Conheça a Somalilândia, país que luta pelo seu reconhecimento internacional

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Guilherme Canever – Divulgação

Por Guilherme Canever, Por dentro da África 

Hargesia – Quando iniciei minha travessia pela África Oriental, na Cidade do Cabo, a Somalilândia não era mais do que um sonho distante. Não só pela distância em si, mas pelas poucas informações que tinha do destino.

A Somalilândia, antiga Somália Britânica, se uniu com a Somália Italiana em 1960 para formar a Somália, país conhecido em atlas e livros de história. Uma sucessão de golpes de Estado e a disputa pelo poder entre os clãs geraram guerra civil. Em 18 de maio de 1991 foi declarada a independência da República da Somalilândia. Desde então, o país se mantém “de fato” independente, mas sem reconhecimento internacional.

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Seis meses de estrada e eu estava no “Liaison Office” da Somalilândia em Addis Abeba, capital da Etiópia. Após rápida entrevista e longa conversa com o Sr Derie, ele emitiu os vistos e passou alguns telefones caso eu precisasse de algum auxílio. É preciso ressaltar que, ao viajar para países em que o Brasil não tem relações diplomáticas, você fica por sua conta e risco. Pouco o Itamaraty poderia interferir no caso de algum problema.

Ao entrar no país (de cerca de 4 milhões de pessoas) era como se eu estivesse rompendo uma bolha, atravessando um universo paralelo. Sempre imaginava as grandes dificuldades que teria para viajar de forma independente e com orçamento apertado por  uma região como esta. A verdade é que independente do que o mundo exterior pense de lá, eles têm o dia a dia deles, e as coisas funcionam da sua maneira. É incrível o poder de adaptação do ser humano.

somaliland mapaHargesia, a capital da Somalilândia é intensa, cheia de pessoas, muitas delas desempregadas. Grande parte da economia vem de remessas de somalilanders que emigraram para outros países. Ler o jornal do dia (existem publicações em inglês), tomar chá, visitar os mercados de animais e de ouro mantiveram os meus dias ocupados. Conhecer a burocracia do país para emitir autorizações para viajar fora da capital também tomou tempo, mas o que mais me atraia era conversar com as pessoas e conhecer as histórias de vida. Inicialmente sempre tem aquela desconfiança, perguntavam se eu era jornalista, mas ao saberem que eu era um simples turista, e do Brasil, se derretiam de simpatia.

Com o calor intenso que faz no Chifre da África, o passatempo preferido é ficar na sombra mascando khat, uma folha estimulante, que atua como uma leve droga viciante.

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Transporte público só entre as cidades, então, tive que negociar com um táxi para visitar as impressionantes pinturas rupestres no complexo de cavernas de Laas Gell. Se fosse em qualquer outro país com certeza faria parte do patrimônio da Unesco, mas ali estava abandonado…

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Uma região incrível, mas que, por questões de segurança, só podem ser visitadas por estrangeiros com um soldado fazendo segurança. Preço fixo de 10 dólares por dia, que dividi com outros dois amigos que viajavam comigo. Entorpecidos com Khat, imaginava que a compulsoriedade do segurança armado era muito mais para gerar emprego do que para a segurança em si.

A histórica cidade de Berbera, na beira do Golfo do Aden, foi onde eu me senti em casa. Povo ainda mais hospitaleiro, era capaz de caminhar quilômetros para nos levar a algum lugar quando pedíamos informação, sempre recusando qualquer tipo de gratificação. Os muçulmanos, seguindo orientações do Corão, sabem tratar muito bem os seus hóspedes.

Cidade calma, com camelos descansando nas sombras e as hipnotizantes chamadas das mesquitas. Tentei em vão conseguir embarcar em um dos barcos que transportam gado para o Iêmen. Foram dias agradáveis tomando banho de mar, visitando feiras noturnas, tomando leite de camela e jogando futebol na beira da praia. Foi possível até fazer um mergulho com cilindro, por 20 dólares, com certeza um dos mais baratos do mundo.

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Terminamos nossa viagem pelo país atravessando o deserto até o Djibuti. Não foi tarefa fácil, e nunca teríamos conseguido sem o auxilio de moradores da pequenas vilas no caminho que nos ajudaram a desencalhar o carro e forneceram comida, em nome da hospitalidade. Lembro que comíamos um churrasco de bode em uma pequena casa e comentei que era do Brasil. A reação do anfitrião não foi falar de futebol e sim apontar para a janela, onde um saco de açúcar brasileiro tremulava – era usado para tapar o sol.

Depois da grata experiência que tive na Somalilândia, resolvi criar um projeto de visitar os países com reconhecimento limitado. Já estive na Abecásia, Nagorno-Karabakh, Chipre do Norte, Saara Ocidental, Palestina, Kosovo e República da Transnístria. Mais detalhes no blog saiporai.com ou no facebook: www.facebook.com/SaiPorAi.