Família de militante desaparecido na ditadura recebe diploma na PUC

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Quinho jovem – Arquivo pessoal

Por Rodrigo Arreyes, Por dentro da África

A diplomação de João Maria Ximenes de Andrade (em 19 de novembro) foi um ato e prova de que os crimes da ditadura não devem ser esquecidos pela sociedade brasileira. Militante de base na periferia, estudante de Economia da PUC-SP desde 1961, negro e comunista, “Quinho”, como era chamado carinhosamente pela família, foi sequestrado pela ditadura em 1974, na zona norte de São Paulo. A abertura e o encerramento do ato tiveram a participação do ator Dinho Lima Flor. Eu, que aqui escrevo, sou o sobrinho-neto do Quinho.

O diploma simbólico deu lugar à reparação concreta, a denúncia da impunidade dos genocidas e o pedido de justiça. Atualmente, falar sobre o Quinho ou sobre outras vítimas da ditadura no Brasil parece ser uma ameaça para os privilégios e a impunidade dos grupos que defendem a ditadura. As mentiras são defendidas por esses grupos com armas na mão, ameaçando e até matando.  

Leia mais: A história de um militante negro sequestrado pela ditadura 

A potencialização da violência brasileira não é consequência da mentira sobre o próprio passado? Por que multiplicam as milícias e as ilegalidades dia após dia? Lendo a biografia do Quinho, falando sobre a dor das famílias durante a ditadura e condenando a reivindicação deste passado como algo heróico, tomamos o sentido contrário do negacionismo, que ataca as vítimas do passado e, diariamente, mata pessoas, especialmente negras. Sem justiça, o pior do passado ingressa como alimento envenenando o presente.

Na sala, por uma hora e meia, com flores, quadro e cartaz do Quinho, vimos que um desaparecido não é uma questão menor para o nosso futuro. Fotos, documentos, livros e outros objetos seus, que foram guardados por minha avó por muitos anos em caixinhas, estavam reunidos na minha mochila e foram mostrados pela professora Heloísa de Faria Cruz. Tudo que podia ser revelado sobre o Quinho estava neste ato.

Família de Quinho – Foto de divulgação da PUC-SP

Antes deste dia, nada parecia possível, pois tantos anos passaram e ninguém acreditava que ouviriam a nossa família. O desaparecimento forçado de Quinho, em 1974, foi reconhecido pela reitora da PUC-SP, que lembrou a importância do dia. 

“É o ato de reconhecimento de uma vida, da existência de um jovem em luta por um mundo melhor. Esta universidade faz, com muito orgulho, a sexta diplomação e homenagem aos nossos estudantes desaparecidos e seus familiares. Quero dar as boas vindas a todos, mas especialmente aos familiares do João Maria.”  

Homenagem a Quinho – Foto de PUC SP

Rosalina Santa Cruz (Comissão da Verdade da PUC) destacou a PUC como foco de resistência à ditadura e lembrou que a Comissão da Verdade da PUC permitiu a participação da comunidade nesses fatos, denunciando e valorizando aqueles que resistiram à violência.

“O surgimento da Comissão Nacional da Verdade foi muito diferente quando consideramos outros países da América Latina. Fomos o último país em criar uma! Deixamos que os militares se auto-anistiassem. Eu sou de uma família que é profundamente atingida pela violência do Estado brasileiro durante a ditadura. Eu fui presa, expulsa da universidade. Depois da minha prisão, o meu irmão foi expulso da universidade, teve que sair do país. Depois, meu outro irmão, Fernando Santa Cruz, foi preso no Rio de Janeiro e até hoje nunca tivemos notícias do seu corpo.” 

Família de aluno desaparecido durante a ditadura recebe diploma da PUC-SP

Carteira de estudante de Quinho – PUC-SP

Esse passado é dolorido, mas fatos sombrios do presente nos rodeiam. Como destacado por Adriano Diogo, na véspera do feriado da Consciência Negra (20 de novembro), o coronel Tadeu, eleito pelo PSL de São Paulo, destruiu uma obra de arte do cartunista Carlos Latuff, que denunciava o genocídio da população negra no Brasil. Na mesma semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, falava em ressuscitar o AI-5, decreto que, durante a ditadura brasileira, contribui para produzir mais violência. 

Adriano Diogo também relatou a destruição do Laboratório de Antropologia Forense da UNIFESP (CAAF), explicitando que a Comissão de Mortos e Desaparecidos está sob intervenção, pois, entre outros fatos, a atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, ordenou transladar o trabalho da CAAF para a Polícia.

Depois do professor Antônio Carlos Mazzeo, que falou do Partido Comunista na zona norte de São Paulo na época, Janaína Teles, sequestrada pela ditadura aos cinco anos junto com o irmão e os pais, lembrou sobre o luto inconcluso dos familiares de desaparecidos.

“É um crime permanente e contra pessoas que foram mortas sob tortura, o qual pode ser julgado em qualquer momento em qualquer lugar. Nossa família conseguiu a condenação do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra fazendo a denúncia neste sentido”, contou Janaína, destacando o papel importante dos familiares para a construção do banco genético, que permite o reconhecimento das ossadas dos desaparecidos, como as encontrados na Vala de Perus. Depois dela, também falaram professoras e estudantes, que fizeram a leitura da biografia do Quinho e denunciaram as políticas autoritárias e violentas atuais.  

Helena, irmã de Quinho recebendo o diploma – Foto de PUC-SP

Por fim, foi entregue o diploma para minha tia Helena. Com 90 anos, ela botou salto alto e jeans e subiu do Jaçanã para estar presente. Vejo a foto dela recebendo o diploma e me emociono. Ela foi a única das irmãs do Quinho que pode estar na diplomação. 

Este dia foi especial não só para a minha família, para a Comissão da Verdade da PUC ou para os presentes. É preciso não deixar que os crimes cometidos durante a ditadura sejam esquecidos pela nossa sociedade, por isso queremos divulgar a história do tio Quinho. Nossas ferramentas para colher o que ele deixou foram palavras, imagens, amor e o profundo desejo de um mundo melhor.

Participaram do ato: Maria Amalia Andery (reitora da PUC-SP), Rosalina Santa Cruz (Comissão da Verdade PUC) Carlos Mazzeo (professor da PUC e militante do PCB) Janaína Teles (Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e presa política aos cinco anos), as professoras Beatriz Abramides e Ana Amélia da Silva, os estudantes Hans Quelca, Luccas Espinoza e Vicente Arouche e, nós, os familiares.


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