Pesquisa: “O Complexo de Negro”, por Nuno Álvaro Dala

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Divulgação do filme “12 anos de escravidão”

Nuno Álvaro Dala, Por dentro da África 

Luanda – Milhões de negros recorrem a tratamentos que visam tornar a pele clara, no sentido de que esta se aproxime às tonalidades da pele branca. Tal prática é tanto de africanos como de afrodescendentes (afro-americanos, afro-brasileiros, afro-europeus, etc).

Quanto aos africanos, podemos mencionar os congoleses e angolanos de origem bakongo assim como muitos outros que se revêm em práticas lusotropicalistas, que recorrem a cremes, sabonetes e outros meios que tornam a pele mais clara. Ora, a que se deve este fenómeno? Certamente, tais pessoas dariam diversas respostas para justificar esta prática já tida como cultural, pois remonta há várias décadas.

Entretanto, devemos recorrer à ciência para nos ajudar a compreender este e outros fenómenos. É assim que a História, a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia e a Filosofia ser-nos-ão de grande utilidade.

Nos últimos 500 anos, os africanos passaram por diversas peripécias, as quais nos permitem identificar os elementos do complexo de negro.

O complexo de negro é a perturbação psicossocial que consiste em pessoas do tipo negroide considerarem a si mesmas seres inferiores e incivilizados pelo facto de serem negras.

Quais são, então, os elementos do complexo de negro?

Em primeiro lugar, à luz da semiótica das cores, em praticamente todas as culturas, o PRETO [negro] representa a ausência de luz, ou seja, ESCURIDÃO. Na arte, a gramática cromática universal – entre outros – apresenta o PRETO [negro] como contraste do BRANCO, esta cor que é a estrutura semiótica que essencializa a luz, o estado de equilíbrio dialético positivo entre as coisas, enfim, a paz. No seguimento das inferências semióticas, PRETO [negro] representa LUGUBRIDEZ, DESGRAÇA, INFELICIDADE, MORTE!

Certamente, as percepções semióticas, que – em si – nada têm de anormal, resultam duma dialética que o homem trava com a Natureza, realidade que ele procura permanentemente desvendar de diversas formas, tanto por razões de sobrevivência como por esforços deste em compreender o meio. Todavia, o processo dialéctico também se esbarra em conflitos. Um destes conflitos reside na forma como o homem encara o Outro.

Assim, em segundo lugar, temos o complexo de superioridade e da autorreferência.

Limitados pelo seu meio e pela sua cultura assim como pela autorreferência, os primeiros contatos entre seres humanos de diferentes tipos produziram situações de conflito. É assim que quando os europeus pela primeira vez, no século XV, entraram em contato com os africanos, a reação de ambas as partes pelo estranho tanto consistiu na novidade e no interesse como nas atitudes de superioridade. Ora, quanto a isso, o complexo de superioridade rapidamente tomou conta dos europeus.

Os africanos, além da sua cor preta [negra], vista como de seres inferiores, também passaram a ser vistos pelos europeus como incivilizados. As narrativas de uma “África sem civilização e sem História” se refletem em discursos como os de Hegel, e contribuíram nos discursos e nas práticas discursivas de consolidação do colonialismo, processo iniciado algum tempo depois dos primeiros contatos Europa-África.

escravidaoPelo exposto acima, em terceiro lugar temos o colonialismo, sustentado pelos discursos de supremacia do homem branco sobre o negro, que também contribuíram tremendamente para um dos maiores holocaustos humanos da História: a escravatura.

Deste modo, em quarto lugar temos a escravatura. Durante séculos, os africanos foram tratados e traficados como meros produtos comerciais.

A escravatura danificou seriamente a autoestima dos africanos. Séculos de tratamento desumano produziram sérias lacerações no tecido de autoimagem e respeito próprio dos africanos (escravos e seus descendentes). O fim da escravatura não representou o fim da autoestima destruída. Na verdade, mais de 150 anos depois do fim da escravatura, a autoestima do negro continua afetada.

