África em Crônica: Violando as linhas

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Captura de tela 2015-09-21 às 22.02.41Por Michele Louvores, Por dentro da África

Aprende-se na escola: 23 de setembro é, oficialmente, o dia de início da primavera. Mas em 2015, a estação das flores chegou mais cedo. Em 21 de setembro, o último vento do inverno espalhou as folhas do vestido de Viola Davis nas timelimes, trending topics e capas de portais de todo o mundo por seu discurso como a primeira atriz negra a ganhar o Emmy.

Finalmente – sim, porque 24 horas no mundo da informação é uma eternidade – eu assisti ao discurso de Viola. A fala é breve. E você não precisa entender uma palavra de inglês, saber o que é empoderamento feminino, conhecer profundamente a política de cotas ou concordar com a existência do racismo para “ler” a atitude de Viola em seu corpo.

Naqueles dois minutos, o discurso precede a fala. Tire a legenda e sinta o triunfo em sua voz firme e embargada. Mais: coloque o vídeo no mute e veja o orgulho em sua postura. Não há ali uma atriz. Há apenas uma pessoa que venceu.

Viola violou as linhas? Halle Berry, quando ganhou o Oscar há 13 anos, fez história? Lupita Nyong’o, melhor atriz coadjuvante de 2014, abriu precedente? Dirão alguns: não, elas apenas se adaptaram à lógica de uma indústria branca para (se) vender. Ou: trata-se apenas de um mea culpa que Hollywood transformou em mais um espetáculo de redenção. E talvez eles tenham razão.

O fato é que essas e outras opiniões suscitam discussões inéditas. Discussões que antes não aconteciam não porque eram desnecessárias, mas porque eram inimagináveis. Falar sobre atrizes negras ganhadoras de prêmios não era um assunto porque, como a própria Viola diz, os papéis para elas sequer existiam.

Mas o que me saltou aos olhos é que Viola não precisaria falar nada disso para dizê-lo: sua presença naquele púlpito já diz tudo. Eis a linha violada.

Corta para Viola. A câmera pega atrizes na plateia, a maioria negra. E estas são as mais emocionadas, as que a aplaudem de pé. A cena respira. Ela fala de grandes artistas negros. E entre eles e Viola, não há uma linha, mas um espelho.

Eles são pares. Pausa. Viola se torna inspiração, sua foto vai estampar o mural imaginário de quem deseja chegar lá. Aplausos. E então, acontece: mesmo sem som, a TV começa a trincar.

O LCD derrete. Rompe-se a quarta parede. Não há mais separação entre cena e espectador.
Todos os que querem vencer se veem representados por aquela vitória. E tudo isso traduz uma força que não é só de Viola e nem por ela. É para todos que se sentem representados por sua trajetória. É por eles que ela fala, é pelo seu futuro.

É pela primavera de gerações inteiras. É para aqueles que se reconhecem na imagem da mulher negra com o troféu na mão. É para que, muito em breve, todos possam florescer com mais naturalidade.


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