Teses e Monografias: “Diáspora em casa? A Saga dos Falachas”

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Jewish Virtual Library

Por dentro da África

Autor: Jorge Narciso de Matos

Universidade: Universidade de Sorocaba, Brasil, 1998

Falecido em 2005, Jorge Narciso foi o coordenador do Núcleo de Cultura Afro-brasileira da Universidade de Sorocaba. A tese foi enviada pelo colaborador Ademir Barros dos Santos, parceiro de trabalho de Jorge Narciso. 

Durante uma guerra civil na Eritreia / Etiópia, o Estado de Israel empreendeu a grande tarefa conhecida como Operação Moisés que tinha a finalidade de retirar os judeus negros (falachas) daquele cenário. Este trabalho apresenta o resultado de estudos feitos a partir daquele momento da história. Aspectos étnicos e religiosos foram ambos considerados para a análise do papel do Povo de Israel no mundo. De forma a identificar e quantificar a genealogia bíblica do povo negro encontrado professando o judaísmo, especialmente no nordeste da África, nós retrocedemos na história e analisamos aspectos apresentados no Velho Testamento.

APRESENTAÇÃO 

Nosso primeiro contato com o assunto ora pesquisado deu-se quando, dentre os temas internacionais tratados pela revista “Veja”, noticiava-se a “Operação Moisés”: nada mais, nada menos que a “montagem”, por Israel, de uma “ponte aérea secreta”, destinada a retirar milhares de judeus negros da Etiópia, ameaçados de morrer por falta de alimentos.

A operação decorria da conflagração intestina então em curso naquele país, onde um movimento separatista (Tibre e Eritréia) era violentamente reprimido pelo Governo do presidente Gaafar Nimeiry, reativando os tristes movimentos de migração da Etiópia para o Sudão; a situação, recorrente em si, além do aspecto humanístico, pequena comoção causava à comunidade mundial.

O aspecto diferencial encontrado foi a menção de “negros judeus” – os falachas – que o Estado de Israel, ousadamente em termos de relações internacionais, buscava se tornar relevante, então, ampliar o conhecimento das circunstâncias que levaram à existência, no chamado Chifre da África, de uma comunidade negra professando. Quando se empreendeu a pesquisa preliminar, a curiosidade aguçou-se porque, após consulta a significativo número de obras de referência, raras vezes o verbete “falacha” era encontrado, sendo o mais abrangente o contido na Enciclopédia Ilustrada Epasa, v. 23, p. 118/119 que, a seguir, vai transcrito:

Reprodução – Jewish Community in Gondar, Ethiopia

FALACHAS – (errantes) Raza de Absinia en el reino Amhara. Pretendió ser raza judía y descender de emigrantes que salieron de Israel durante el período de disturbios del reinado de Jeroboan y época siguiente. Se ignora si en efecto son judíos ó simplemente nietos de los prosélitos que el judaísmo hizo en el período de relaciones íntimas entre Israel y Absinia. Practican ritos judíos, pero no conocen el Talmud de Babilônia ni de Jerusalén, no usan el tefillin ni observan el ayuno de Purim y el de dedicación del templo. Tienen en lengua gaez, antiquíssimos dialectos que es la base de la lengua amharica, los libros canónicos y apócrifos del Antiguo Testamento y otros varios como vidas de Abhahan y Moisés y una traducción de Josefo. Con sus ritos mezclan, empero, otros paganos; toda casa se considera inhabitable hasta que se ha vertido en ella la sangre de un aneó de un carnero; la mujer que ha faltado á la castidad ha de purificarse saltando en una hoguera; el sábado está deificado y la diosa Sunbat tiene, según ellos, diez veces 10.000 ángeles á sus órdenes. Hay un sistema monástico que se cree introducido en el siglo IV y nadie puede entrar en las viviendas de los monjes.

Los sacerdotes no practican el celibato, mas no pueden contraer segundas nupcias y no se admite á nadie que haya comido con un cristiano, o sea hijo ó nieto de un tal. La educación está en manos de los sacerdotes. Practican ayunos en determinados días y celebran como fiestas anuales la Pascua, la de la Asanblea y el de Abrahan. Creen que después de la muerte, el alma permanece en un lugar obscuro y hasta el tercer día, en que se ofrece el primer sacrificio por el muerto ó kaskar. No usan ataúdes y cubren el cadáver con una bóveda de piedra, á fin de que no tenga contacto con la tierra. Son gente activa y viven en aldeas especiales ó al menos en barrios separados.

Também em outras obras referenciais, embora com diferentes grafias (falachas, falaxas, falaschas, falachas), são encontradas outras definições, sendo unívocas a etimologia (os exilados), a origem (judaica), população (entre 200 e 250 mil indivíduos) e a proposta inicial de busca à ampliação do conhecimento sobre a convivência de um grupo de diferenciada composição, interagindo no Continente Africano, embora tenha e preserve raízes culturais fora dele, tem sido perseguida, havendo já algumas hipóteses que confirmam e ampliam informações preliminares relacionadas com os fundamentos da prática do judaísmo com maior ortodoxia, em alguns aspectos, pelos Falachas.

1.1. DIÁSPORA JUDAICA

A diáspora judaica tem sido de tal forma estudada que o termo “diáspora” passou a identificar-se com a dispersão desse povo. Em verdade os judeus, mesmo após a conquista de Canaã, continuaram a dispersar-se por iniciativa própria, embora em pequena escala; neste sentido, é notório o pouco interesse em voltar à terra natal após a libertação da Babilônia – concedida por Ciro e confirmada por Artaxerxes (Assuero), introduzindo a festa do Purim.

Da mesma forma, é sintomática a existência da pujante comunidade judaica em Alexandria, Egito, cuja origem remonta à ocupação de Judá por Alexandre que, ao tentar expandir o helenismo na Palestina, indiretamente incentivou a migração judaica para centros mais adiantados.

No entanto, o estudo da diáspora judaica após 70 d.C., com a destruição que os romanos – comandados por Tito – impuseram ao Segundo Templo, nem sempre considera o principal fator cultural judaico: a religião, elemento de coesão e mantenedor de grande parte da tradição hebréia durante quase dois milênios de dispersão.

Embora em contato com diferentes povos e culturas dos cinco continentes, a despeito dessa diversidade e de vários idiomas adotados nos caminhos da Diáspora, ritos e orações continuaram proferidos, na maioria das vezes, em hebraico – o “Lashon Kodesh”.

 

Leia a monografia aqui A Saga dos Falachas

 


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