Uma razão desta realidade reside no fato de que – depois da escravatura –, em diversas sociedades os negros não passaram a ser encarados e tratados como cidadãos do mesmo estatuto que os outros (brancos). Aliás, ao contrário do que se imagina, não é que todas personalidades que fizeram advocacia pelo fim da escravatura fossem todas pessoas com um pensamento filosófico-político livre de equívocos ou ideias racistas. Um exemplo é de Abraham Lincoln.

Abraham_Lincoln – Foto de Alexander Gardner – Wikipedia

Lutador incansável pelo fim da escravatura dos negros nos Estados Unidos, Abraham Lincoln – porém – não achava que os negros fossem parte dos “…seres humanos que nascem iguais…”, como escreveu Thomas Jefferson, no preâmbulo da Constituição dos EUA. Neste país – depois da abolição da escravatura, na década de 1860 – os negros, de fato, deixaram de ser servis, mas passaram a um nível de “cidadãos de segunda categoria”, inferiores aos brancos. Estes passaram a ser cidadãos segregados, apartados dos brancos.

Deveras, a segunda metade do século XIX foi um período marcado por amplos e acirrados debates de duas grandes correntes: a conservadora e racista, por um lado, e a corrente progressista liberal, por outro. No seu Ensaio Sobre as Desigualdades das Raças Humanas, Arthur de Gobineau, dividiu a espécie humana em três “raças” (negra, amarela e branca), argumentando que cada uma delas possui caracteres permanentes que seriam transmitidos de forma hereditária. Esta teoria absurda e desprovida de cientificidade serviu para justificar a escravatura.

Evidentemente, o trabalho de Gobineau foi contestado e foi alvo de refutação por parte de outros intelectuais, que – entre outros – se fundamentaram em obras de Montesquieu, Helvétius e Abbé Gregoire, cujo pensamento e intervenção eram claramente contra o racismo e a subjugação dos negros. Com o tempo, ficou evidente a conscientização geral em como os progressos do mundo de então não mais se compadeciam com a escravatura dos negros em todas as suas formas. Foi então abolida a escravatura, que foi – porém – seguida do estabelecimento de estatutos ou condições mais ou menos distanciadas das práticas esclavagistas, tais como o trabalho forçado e o regime de contrato.

Divulgação do filme “12 anos de escravidão”

Nos Estados Unidos, em lugares públicos (restaurantes, bares, salas de teatro e de cinema, refeitórios, etc.) havia as placas “White” (seção para pessoas brancas) e “Coloured” (seção para “pessoas de cor” [Negroes, como também eram chamados]). Este quadro de ampla e profunda discriminação imposta por uma América racista durou 100 anos, e apenas chegou ao fim com as profundas reformas dos anos 1960, fruto das audazes e tenazes lutas dos movimentos pelos direitos civis dos negros, que contaram com grande apoio filosófico-político de figuras de relevo como W.E.B DuBois, e da liderança de figuras como Martin Luther King Jr., Malcolm X e Medgar Eavers.

Assim, só depois de muitos processos de luta é que a América compreendeu que quando Thomas Jefferson escreveu que “todos os seres humanos nascem iguais…”, estes incluíam os negros, mesmo que – talvez – Jefferson (em 1776) não tivesse o mesmo esclarecimento filosófico-político dos americanos brancos que nos anos 1950 e 1960 apoiaram todo o processo de luta de Martin Luther King Jr. e outros ativistas, ou dos americanos brancos que votaram em Barack Hussein Obama em Novembro de 2008 e o reelegeram em Novembro de 2012 – americanos brancos que, aliás, são os netos e bisnetos daqueles racistas do Ku Klux Klan e de outras organizações racistas e anti-integracionistas da América do início a meados do século XX, que combatiam qualquer personalidade (branca ou negra) ou organização que pleiteasse a favor de uma América para todos, tais como a NAACP (National Association for Advancement of Coloured People [Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor]).

