Ícones da exclusão: charges e seus simbolismos como instrumento antissocial

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From Forbes Magazine, “Tintin’s Racist Past,” by Lionel Laurent, on 23 July 2007

Ademir Barros dos Santos, Por dentro da África

“Começar pelas palavras talvez não seja coisa vã”, sugere Alfredo Bosi, logo ao iniciar seu Dialética da colonização; assim continua ele: “As relações entre os fenômenos deixam marcas no corpo da linguagem.”

Ora, tendo em vista que o termo “linguagem” é perfeitamente substituível por “código informativo”, a palavra “charge”, neste texto, refere-se ao desenho enquanto código que, utilizando distorções e exageros, satiriza situações relevantes no contexto em que ocorrem; portanto, é a marca deste momento no corpo da história.

Crédito: Paresh Nath, cartunista político

Isto posto, crê-se que, ao utilizar-se destas distorções e exageros, as charges produzem duplo resultado: se, por um lado, pontuam a realidade e formam opiniões, por outro, perenizam o momento, o que lhes garante a utilização como registro histórico.
Além disto, é de se admitir: a charge recolhe, condensa, digere, altera e devolve, a quem a ela tem acesso, fatos e concepções sociais já presentes na sociedade; assim, pode exibir e criticar conceitos que comicamente reflete, utilizando-se do humor, ácido ou não.

É neste sentido que ela, se não cria, reforça identidades que, nem sempre, correspondem ao que ali vai mostrado: afinal, nem todo judeu é avaro e usurário, e nem todo muçulmano é terrorista, como quer fazer crer a imprensa ocidental. Por último: nem todo negro é bandido, favelado, ladrão, como é voz corrente, desde os tempos da escravidão.

Fontes e recortes

Este estudo nada mais pretende que permanecer nos limites do simples artigo; dado seu caráter meramente especulativo, pouco se aventura a outras charges e desenhos que não os disponíveis na Internet; isto porque, para os objetivos aqui propostos, a abrangência temporal e o amplo espectro que a via eletrônica possibilita, são mais que suficientes.

Para a análise, serão abordadas – supérflua e brevemente, insista-se – as estigmatizações que atingem, na sociedade cristã ocidental, aos judeus, que o são quer por ascendência, quer por religião; também aos muçulmanos e, por extensão, aos árabes, assim como aos negros[1], descendentes de escravos ou não.

Judeus

Já a palavra “judeu” remete, no imaginário popular, à figura que a charge abaixo representa: um homem, provavelmente baixo, acorcundado como um rato; nariz enorme, típico, deformado; olhar sorrateiro, dissimulado; sorriso que revela quem produz – e se diverte produzindo – o mal alheio; como caráter, a impiedade, a frieza, a avareza, a ganância, a desfaçatez e a esperteza fina, fatores marcantes, infalivelmente presentes em sua personalidade; na mão, o dinheiro: deus, motor e objeto único de sua vida.

Judeu – Foto: libreopinion.com/members/patria/judeu.gif

Por outro lado, quem quer que se pareça com esta figura, será visto, pelo menos no primeiro momento, como judeu; o que ativará aqueles conceitos, cuja metáfora poderá produzir aversões – ou mesmo a exclusão social – do portador desta aparência.Como decorrência, quem quer que veja tal representação, mas não conheça judeus reais, imaginará que não deve conviver com qualquer deles, visto que é da personalidade deste estranho beijar traindo e matar sorrindo.

. Árabes e muçulmanos

Da charge abaixo, não se pode deixar de contextualizar o ambiente sócio-político e intelectual em que foi produzida: vem ela precedida de intensa campanha ocidental contra o chamado “terrorismo islâmico”, o que justifica a bomba colocada na cabeça do pretenso Maomé.

maome
Fonte: http://islamisme137.blogspot.com.br

Além disto, nenhum muçulmano tem o dever de ser terrorista; porém, como resultado e em caso de dúvida, “terrorista” é sempre o árabe mais próximo. Ou quem com árabe se pareça. É relevante ressaltar que a imprensa ocidental vem chamando “terroristas” aos árabes em geral, mesmo sabendo que nem todo árabe é muçulmano, e que nem todo muçulmano é árabe; que, subliminarmente, o texto “terrorista muçulmano”, tão corrente nos textos dos telejornais, formam subtextos mentais no ouvinte, levando-o a associar, mesmo que inconscientemente, a religião de Maomé ao terrorismo cruel, frio e exacerbado.

É importante saber, ainda, que o rosto de Maomé é desconhecido, mesmo como representação e ideologia, já que o islamismo original condena o culto à personalidade…

Mas, como assim é, é possível que a aparência de Jean Charles, o brasileiro morto em Londres como terrorista, se encontre entre as causas prováveis de seu frio assassinato…

. Negros

Dentre as principais populações vistas como desviantes, estão os negros, o que, possivelmente, encontre justificação na Igreja, cujo poder, à época dos Descobrimentos, era transportado pelas caravelas, em suas travessias; a partir de então, a escravização de africanos passa a ser vista como obra pia, transformando em missão da Igreja a retirada de africanos de seu continente de origem, onde o Demônio, para ela e naquele momento, estava em seu próprio reino!

