia: “Assim como em 2007, essas eleições parecem encobrir emoções étnicas”, diz ativista

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Eleições - The Star Kenya
Eleições 2007 – The Star Kenya

Natalia da Luz, Por dentro da África

Nairobi – O resultado das eleições presidenciais no Quênia, realizadas na última terça-feira (8), indicou o atual presidente Uhuru Kenyatta (JP) como o vencedor, com 54,3% dos votos contra 44,7% de Raila Odinga (NASA). A oposição contesta dizendo que há fortes indícios de fraude. Manifestações contra o resultado provocaram a morte de 24 pessoas em diferentes cidades do país. Nesta segunda, a oposição incentivou novos protestos e uma greve geral.

“A oposição afirma que a base de dados da Comissão Independente Eleitoral foi alterada
e que, portanto, não reconhecerá Uhuru como presidente. Assim como em 2007, essas eleições parecem encobrir as emoções étnicas”, disse o ativista queniano Mike Thambo, em entrevista ao Por dentro da África.

Após as eleições de 27 de dezembro de 2007, cerca de mil pessoas morreram em confrontos em diversas partes do país. Centenas de milhares foram deslocadas. Na ocasião, o candidato Mwai Kibaki foi considerado reeleito para um segundo mandato de cinco anos, mas Raila Odinga contestou o resultado.

Protestos após eleições de 2007 -Photo/FILE
Protestos após eleições de 2007 -Photo/FILE

“O que tem de diferente desta vez é que as alianças tribais mudaram muito. Em 2017, enquanto os Kikuyu e Kalenjin formaram uma coalizão de duas tribos, a oposição reuniu todos os outros 40 grupos étnicos do país”, explicou Thambo.

Criado em janeiro, o National Super Alliance (NASA) reúne partidos como o Orange Democratic Movement (ODM), Wiper Democratic Movement (Wiper), Forum for the Restoration of Democracy – Kenya (FORD-Kenya) e Amani National Congress (ANC). O grupo lançou um manifesto afirmando comprometimento com questões como segurança alimentar e criação de empregos (o desemprego no país está próximo dos 40%).

Criado em setembro de 2016, o Partido Jubileu do Quênia, do atual presidente, concentra 10 partidos com Chama Cha Uzalendo (CCU), Republican Congress (RC) e The National Alliance (TNA).

Odinga - Divulgação
Odinga – Divulgação

Por conta da escalada de violência nas eleições de 2007, Uhuru Kenyatta foi acusado no Tribunal Penal Internacional, mas o caso foi arquivado por falta de provas.

Odinga, que contestou o resultado de 2007 e contesta agora, tem o apoio dos Luo, um grupo cuja rivalidade com o Kikuyu definiu grande parte da história pós-independência do Quênia. Os Luo são um grupo étnico que habita o território queniano e áreas de Uganda, Etiópia, Sudão do Sul e Tanzânia. No Quênia, representam cerca de 13% da população.

Kenyatta – Divulgação

Kenyatta, da etnia Kikuyu, é filho do primeiro presidente do Quênia. O nome “Uhuru” significa “liberdade”, na língua swahili. Os kikuyu representam cerca de 20% da população total do país, que tem quase 50 milhões de habitantes.

“Como em 2007, a oposição afirma que o processo foi prejudicado pelo governo.
As emoções étnicas foram a marca das duas campanhas eleitorais, e a oposição perdeu desde aquela eleição até 2017, 10 anos depois”, lembrou Thambo.

Em entrevista ao Financial Times de Londres, Odinga afirmou que, após sucessivas derrotas, ele não será mais candidato. O queniano insiste que os processos eleitorais foram fraudados.

Nesta semana, a Comissão de Direitos Humanos do Quênia disse ter detectado discrepâncias entre os dados do site e contagens declaradas em seções de voto. Quase 16 milhões de quenianos participaram das eleições para eleger presidente, governadores, deputados e senadores. Há 10 anos, eram 14 milhões de eleitores.

A participant casts her ballot at a mock elections training carried out in Nyeri county by the Nyeri Social Forum. (Photo: Ricardo Gangale/UNDP Kenya)

A participant casts her ballot at a mock elections training carried out in Nyeri county by the Nyeri Social Forum. (Photo: Ricardo Gangale/UNDP Kenya)

“Após a declaração de Uhuru como presidente, manifestações começaram em diferentes áreas do país com policiais usando força excessiva para coibi-las. Isso aconteceu em lugares que são como fortalezas da oposição, como Nairobi, Kisumu e Mombasa. Nesse momento, o que a  oposição quer é a releitura dos votos ou o cancelamento do pleito”, explicou o ativista.