De fato, na última metade do século XIX, a escravatura tinha chegado ao fim e decretada como empreendimento hediondo em todo mundo, incluindo no Brasil, país que aboliu a mesma em 1888, mas em que a situação dos “negros alforriados” (como no resto do mundo) não se traduziu numa emancipação de tratamento igual, mas, pelo contrário, continuaram a ser vistos e tratados como “cidadãos de segunda categoria”. Todavia, tal como os EUA, o Brasil acabou por fazer reformas importantes, sendo a própria Constituição de 1988 (ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil) um exemplo disso mesmo.

Rota dos Escravos – Divulgação

Nesta abordagem, é inevitável não mencionar as mudanças ocorridas durante os 8 anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Apenas para exemplificar: (1) a cultura e história negras são parte obrigatória do currículo escolar brasileiro; (2) pela primeira vez, foi designado um negro para o cargo de presidente da Suprema Corte do Brasil, ou tribunal supremo; (3) está vigente um programa de quotas para negros, que procura criar equilíbrios de oportunidades, como a admissão em universidades. Sendo da mesma matriz política de Lula, a atual presidente, Dilma Rousseff, tem dado continuidade às políticas sociais introduzidas por Lula da Silva.

Na África do Sul, os mais de 40 anos de Apartheid foram um período lúgubre no qual os negros (maioria) foram “cidadãos de segunda categoria”, tendo sido alvos de desumanidades várias cujas consequências psicossociais perduram até hoje.

Assim, até aqui podemos afirmar que a escravatura, o colonialismo, o complexo de superioridade e de autorreferência assim como o desiderativismo semiótico inculcaram nos negros o problema que designamos de complexo de negro.

Colonialismo, escravatura e estados racistas (de facto e de jure) já não existem. África efetivamente libertou-se do colonialismo há várias décadas, e certos países, como Gana, Botswana e Quênia têm mais de 50 anos de independência.

Deste modo, em quinto lugar temos a incompetência e o fracasso geral dos Estados africanos quanto a realizar o cidadão, ou seja, emancipar os africanos a um nível de vida melhor, nos mais diversos aspectos.

Deveras, várias décadas depois das independências, os africanos ainda se debatem seriamente com o complexo de negro. Por quê? Podemos esgrimir três razões: (1) Os sistemas de educação dos países ora independentes não souberam resgatar a autoestima do africano, destruída por centenas de anos de colonialismo e escravatura, período durante o qual foi inculcado no africano que ele, além de ente a-histórico, não tinha civilização, sendo que suas estruturas e formas culturais eram inferiores e rudimentares, logo, precisava do homem branco para emancipar-se e ver-se e sentir-se gente – aliás, homem branco mais distante do estado de macaco, mais desenvolvido, ao contrário do negro, que até mesmo fisicamente está[va] mais próximo do macaco.

Políticas como o Estatuto do Indigenato, implementadas por França e Portugal nas suas colônias, resultaram na assimilação, ou seja, o autóctone – através da desaculturação – renunciava à sua cultura (considerada “inferior”) e absorvia (assimilava) a cultura da potência colonizadora (de Portugal, para o caso de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e demais colônias).

A escola africana falhou em demonstrar cientificamente que o africano é um ser humano, não inferior a ninguém, tem história, desenvolveu uma cultura e uma civilização próprias; a escola africana falhou em demonstrar que a América e a Europa devem aos africanos e à África o seu desenvolvimento, pois os recursos foram extraídos de África e a força usada foi de africanos reduzidos a escravos, mas que ainda assim conservaram a centelha da identidade africana; a escola africana falhou em não ter sabido ajudar a compreender o pensamento filosófico-político pan-africanista e dar-lhe contribuições; a escola africana falhou em não preparar o africano para as complexidades do desenvolvimento e soluções à altura, enfim, a escola africana não emancipou o africano com um ensino libertador – limitou-se a preparar profissionais;