Como decorrência e exemplo, ainda hoje as estampas de São Miguel derrotando definitivamente o Demônio, conforme exposto em Apocalipse 12:7-9, apresentam:

. o arcanjo, com características tipicamente européias: pele muito branca, vestimenta similar à dos legionários romanos; a balança da Justiça ostentada à mão esquerda; na direita, a espada do Divino;

. quanto ao demônio, traz a pele negra e o cabelo carapinha, remetendo ao africano típico; as asas lembram as dos vampiros e morcegos.

São Miguel Arcanjo – http://www.dgp.eb.mil.br/dap/sarex/saomiguel.htm

Quando muito, é comparado a subumano, animal de transição entre o símio e o homem branco. Por isto, a este mal acabado protótipo de gente, o mundo ainda atira bananas…Isto porque o grupo negro, especialmente pós conquista do continente africano, passou a ser visto pejorativamente, quer em seu continente, quer em qualquer ponto da diáspora; em decorrência, em praticamente todos os formatos de linguagem adotados após o séc. XVI, incluídas aí as charges, este povo é visto como beiçudo, feio, imbecil, próximo, muitas vezes, dos animais irracionais.

Quanto ao caráter do negro, à vista de sua postura enquanto revolta perante a escravização, é visto como refratário ao progresso, insubordinado, avesso às leis, dado a vícios, traiçoeiro e vagabundo.

No resumo: imbecilizado, animalizado, incógnita social.

Dos resultados de tais posturas dão conta, farta, tanto o IDH – que apresenta mais de noventa por cento dos países africanos entre os de pior desempenho neste índice – quanto os mais diversos censos que, tanto vistos por série histórica, quanto pelos espaços onde a diáspora se espraia, apresentam, consistente e recorrentemente, escravodescendentes concentrados nos níveis ocupados pela base social.

Daí o fato histórico provocador das diversas ações inclusivas – ou discriminações positivas, ou ações afirmativas – como, intercambiavelmente, políticos e cientistas sociais denominam as tentativas de eliminar tais desigualdades. Que as charges abordam; humorística, embora causticamente. Veja:se:

feriadoConclusão

Parece certo que os desenhos de humor carregam, consigo, as marcas do tempo em que foram produzidos; e por isto conservam, como subproduto, resíduos do pensamento sociopolítico de seu tempo.

Como conseqüência, parece natural a utilidade deste tipo de desenho como documento histórico-social válido; mesmo que, apenas, de caráter indiciário: afinal, se esta produção depende do contexto para ser entendida, é evidente que remete a fatos e posturas que, de alguma forma, suportam a análise do momento de sua produção.

Assim sendo, já que é certo que grupos sociais como os aqui enfocados, mesmo quando transitando pela sociedade ampla, sofrem restrições sociais, quando não legais e explícitas, também é certo que desenvolvem estratégias de resistência e sobrevivência, escrevendo a própria história – sub-história – que o discurso oficial não registra.

Por fim, é relevante mencionar que a busca de conhecimento sobre os formatos e justificativas que levaram à estigmatização de grupos, mesmo quando esta, nos dias atuais, já se encontre mais amena – tais como com os ciganos e os comunistas – talvez só se possa socorrer das charges.

Isto porque, por estigmatizada, a história destes grupos talvez não se encontre entre as fontes costumeiras; mas pode estar nas charges, preservada para estudo, e é por lá que podem estar escondidas as mazelas – talvez entrelaçadas nas entrelinhas do humor.

Bibliografia

cartoon africa
Crédito: Paresh Nath, cartunista político

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Charge reproduzida do site “Joaquim Barbosa Presidente”

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[1] Aqui, significando os africanos e seus descendentes fora da África ou não, desde que tenham a evolução social marcada por esta ascendência.

Este conteúdo pertence ao Por dentro da África. Para reprodução, entre em contato com a redação

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Ademir Barros dos Santos
É ex-mestrando em História Social pela USP, pesquisador em Ciências Sociais e produtor de pesquisas acadêmicas, especialmente sobre as práticas de exclusão e seus efeitos sociais. Estudioso de história e cultura de matriz africana, ele desenvolve, desde 2005, o curso “África - nossa história, nossa gente” como parte da extensão universitária de história, cultura e dispersão da matriz africana e do povo negro pela Universidade de Sorocaba.

1 COMENTÁRIO

  1. Bom o texto. Preocupa-me, contudo, o uso que fizemos da expressão “nem todo… é”. Dito assim, parece-me, salvo carência de entendimento meu, o que é possível, admito, a expressão não se apresenta como das melhores na argumentação. Se afirmo que nem todo A é B, está implícito, via inferência, quando tal se dá num texto e não num diagrama lógico ou numa simples proposição, que considerável contingente de A é B.