Ativistas africanos lançam campanha para visitar presos na Eritreia

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Eritrean refugees hold placards during a protest against the Eritrean government outside their embassy in Tel Aviv, Israel May 11, 201

Por dentro da África  

Cem grandes jornalistas africanos, defensores da democracia e dos direitos humanos lançaram um apelo ao presidente da Eritreia, Isaias Aferwerki. Numa mensagem de solidariedade com todo o povo da Eritreia, o grupo pede autorização para visitar ativistas presos no país.

Um dos membros do grupo, o jornalista e ativista angolano Rafael Marques destaca que essa iniciativa tem como propósito unir forças e vozes para combater os abusos de direitos humanos que afetam os eritreus. Muitos dos presos políticos estão há mais de uma década sem manter qualquer contato com a família.

“Artistas, jornalistas e escritores foram colocados na prisão sem qualquer justificava. Não sabemos nem as condições em que estão vivendo todos esses anos. É preciso fortalecer esse movimento de solidariedade entre nós, africanos, para que possamos lutar contras as injustiças que nos atingem”, disse o defensor de direitos humanos ao Por dentro da África.

O grupo que inclui escritores como Paulina Chiziane (Moçambique), Whole Soyinka (Nigéria), Alain Mabanckou (Congo) e o ativista John Githongo (Quênia) manifestou preocupação com o clima hostil que prevalece na Eritreia, especialmente para jornalistas, opositores ao governo e ativistas dos direitos humanos.

Com uma população de cerca de 5 milhões de habitantes, a Eritreia é um Estado de partido único que não realiza eleições legislativas desde a independência, em 1993. De acordo com a Human Rights Watch, o registro de direitos humanos do governo da Eritreia é considerado um dos piores do mundo. Como todas as mídias locais são de propriedade estatal, a Eritreia é classificada como a segunda pior liberdade de imprensa no Índice de Liberdade de Imprensa, atrás da Coreia do Norte.

Eritrean President Isaias Afwerki reviews the honor guard during his welcome ceremony in Khartoum, Sudan, June 11, 2015. ASHRAF SHAZLY/AFP/Getty

Leia o documento original aqui 

Sua Excelência, o Presidente Isaias Aferwerki:
Escrevemos para transmitir as nossas mais sinceras felicitações pela normalização das relações diplomáticas com a Etiópia. Este é um desenvolvimento muito apreciado por todos os africanos de boa vontade.

Escrevemo-vos na nossa qualidade de cidadãos de África para manifestar a nossa solidariedade para com todo o povo da Eritreia. Isto inclui os muitos eritreus que vemos a suportar todo o tipo de riscos e sofrimentos em busca de uma vida melhor fora da sua terra natal. Reconhecemos que também nós somos oriundos de nações com diferentes níveis de governação e desafios de desenvolvimento. Escrevemos-vos, no espírito da solidariedade pan-africana, para procurar soluções comuns para os nossos problemas comuns.

Os muitos e díspares Estados-nação de África sofreram mudanças significativas e diversas ao longo das últimas duas décadas. Hoje, muito mais africanos vivem em liberdade do que sob repressão. É importante ressaltar que os países africanos que fizeram mais progressos – incluindo atrair investimento e turismo – nos últimos 25 anos foram aqueles cujos cidadãos gozam de maior liberdade de expressão, imprensa e movimento, Estado de direito, um sistema judicial independente e pluralismo político.

Infelizmente, nestas áreas críticas, a Eritreia não acompanhou o ritmo das mudanças observadas noutros locais. Ao longo das duas últimas décadas, a Eritreia tem sido descrita como a sociedade mais fechada do nosso continente, uma situação lamentável para um país com um capital humano e um potencial tão ricos, com tanto para oferecer não só a África mas também ao mundo.

Confiamos que, abrindo este canal de comunicação com Vossa Excelência, nos seja dada a oportunidade de trabalhar convosco para restaurar o vosso país e o grande povo da Eritreia ao seu legítimo lugar na família das nações africanas.

Particularmente preocupante para nós é o destino de vários jornalistas e ativistas que estiveram detidos durante longos períodos de tempo na Eritreia, a muitos dos quais foram alegadamente negadas visitas regulares das suas famílias e entes queridos.

Estamos igualmente desanimados com o sofrimento de muitos milhares de africanos, incluindo alguns eritreus, que se sentem compelidos a fugir dos seus países de origem em busca de uma vida melhor para si próprios e para as suas famílias, arriscando a vida e os seus membros e suportando privações e indignidades desumanas nos desertos e oceanos.

Muitos destes concidadãos africanos encontram-se nas mãos vorazes de comerciantes de escravos e traficantes de seres humanos modernos, fazendo com que alguns deles acabem mesmo por ir parar aos mercados de escravos em lugares como a Líbia. Muitos destes migrantes e refugiados pereceram no mar em busca de uma vida melhor.

Nós, africanos, somos abençoados com demasiadas coisas nos nossos países de origem para que os nossos cidadãos sofram e sejam desvalorizados desta forma. Este quadro sombrio precisa de mudar, e é neste espírito que dirigimos esta mensagem de solidariedade a Vossa Excelência.

Pedimos respeitosamente a Vossa Excelência que permita que uma delegação dos signatários do presente documento visite a Eritreia e que nos dê a oportunidade de nos encontrarmos consigo e com o seu governo, bem como com cidadãos comuns, incluindo jornalistas, escritores e outras pessoas atualmente na prisão.

Tal como com o corajoso passo que deu para normalizar as relações com a Etiópia, acreditamos que um gesto deste tipo contribuiria em muito para acabar com o isolamento da Eritreia em relação à família africana em geral e poderia ajudar a inaugurar uma nova era de prosperidade e liberdade para o seu povo. Seria uma honra fornecer-lhe qualquer informação adicional que possa necessitar de nós e aguardamos ansiosamente a sua resposta.


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