Foto: Malange Angola – Foto da leitora Angela Ferreira

(2) As lideranças políticas dos movimentos de libertação e independência e que depois assumiram o poder, ao contrário do que se esperava, instalaram regimes cuja orientação não era de realização do cidadão; os países se transformaram em sociedades fechadas, centradas sobre o grupo hegemônico – sociedades sem democracia; nas quais o cidadão não podia dar o seu contributo na construção do estado. Fruto [também] do falhanço da escola africana, a incompetência evidente dos governos passou a ser vista pelo cidadão como “prova de que o negro é mesmo atrasado” – frase muito repetida por africanos e por outros que encaram o negro como um ser trágico;(3) A visão política dos governantes africanos não levou em conta o todo da idiossincrasia africana. Foram adotadas visões e políticas sociais que – além de a maioria não se rever nelas -, eram de exclusão, resultando daí conflitos.

No caso de Angola, o grupo hegemônico no poder, composto maioritariamente de cidadãos que tinham sido assimilados na Angola colonial e cultores do lusotropicalismo, cedo deixou de refletir o Outro na sua governação. O processo de fundação e construção do país foi dominado por visões, lógicas, critérios, práticas e discursos assentes em padrões predominantemente lusotropicalistas; de modo que a idiossincrasia da maioria autóctone não foi tida em conta como substância de construção da nação e do estado. O Outro foi excluído. A realidade foi mais ou menos a mesma noutros países, com algumas excepções, evidentemente.

O desiderativismo semiótico, a escravatura, o colonialismo e a incompetência e fracasso geral dos estados africanos quanto a realizar o cidadão estão na base do complexo de negro, mas tal como já abordamos atrás, em termos globais, devemos incluir os processos de segregação dos negros de países como Estados Unidos e África do Sul.

O complexo de negro apresenta várias manifestações, tais como tratamentos de pele, negação da negritude, trabalhar apenas com pessoas brancas e ter filhos com uma pessoa branca “para que tenham a ‘cor de Deus’”.

De facto, não são poucos os negros que sofrem deste complexo – são milhões! Estão tanto em África como na Europa, na América e outras partes. Tais pessoas estão tão perdidas ou até mais perdidas do que as pessoas brancas racistas.

Luanda, Angola – Foto: Divulgação

Evidentemente, os níveis de complexo de negro variam de lugar em lugar, mas em África assume proporções assustadoras, como ocorre em Angola, país em que parte dos seus cidadãos de origem bakongo já tem como prática cultural os tratamentos para clarear a pele. Esta prática absurda de negação da negritude tem consequências terríveis, como as doenças de pele de que muitos deles padecem.

A aparência ridícula e patética que passam a ter, acaba aproveitada por muitos concidadãos para os humilhar e discriminar. Em Angola, é comum um homem negro com boa condição econômica se casar com uma mulher branca ou “mulata”, regido pelos estereótipos de que “a mulher branca é ‘outra coisa’”, “a prosperidade é coisa de gente branca” assim como aquele da “vida mulata”. Ora, note-se que as palavras “branco”, “branca”, “pula”, “mulato” e “mulata” são sinônimos de prosperidade e progresso. Já as palavras “negro” e “mbumbu” são sinônimos de atraso civilizacional, estado de macaco, etc.

As sociedades devem criar estruturas que salvem os seus cidadãos do complexo de negro. Um caminho neste sentido é uma educação libertadora, regida por uma pedagogia da negritude, que devolva aos cidadãos a autoestima de negro e os ajude a compreender que o atraso de África não se deve a um suposto “estado natural inferior do africano [negro] ”.

Por dentro da África

Este artigo foi primeiramente publicado em Maka Angola e reproduzido em Por dentro da África com autorização do autor 


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